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31. Vendo Francisco como a graça do Salvador os fazia crescer em
número e em méritos, disse-lhes: "Irmãos, vejo que o Senhor
quer transformar a nossa família numa grande comunidade. Por isso
vamos procurar a nossa mãe, a Igreja Romana, e vamos contar ao
Sumo Pontífice as coisas que o Senhor está fazendo por nosso
intermédio e conforme a vontade e a ordem do papa cumpramos a nossa
missão". Essas palavras agradaram a eles, e Francisco, tomando
consigo os doze irmãos, se pôs a caminho de Roma.
Durante a viagem disse: "Vamos fazer um de nós o nosso guia e
considerá-lo como vigário de Jesus Cristo. Para onde ele for,
vamos segui-lo; e quando ele quiser fazer uma parada, vamos parar".
Elegeram então Frei Bernardo, o primeiro discípulo de Francisco,
e obedeciam a tudo que ele dizia.
Andavam com muita alegria, conversando sobre as palavras do Senhor.
Da boca deles só saíam palavras em louvor e glória do Senhor e para
a utilidade de suas almas; ou então rezavam. E o Senhor lhes dava,
em tempo oportuno, o alimento e hospedagem.
32. Quando chegaram a Roma, encontraram o bispo de Assis, que
naqueles dias estava por lá. Ao vê-los acolheu-os com grande
alegria.
O bispo era conhecido do Cardeal João de São Paulo, homem bom e
religioso, que amava os servos do Senhor. A ele o bispo já falara
sobre o projeto e a vida de Francisco e de seus frades. Com estas
informações, o cardeal tinha um grande desejo de encontrar Francisco
e alguns de seus irmãos. Sabendo que estavam na cidade, mandou
chamá-los e os recebeu com devoção e amor.
33. Nos poucos dias que ficaram com ele, começou a gostar mais
ainda deles, vendo brilhar na vida deles aquilo de que ouvira falar.
Voltou-se a Francisco e disse: "Recomendo-me às vossas orações
e quero que de agora em diante me considereis um de vós. Dizei-me
agora por que viestes aqui". Então Francisco expôs-lhe
inteiramente o seu propósito, e que queria falar ao Senhor
Apostólico, para prosseguir o seu modo de vida segundo o querer e
mandamento dele. O cardeal respondeu: "Pois bem, quero ser vosso
procurador na Cúria, junto do Senhor Papa".
Chegando à Cúria, disse ao Papa Inocêncio III: "Encontrei
um homem perfeitíssimo, que quer viver segundo a forma do santo
Evangelho, observando-o plenamente. Creio que o Senhor queira,
por meio dele, renovar completamente a Igreja no mundo". Ouvindo
isso, o papa ficou maravilhado e disse: "Trazei-me esse homem
aqui".
34. No dia seguinte acompanhou-o até a presença do papa.
Francisco explicou sinceramente o seu ideal ao papa, como já o havia
feito ao cardeal.
O papa respondeu: "Vosso projeto de vida, que pretendeis viver numa
congregação que pretendeis formar, é de uma vida dura e áspera,
pois propondes não possuir nada neste mundo. De onde tirareis o
necessário?" E Francisco respondeu: "Senhor, eu confio em meu
Senhor Jesus Cristo, que prometendo dar-nos no céu vida e
glória, na terra não nos privará do necessário ao corpo".
Concluiu o papa: "Filho, o que dizes é verdade; mas a natureza
humana é fraca e nunca permanece no mesmo estado. Por isso vai e reza
a Deus com todo o coração, para que se digne mostrar o que é melhor
e mais útil à vossa alma. Depois volta e me conta tudo: e eu te
concederei tudo".
35. Francisco foi rezar; orou a Deus com pureza de coração,
para que em sua piedade inefável lhe desse um sinal. E, perseverando
na oração com a alma absorta em Deus, o Senhor lhe falou assim:
"No reino de um grande soberano havia uma senhora muito pobre mas
bela, que agradou aos olhos do rei e deu-lhe numerosos filhos. Um
dia a senhora começou a refletir e dizia consigo mesma: "O que
farei, eu pobrezinha, que tenho tantos filhos, mas não tenho nada de
que possam viver?’ Enquanto estava nestes pensamentos, que davam um
aspecto triste ao seu rosto, eis que o rei chega e lhe pergunta:
‘Que tens, pois te vejo preocupada, e triste?’ Ela lhe comunicou
as apreensões que a agitavam. Mas o rei a confortou: ‘Não tenhas
medo por causa da tua grande pobreza e nem te deixes levar pela
angústia por causa dos filhos que tens e daqueles que ainda virão,
pois se muitos dependentes têm abundåncia de alimento em meu
palácio, certamente não quererei que meus próprios filhos morram de
fome: com esses serei mais generoso ainda"’.
Francisco, o homem de Deus, compreendeu logo que aquela senhora
pobre representava ele mesmo. E isso tomou mais forte ainda o seu
propósito de observar, mesmo em comum, a santíssima pobreza.
36. E levantando-se foi imediatamente ao Senhor Apostólico,
para explicar-lhe o que Deus lhe tinha revelado.
Escutando aquela parábola, o papa ficou cheio de admiração, por
ter o Senhor revelado sua vontade a um homem tão simples. E soube
que ele "não caminhava na sabedoria dos homens, mas na luz e na
força do Espírito" (1Cor 2,4).
Em seguida o bem-aventurado Francisco inclinou-se e prometeu ao
Senhor Papa obediência e reverência com humildade e devoção. Em
volta dele os outros irmãos, que ainda não tinham prometido
obediência, por ordem do papa prometeram, do mesmo modo, obediência
e reverência a Francisco.
E o Senhor Papa aprovou a Regra para ele e seus irmãos presentes e
futuros. Deu-lhe também autorização para pregar em qualquer
lugar, conforme a graça dada pelo Espírito Santo; autorizou
também os outros irmãos a pregarem, a quem o bem-aventurado
Francisco quisesse conceder o ministério da pregação.
Daí em diante Francisco começou a pregar pelas cidades e castelos,
como o Espírito do Senhor lhe revelava. O Senhor colocou em sua
boca palavras santas, melífluas e dulcíssimas de modo que ninguém,
ouvindo-o, teria jamais parado de saciar-se com elas.
O Cardeal João, pela devoção que nutria para com Francisco, fez
tonsurar os doze frades.
Em seguida Francisco ordenou que duas vezes por ano houvesse
capítulo, em Pentecostes e na festa de São Miguel, no mês de
setembro.
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