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25. Quando se reviam, ficavam tão inundados de contentamento e
alegria espiritual, que não se lembravam mais das adversidades
sofridas nem se preocupavam com a sua dura pobreza.
Cada dia eram solícitos na oração e no trabalho com as próprias
mãos, para evitar toda forma de ociosidade, inimiga da alma. De
noite se levantavam, conforme a expressão do salmista: "Em meio à
noite, levanto-me para louvar o Senhor" (Sl 118,62), e se
entregavam devotamente à oração comovendo-se até às lágrimas.
Queriam-se bem um ao outro, com afeto profundo, prestavam-se
serviços e procuravam alimentar-se com o mesmo amor com que uma mãe
ama e nutre seus próprios filhos. O fogo da caridade era tão intenso
neles, que teriam de bom grado dado a vida um pelo outro, da mesma
forma como a teriam dado pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo.
26. Certo dia, quando dois irmãos caminhavam por uma estrada,
encontraram um louco que jogou pedras contra eles. Um deles, vendo
chover pedras sobre seu companheiro, colocou-se à frente, preferindo
ser atingido em vez de seu querido irmão. Cenas desta espécie
aconteciam mais vezes.
Transformados pela caridade e pela humildade, cada um reverenciava o
outro como faz um empregado com seu patrão. E aquele que, ou por seu
cargo ou pelos dons da graça, fosse superior aos outros, mantinha-se
mais baixo e vil do que os outros.
Estavam sempre prontos a obedecer: mal se abria a boca para dar uma
ordem, os pés já se movimentavam para andar e as mãos já estavam
preparadas para trabalhar. Qualquer coisa que se lhes mandasse,
acolhiam-na como se fosse vontade do Senhor; e por isso era-lhes
agradável e fácil executar as ordens.
Abstinham-se dos desejos egoísticos e, para não serem julgados,
julgavam-se bem severamente a si mesmos.
27. Se por acaso um deles pronunciasse uma palavra que desagradava
ao outro, sentia tal remorso que não ficava em paz enquanto não fosse
pedir desculpas. Prostrava-se por terra e pedia que o irmão
colocasse o pé em sua boca, mesmo que aquele relutasse em fazê-lo.
Se não quisesse fazer uma coisa dessas de jeito nenhum, se o ofensor
era o prelado, dava-lhe ordem para fazê-lo, caso contrário, pedia
a ordem ao superior. Esforçavam-se para afastar de si toda sombra de
mau humor, para que a perfeita caridade recíproca não fosse afetada.
Assim se esforçavam para opor aos diferentes vícios as virtudes
correspondentes.
Qualquer coisa que tivessem, fosse um livro, fosse uma túnica,
estava à disposição de todos, e "ninguém dizia que eram suas as
coisas que possuía" (At 4,32), exatamente como se fazia na
Igreja primitiva dos Apóstolos. O que tinham muito realmente era a
pobreza; mas assim mesmo mostravam-se sempre generosos, e por amor de
Deus tomavam parte nas esmolas recebidas por qualquer um deles que as
pedisse.
28. Andando pela estrada, quando encontravam pobres pedindo
esmola, não tendo nada para dar, davam parte de sua própria roupa.
Um deles soltou o capuz da túnica e o deu e um mendigo; outros davam
um pedaço da túnica, para observar a palavra do Evangelho: "Dá a
todo que te pedir" (Lc 6,30).
Certa vez, na igreja da Porciúncula, onde eles moravam, apareceu
um pobre pedindo esmola. Estava ali um manto, que tinha sido de um
deles enquanto ainda estava no mundo. Francisco disse-lhe que o desse
ao mendigo, e o irmão deu-o de bom grado e prontamente. E. de
repente, pela bondade gentil demonstrada, pareceu ao frade que a
esmola subisse ao céu, e sentiu-se invadido por um espírito novo.
29. Se pessoas ricas desse mundo os procuravam, recebiam-nas com
alegria e benevolência, e as convidavam a afastar-se do mal e fazer
penitência.
Os frades pediam com insistência para que não fossem mandados aos
lugares onde tinham nascido, para fugir da companhia e familiaridade
dos parentes, conforme está escrito: "Tornei-me um estranho para
meus irmãos, um desconhecido para os filhos de minha mãe" (Sl
68,9).
Sentiam-se felizes por serem pobres, pois só buscavam as riquezas
eternas. Não possuíam ouro nem prata, e mesmo que recusassem
qualquer espécie de riqueza deste mundo, rejeitavam de modo particular
e calcavam aos pés o dinheiro.
30. Uma outra vez, sempre enquanto moravam perto da Porciúncula,
chegaram para lá umas pessoas e, às escondidas dos frades, colocaram
dinheiro sobre o altar. Um frade entrou na igreja, viu as moedas e
foi colocá-las no parapeito de uma janela. Mas um outro pegou-as
ali e foi levá-las a Francisco.
Então Francisco quis saber quem colocara aquele dinheiro no parapeito
da janela. Encontrou-o, pediu que viesse ter com ele e lhe disse:
"Por que fizeste isso? Não sabias que eu não só não quero que os
frades usem dinheiro, mas que nem mesmo toquem nele?" Ouvindo isso o
frade abaixou a cabeça, pôs-se de joelhos, confessou a sua culpa e
pediu que lhe impusesse a penitência. O santo deu-lhe por
penitência que levasse aquelas moedas para fora da igreja com a boca e
fosse jogá-las em cima de um esterco de burro. E o frade cumpriu com
diligência a ordem recebida. Francisco ensinou então aos irmãos
que, em qualquer lugar que encontrassem dinheiro, o deixassem como
coisa desprezível.
Estavam sempre cheios de alegria, porque não tinham nada que os
pudesse inquietar. Na verdade, quanto mais estavam separados do
mundo, tanto mais ficavam unidos a Deus.
Ao entrarem no caminho estreito e áspero, quebraram as pedras,
esmagaram os espinhos: e assim, graças ao seu exemplo, tornaram o
caminho mais fácil para nós seguidores.
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