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19. Durante a viagem, onde os devotos servos do Senhor
encontrassem uma igreja, usada ou abandonada, ou mesmo uma cruz à
beira da estrada, paravam para recitar com fervor esta oração:
"Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos, aqui
e em todas as igrejas do mundo, porque por vossa santa cruz remisses o
mundo". E ali tinham fé no Senhor e sentiam sua presença.
Quem os visse maravilhava-se: "Nunca vimos religiosos vestidos
desta maneira". Sendo diferentes, pelo traje e pela vida, de todos
os outros, pareciam homens vindos do mato. Entrando numa cidade, num
castelo numa casa, anunciavam a paz. Em qualquer parte em que se
encontravam com homens e mulheres, fosse pelo caminho ou fosse nas
praças, admoestavam-nos a temer e amar o Criador do céu e da
terra, a lembrar-se dos seus mandamentos caídos no esquecimento e a
esforçar-se para pô-los em prática.
Alguns ouviam com simpatia e contentamento; havia outros, ao
contrário, que zombavam deles. Alguns enchiam-nos com perguntas, e
era cansativo submeter-se a todos aqueles interrogatórios. Quando
há novidades, naturalmente surgem as curiosidades. Diziam: "De
onde sois?" Ou então: "A que Ordem pertenceis?" E eles
respondiam com simplicidade: "Somos penitentes e viemos da cidade de
Assis". A religião dos irmãos, na verdade, ainda não era
chamada de Ordem.
20. Muitos, ao vê-los e ouvi-los, achavam que eles eram uns
impostores ou loucos. Alguns acrescentavam: "Não quero
recebê-los em casa, porque são capazes de roubar minhas coisas".
Com essas suspeitas, em alguns lugares, atacavam-nos com injúrias.
Por isso paravam mais vezes nos pórticos das igrejas ou nas casas
anexas.
Dois frades, chegados a Florença, iam pela cidade procurando
alguém que lhes desse hospedagem, e não conseguiam encontrar
ninguém. Chegados a uma casa, que tinha na frente um alpendre com o
forno, disseram um ao outro: "Podemos ficar aqui". Pediram à
dona da casa para recebê-los; mas tendo ela recusado imediatamente,
pediram-lhe permissão para ao menos ficar perto do forno.
E a dona consentiu. Mas quando o marido dela chegou e descobriu os
dois ao lado do forno, se queixou: "Por que deste hospedagem a esses
malandros?" Ela respondeu: "Não quis alojá-los dentro de casa,
mas permiti que ficassem no alpendre: quando muito poderão roubar um
pouco de lenha". Por causa da desconfiança, não lhes deram nada
para cobrir-se, embora fizesse muito frio.
Durante a noite os dois se levantaram para ir rezar Matinas,
dirigindo-se à igreja mais próxima.
21. Ao raiar do dia aquela senhora foi à igreja para ouvir missa,
e viu-os mergulhados na oração, devotos e humildes. Disse então
consigo mesma: "Se esses homens fossem malandros, como pensou meu
marido, não rezariam com tanta devoção".
E eis que um certo Guido andava pela igreja, oferecendo esmolas aos
pobres ali presentes. Chegando junto dos frades, queria dar um
dinheiro a cada um deles, mas não o aceitaram. Então ele disse:
"Mas por que não aceitais as moedas, como os outros pobres, vós
que tendes tanta necessidade?" Um deles, Bernardo, respondeu:
"De fato somos pobres, mas é uma pobreza que não pesa, pois foi
espontaneamente que nos fizemos pobres, pela graça de Deus e para
seguir o seu conselho".
22. Todo admirado, Guido perguntou se tinham tido alguma
propriedade. Responderam que sim, que tinham possuído bens, mas os
haviam distribuído aos pobres, por amor a Deus.
Também aquela senhora vendo-os recusar o dinheiro, chegou perto e
disse: "Cristãos, se quiserdes voltar à minha casa, dar-vos-ei
hospedagem com muita alegria". Responderam gentilmente: "O Senhor
vos pague!" Mas Guido levou-os à casa dele e disse: "Eis a
morada que Deus vos preparou! Ficai aqui à vontade". Os dois
agradeceram a Deus, que fora misericordioso para com eles e ouvira a
oração de seus pobrezinhos. Ficaram ali por alguns dias. E
Guido, tocado por suas palavras e pelo bom exemplo, fez depois
generosos donativos aos pobres.
23. Apesar de este homem tratá-los com tanta benevolência, pelo
povo eram geralmente considerados, ao contrário, como mendigos; e
todos, pequenos e grandes, ridicularizavam-nos, com palavras e
ações, como fazem os donos com seus escravos. Até a roupa deles
arrancavam, por mais esfarrapada e gasta que fosse. Ficando nus, sem
um trapo sequer, observavam o conselho do Evangelho de não exigir de
volta o que fosse tirado. Mas se por compaixão lhes restituíam a
túnica, retomavam-na com gratidão.
Alguns jogavam lama na cabeça deles, outros colocavam dados nas mãos
deles, convidando-os para jogar. Um outro pôs um frade nas costas,
segurando-o pelo capuz, e pulou com ele até enjoar. Estes e outros
maus tratos faziam com eles; mas não podemos contá-los todos para
não nos alongarmos demais. Eram considerados como pobres diabos, e
até pior, tratavam-nos como se fossem malfeitores; isso tudo sem
falar no que sofriam pela fome e sede, pelo frio e pela falta de roupas
suficientes.
Mas sofriam tudo com coragem e paciência, conforme Francisco lhes
tinha ensinado. Não se deixavam dominar pela tristeza, não ficavam
contrariados, mas como homens empenhados em grandes lucros, exultavam
nas tribulações e se alegravam, orando sinceramente a Deus por seus
perseguidores.
24. O povo, vendo-os serenos em meio aos sofrimentos aceitos
pacientemente pelo Senhor, e sempre esforçados para rezar com
devoção, recusando receber e ter consigo dinheiro, como o faziam os
outros pobres, e eles querendo bem um ao outro, sinal de que eram
discípulos de Cristo: muitos ficaram comovidos e arrependidos, e
foram pedir-lhes desculpas pelos maus tratos. Os frades perdoavam de
coração, respondendo com alegria: "O Senhor vos perdoe!" E
assim ficavam ali de bom grado para ouvir.
Alguns até acabavam pedindo para sempre recebidos em seu grupo; e de
fato aceitaram alguns deles. Naquele tempo, sendo os irmãos muito
poucos, Francisco lhes permitia receber aqueles que lhes parecessem
recomendáveis. Na data marcada retomaram a Santa Maria da
Porciúncula.
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