CAPÍTULO 2. Os dois primeiros seguidores de Francisco

10. Vendo e ouvindo isto, dois homens de Assis, inspirados pela graça divina, aproximaram-se humildemente dele. Um deles era Frei Bernardo, o outro Frei Pedro. E disseram-lhe com simplicidade: "De agora em diante queremos ficar contigo e fazer o que fazes. Explica-nos o que devemos fazer com nossos haveres". Francisco, exultando pela chegada deles e pelo desejo que tinham, respondeu carinhosamente: "Vamos pedir conselho ao Senhor".

Dirigiram-se a uma igreja da cidade, entraram e se ajoelharam para rezar: "Senhor Deus, Pai da glória, nós vos suplicamos que em vossa misericórdia, nos mostreis o que devemos fazer". Terminada a oração, disseram ao sacerdote da dita igreja, que estava presente: "Padre, mostra-nos o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo".

11. Tendo o sacerdote aberto o livro, visto não serem eles ainda muito práticos na leitura, encontraram logo esta passagem: "Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres, e terás um tesouro no céu" (Mt 19,21). Virando outras páginas, leram: "Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me" (Mt 16,24). E voltando mais outras páginas: "Não leveis coisa alguma para o caminho, nem bastão, nem mochila, nem pão, nem dinheiro, nem tenhais duas túnicas" (Lc 9,3).

Ouvindo estas palavras, ficaram cheios de viva alegria e disseram: "Eis aí o que mais queríamos, eis aí o que procurávamos". E o bem-aventurado Francisco disse: "Esta será nossa Regra". E acrescentou, voltando-se para os dois: "Ide pôr em prática o conselho que ouvistes do Senhor".

Frei Bernardo afastou-se e, sendo rico, apressou-se em vender tudo que possuía recebendo muito dinheiro. Frei Pedro era pobre de bens terrenos, mas já era rico em bens espirituais. Também ele fez como lhe fora aconselhado. Em seguida ajuntaram os pobres da cidade para distribuir entre eles o dinheiro arrecadado com a venda de suas propriedades.

12. Estavam fazendo isso, e Francisco estava com eles, quando veio um sacerdote chamado Silvestre, de quem o bem-aventurado Francisco tinha adquirido pedras para restaurar a igreja de São Damião, perto da qual morava antes de ter companheiros.

Vendo distribuir tanto dinheiro, aquele padre, ardendo em grande avareza, desejava receber também ele um punhado de moedas, e reclamava: "Francisco, não me pagaste inteiramente as pedras que te forneci".

Ouvindo o santo esta repreensão injusta, ele que estava livre de qualquer avareza, aproximou-se de Frei Bernardo e. passando a mão no manto dele, onde estava o dinheiro, encheu-a e deu-a ao sacerdote. Pegou ainda uma segunda mão cheia e a deu a Silvestre, dizendo-lhe: "A dívida está totalmente paga?" "Totalmente", respondeu ele, voltando todo satisfeito para a sua casa.

13. Poucos dias depois Silvestre, inspirado pelo Senhor, refletindo sobre o gesto do bem-aventurado Francisco, dizia: "Sou mesmo um desgraçado! Velho como sou, eis-me preso ao dinheiro e furiosamente à busca dele, enquanto aquele jovem o despreza e aborrece por amor de Deus".

Na noite seguinte viu, em sonho, uma cruz enorme, que com a ponta tocava o céu e sua base saía da boca do bem-aventurado Francisco; e os braços da cruz se estendiam de uma extremidade do mundo até a outra.

Ao acordar compreendeu que Francisco era de fato amigo de Deus e que o seu movimento religioso se estenderia ao mundo inteiro. Começou assim a temer a Deus e a fazer penitência em sua casa. E pouco tempo mais tarde entrou na Ordem, onde levou uma vida de santidade e morreu gloriosamente.