CAPÍTULO 1. Como São Francisco começou a servir a Deus

3. Correndo o ano de 1207 da Encarnação do Senhor, no dia 16 de abril, vendo Deus que seu povo, remido com o sangue precioso de seu Filho unigênito, vivia esquecido de seus mandamentos e ingrato para com os seus benefícios, depois de ter usado de misericórdia para com ele durante longo tempo, "não querendo a morte do pecador, mas que se converta e viva" (Ez 33,11), movido por sua bondade infinita, decidiu enviar operários para a sua messe.

E iluminou um homem da cidade de Assis, chamado Francisco, negociante de profissão, grande esbanjador das riquezas mundanas.

4. Certo dia estava ele na loja, onde costumava vender panos, totalmente absorvido em pensamentos de negócios, quando apareceu um pobre pedindo esmola por amor de Deus. Francisco, imerso em seus sonhos de riqueza, mandou-o embora sem dar-lhe nada.

Enquanto o mendigo se afastava, o jovem, tocado pela graça divina, começou a reprovar sua própria grosseria, dizendo: "Se aquele pobre te houvesse pedido uma contribuição em nome de algum conde ou grande barão, decerto que o terias atendido. Quanto mais o devias ter feito, tendo ele pedido em nome do Rei dos reis e Senhor do universo!"

E por este motivo propôs, em seu íntimo, não recusar mais nada, daí em diante, de tudo que lhe fosse pedido em nome do Senhor. E fazendo voltar o pobre, deu-lhe uma generosa esmola.

Ó coração cheio de toda graça, fecundo e iluminado! Ó firme e santo propósito, que traz consigo uma admirável, inesperada, extraordinária iluminação do futuro! Nem é para se admirar, pois o Espírito Santo diz pela boca de Isaías: "Se repartires teu pão com o esfaimado e saciares aquele que tem fome, tua luz brilhará na escuridão e tuas trevas serão como o meio-dia. Se repartires teu pão com o faminto, tua luz surgirá como a aurora e tua justiça caminhará diante de ti" (Is 58,7-8).

5. A este homem santo aconteceu pouco depois um fato notável, que é necessário lembrar. Certa noite, enquanto dormia em seu leito, apareceu-lhe uma pessoa que o chamou pelo nome e o levou a um palácio de extraordinário esplendor e beleza, cheio de armas e com escudos esplêndidos, marcados com uma cruz, pendurados na parede por todos os lados.

Perguntou ao guia para saber de quem eram aquelas armaduras tão brilhantes e aquele palácio tão agradável. "Tudo isso, inclusive o palácio - respondeu-lhe o acompanhante - é teu e de teus cavaleiros".

Quando acordou, começou a interpretar o sonho em sentido mundano, como quem ainda não tinha experimentado plenamente o espírito de Deus, e imaginava que se tornaria um príncipe magnífico. E pensando nisso, resolveu fazer-se cavaleiro para conquistar tal principado. Por isso resolveu juntar-se ao conde Gentil, que partia para a Apúlia, onde seria armado cavaleiro por ele. Para esse fim preparou uma bagagem de vestes preciosas.

Tornou-se, por isso, mais alegre ainda do que de costume e encantava a todos. A quem lhe perguntava pelo motivo desta súbita felicidade, respondia: "Sei que me tornarei um grande príncipe".

6. Pegou um escudeiro e saiu a cavalo, dirigindo-se à Apúlia. Perto de Espoleto, preocupado com a viagem, quando anoiteceu parou para dormir. Ao adormecer ouviu uma voz que lhe perguntou para onde estava indo. Ele explicou, por ordem, todo o seu plano.

Então a voz lhe disse: "Quem te pode ser melhor, o senhor ou o escravo?" Ele responde: "O senhor". A voz lhe replicou: "E então, por que abandonas o Senhor pelo escravo; o Príncipe pelo empregado?" Francisco responde: "Sc-nhor, que queres que eu faça?" A voz tornou: "Volta para a tua cidade, para fazer o que o Senhor te vai revelar".

Por graça divina sentiu-se de repente mudado, assim lhe parecia, num outro homem.

7. Na manhã seguinte iniciou o caminho de volta, conforme lhe tinha sido ordenado. Chegando a Foligno vendeu o seu cavalo e os trajes que havia vestido quando se dirigiu à Apúlia; vestiu-se mais pobremente e reiniciou a viagem, levando consigo o dinheiro que conseguira com a venda. Nas vizinhanças de Assis parou numa igreja, construída em honra de São Damião, e encontrou um sacerdote pobre que ali morava, chamado Pedro; a ele confiou o dinheiro, para que o guardasse. Mas o padre se recusou a isso, por não ter lugar seguro para guardá-lo. Francisco jogou então, com desprezo a bolsa por uma janela daquela igreja.

Movido por inspiração divina, vendo que aquela pobre igrejinha ameaçava ruína, propôs restaurá-la com aquele dinheiro e fixar ali a sua residência. Por convite de Deus, pôs tal propósito imediatamente em execução.

8. Sabendo disso, o pai, que o amava a seu modo e queria de todo jeito reaver o dinheiro, tomou-o consigo e, cobrindo Francisco de impropérios, exigia o dinheiro de volta.

Na presença do bispo de Assis, alegremente, deu ao pai o dinheiro e a própria roupa que usava, ficando nu; o bispo o abraçou e cobriu com seu manto.

Daí em diante, privado de tudo, enfiou um traje miserável, andou pelos arredores de São Damião, com a intenção de lá ficar. O Senhor enriqueceu este jovem. pobre e desprezado, enchendo-o do Espírito Santo e colocando-lhe na boca a palavra de vida, para que pregasse e anunciasse ao povo o juízo e a misericórdia, o castigo e a glória, recordando-lhes os mandamentos de Deus, que tinham esquecido. "Deus o constituiu príncipe de uma multidão" (Gn 17,4), para que a reunisse em unidade por todo o mundo.

O Senhor o conduziu pelo caminho estreito e certo pois não quis possuir ouro nem prata, nem dinheiro nem coisa nenhuma, mas em humildade, pobreza e simplicidade de coração seguia o Senhor.

9. Andava de pé descalço, com um hábito muito pobre, cingindo os flancos com um cinto.

Em qualquer lugar em que o pai o encontrasse, esmagado pela dor, o amaldiçoava. Mas Francisco se aproximava de um velho mendigo, chamado Alberto, pedindo-lhe que o abençoasse. Muitos outros zombavam dele coin palavras ofensivas; quase todos achavam que ele tinha enlouquecido. Mas ele mesmo não se preocupava com isso; e, principalmente, não dava resposta a ninguém; só se preocupava em seguir o que Deus lhe indicava. "Não se apoiava em eloqüência persuasiva, de sabedoria humana, mas na manifestação e no poder do Espírito" (1Cor 2,4).