CAPÍTULO 5. Dificuldades que os irmãos encontram durante a sua missão

19. Durante a viagem, onde os devotos servos do Senhor encontrassem uma igreja, usada ou abandonada, ou mesmo uma cruz à beira da estrada, paravam para recitar com fervor esta oração: "Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos, aqui e em todas as igrejas do mundo, porque por vossa santa cruz remisses o mundo". E ali tinham fé no Senhor e sentiam sua presença.

Quem os visse maravilhava-se: "Nunca vimos religiosos vestidos desta maneira". Sendo diferentes, pelo traje e pela vida, de todos os outros, pareciam homens vindos do mato. Entrando numa cidade, num castelo numa casa, anunciavam a paz. Em qualquer parte em que se encontravam com homens e mulheres, fosse pelo caminho ou fosse nas praças, admoestavam-nos a temer e amar o Criador do céu e da terra, a lembrar-se dos seus mandamentos caídos no esquecimento e a esforçar-se para pô-los em prática.

Alguns ouviam com simpatia e contentamento; havia outros, ao contrário, que zombavam deles. Alguns enchiam-nos com perguntas, e era cansativo submeter-se a todos aqueles interrogatórios. Quando há novidades, naturalmente surgem as curiosidades. Diziam: "De onde sois?" Ou então: "A que Ordem pertenceis?" E eles respondiam com simplicidade: "Somos penitentes e viemos da cidade de Assis". A religião dos irmãos, na verdade, ainda não era chamada de Ordem.

20. Muitos, ao vê-los e ouvi-los, achavam que eles eram uns impostores ou loucos. Alguns acrescentavam: "Não quero recebê-los em casa, porque são capazes de roubar minhas coisas". Com essas suspeitas, em alguns lugares, atacavam-nos com injúrias. Por isso paravam mais vezes nos pórticos das igrejas ou nas casas anexas.

Dois frades, chegados a Florença, iam pela cidade procurando alguém que lhes desse hospedagem, e não conseguiam encontrar ninguém. Chegados a uma casa, que tinha na frente um alpendre com o forno, disseram um ao outro: "Podemos ficar aqui". Pediram à dona da casa para recebê-los; mas tendo ela recusado imediatamente, pediram-lhe permissão para ao menos ficar perto do forno.

E a dona consentiu. Mas quando o marido dela chegou e descobriu os dois ao lado do forno, se queixou: "Por que deste hospedagem a esses malandros?" Ela respondeu: "Não quis alojá-los dentro de casa, mas permiti que ficassem no alpendre: quando muito poderão roubar um pouco de lenha". Por causa da desconfiança, não lhes deram nada para cobrir-se, embora fizesse muito frio.

Durante a noite os dois se levantaram para ir rezar Matinas, dirigindo-se à igreja mais próxima.

21. Ao raiar do dia aquela senhora foi à igreja para ouvir missa, e viu-os mergulhados na oração, devotos e humildes. Disse então consigo mesma: "Se esses homens fossem malandros, como pensou meu marido, não rezariam com tanta devoção".

E eis que um certo Guido andava pela igreja, oferecendo esmolas aos pobres ali presentes. Chegando junto dos frades, queria dar um dinheiro a cada um deles, mas não o aceitaram. Então ele disse: "Mas por que não aceitais as moedas, como os outros pobres, vós que tendes tanta necessidade?" Um deles, Bernardo, respondeu: "De fato somos pobres, mas é uma pobreza que não pesa, pois foi espontaneamente que nos fizemos pobres, pela graça de Deus e para seguir o seu conselho".

22. Todo admirado, Guido perguntou se tinham tido alguma propriedade. Responderam que sim, que tinham possuído bens, mas os haviam distribuído aos pobres, por amor a Deus.

Também aquela senhora vendo-os recusar o dinheiro, chegou perto e disse: "Cristãos, se quiserdes voltar à minha casa, dar-vos-ei hospedagem com muita alegria". Responderam gentilmente: "O Senhor vos pague!" Mas Guido levou-os à casa dele e disse: "Eis a morada que Deus vos preparou! Ficai aqui à vontade". Os dois agradeceram a Deus, que fora misericordioso para com eles e ouvira a oração de seus pobrezinhos. Ficaram ali por alguns dias. E Guido, tocado por suas palavras e pelo bom exemplo, fez depois generosos donativos aos pobres.

23. Apesar de este homem tratá-los com tanta benevolência, pelo povo eram geralmente considerados, ao contrário, como mendigos; e todos, pequenos e grandes, ridicularizavam-nos, com palavras e ações, como fazem os donos com seus escravos. Até a roupa deles arrancavam, por mais esfarrapada e gasta que fosse. Ficando nus, sem um trapo sequer, observavam o conselho do Evangelho de não exigir de volta o que fosse tirado. Mas se por compaixão lhes restituíam a túnica, retomavam-na com gratidão.

Alguns jogavam lama na cabeça deles, outros colocavam dados nas mãos deles, convidando-os para jogar. Um outro pôs um frade nas costas, segurando-o pelo capuz, e pulou com ele até enjoar. Estes e outros maus tratos faziam com eles; mas não podemos contá-los todos para não nos alongarmos demais. Eram considerados como pobres diabos, e até pior, tratavam-nos como se fossem malfeitores; isso tudo sem falar no que sofriam pela fome e sede, pelo frio e pela falta de roupas suficientes.

Mas sofriam tudo com coragem e paciência, conforme Francisco lhes tinha ensinado. Não se deixavam dominar pela tristeza, não ficavam contrariados, mas como homens empenhados em grandes lucros, exultavam nas tribulações e se alegravam, orando sinceramente a Deus por seus perseguidores.

24. O povo, vendo-os serenos em meio aos sofrimentos aceitos pacientemente pelo Senhor, e sempre esforçados para rezar com devoção, recusando receber e ter consigo dinheiro, como o faziam os outros pobres, e eles querendo bem um ao outro, sinal de que eram discípulos de Cristo: muitos ficaram comovidos e arrependidos, e foram pedir-lhes desculpas pelos maus tratos. Os frades perdoavam de coração, respondendo com alegria: "O Senhor vos perdoe!" E assim ficavam ali de bom grado para ouvir.

Alguns até acabavam pedindo para sempre recebidos em seu grupo; e de fato aceitaram alguns deles. Naquele tempo, sendo os irmãos muito poucos, Francisco lhes permitia receber aqueles que lhes parecessem recomendáveis. Na data marcada retomaram a Santa Maria da Porciúncula.