|
14. Frei Bernardo e Frei Pedro, tendo vendido seus bens e
distribuído o fruto aos pobres, como já contamos, vestiram-se ao
modo de Francisco e se uniram a ele.
Não tendo casa que os abrigasse, puseram-se a caminho e encontraram
uma igreja pobrezinha e quase abandonada: Santa Maria da
Porciúncula. Construíram ali uma cabana e moraram juntos.
Oito dias depois, um homem de Assis, Egídio, cheio de fé e
devoção e a quem o Senhor deu graças especiais, chegou ali. De
joelhos, com grande devoção e reverência, pediu a Francisco que o
recebesse em seu grupo. E o santo, feliz em ver aquela cena e ouvir
aquelas palavras, o acolheu com alegria. Os quatro sentiram-se
invadidos por uma extraordinária alegria espiritual.
15. Em seguida Francisco levou Frei Egídio consigo e o conduziu
até a Marca de Ancona. Os outros dois ficaram na Porciúncula.
Durante a viagem exultaram ardentemente no Senhor, enquanto
Francisco cantava em francês, Louvando e bendizendo o Senhor com
voz claríssima.
Estavam tão alegres como se tivessem descoberto um grande tesouro.
Nada mais natural do que esse seu contentamento; de fato tinham
abandonado todos os seus haveres e consideravam como lixo aquelas coisas
que justamente atormentavam os homens; e pensavam nas amarguras que os
mundanos sofrem nos seus prazeres, que escondem tantas misérias e
tristezas.
Francisco disse ao seu companheiro Egídio: "Nosso movimento
religioso é comparável ao pescador, que lança sua rede na água,
pegando uma grande quantidade de peixes; reserva para si os maiores,
os menores joga de novo na água". Egídio estava admirado com aquela
profecia, sabendo bem que o número dos irmãos era reduzido.
Francisco ainda não pregava ao povo de Deus. Mas quando passava
pelas cidades e castelos exortava os homens e as mulheres a temer e amar
o Criador do céu e da terra, e a fazer penitência de seus pecados.
Egídio limitava-se a comentar: "Ele fala muito certo; crede
nele".
16. Os ouvintes se perguntavam: "Quem são esses dois e o que
estão dizendo?"
Alguns respondiam que eram tipos exaltados ou embriagados. Outros,
ao contrario, sustentavam: "Mas o que eles estão dizendo não é
linguajar de loucos". E alguém observou: "Com sede de perfeição
profunda seguem o Senhor ou perderam a cabeça. Não estão vendo a
vida desesperada que levam? Andam de pé descalço, vestidos com
hábitos grosseiros, não comem quase nada".
E naquele tempo ninguém os seguia. As mulheres e as moças,
vendo-os ao longe, fugiam imediatamente, como de loucos. Mas,
mesmo que não os seguissem, todos ficavam edificados ao vê-los em
seu modo santo de viver.
Depois de ter percorrido aquela região, voltaram ao citado lugar de
Santa Maria dos Anjos.
17. Depois de poucos dias, vieram outros três assisienses:
Sabatino, João e Mórico, o Pequeno; suplicaram humildemente a
Francisco que os recebesse entre os seus amigos. E ele os acolheu,
benévola e alegremente.
Quando iam pela cidade para pedir esmola, ninguém lhes queria dar,
mas os maltratavam, dizendo: "Como? Jogastes fora o dinheiro, e
agora quereis viver às custas dos outros?" E assim passavam um
aperto extremo. Pais e parentes os perseguiam; os outros, pequenos e
grandes, homens e mulheres, desprezavam-nos e riam-se deles como se
fossem doidos. Só o bispo da cidade fazia exceção, e Francisco o
procurava muitas vezes para pedir conselho.
Este era o motivo da perseguição dos pais e parentes e das
zombarias: naquele tempo não se via ninguém que abandonasse seus bens
e fosse pedir esmola de porta em porta.
Certa vez, quando Francisco foi procurar o bispo, este disse-lhe:
"Vossa vida me parece dura e áspera demais, por não possuirdes nada
neste mundo". O santo respondeu-lhe: "Senhor, se tivéssemos
posses, para protegê-las precisaríamos de armas, pois é por causa
das propriedades que surgem questões e litígios, e de tal modo que o
amor de Deus e do próximo fica impedido. Por esta razão decidimos
não possuir nada".
Esta resposta agradou ao bispo.
|
|