CAPÍTULO 7. Como foram a Roma e o papa lhes aprovou a Regra e lhes deu a faculdade de pregar

31. Vendo Francisco como a graça do Salvador os fazia crescer em número e em méritos, disse-lhes: "Irmãos, vejo que o Senhor quer transformar a nossa família numa grande comunidade. Por isso vamos procurar a nossa mãe, a Igreja Romana, e vamos contar ao Sumo Pontífice as coisas que o Senhor está fazendo por nosso intermédio e conforme a vontade e a ordem do papa cumpramos a nossa missão". Essas palavras agradaram a eles, e Francisco, tomando consigo os doze irmãos, se pôs a caminho de Roma.

Durante a viagem disse: "Vamos fazer um de nós o nosso guia e considerá-lo como vigário de Jesus Cristo. Para onde ele for, vamos segui-lo; e quando ele quiser fazer uma parada, vamos parar". Elegeram então Frei Bernardo, o primeiro discípulo de Francisco, e obedeciam a tudo que ele dizia.

Andavam com muita alegria, conversando sobre as palavras do Senhor. Da boca deles só saíam palavras em louvor e glória do Senhor e para a utilidade de suas almas; ou então rezavam. E o Senhor lhes dava, em tempo oportuno, o alimento e hospedagem.

32. Quando chegaram a Roma, encontraram o bispo de Assis, que naqueles dias estava por lá. Ao vê-los acolheu-os com grande alegria.

O bispo era conhecido do Cardeal João de São Paulo, homem bom e religioso, que amava os servos do Senhor. A ele o bispo já falara sobre o projeto e a vida de Francisco e de seus frades. Com estas informações, o cardeal tinha um grande desejo de encontrar Francisco e alguns de seus irmãos. Sabendo que estavam na cidade, mandou chamá-los e os recebeu com devoção e amor.

33. Nos poucos dias que ficaram com ele, começou a gostar mais ainda deles, vendo brilhar na vida deles aquilo de que ouvira falar. Voltou-se a Francisco e disse: "Recomendo-me às vossas orações e quero que de agora em diante me considereis um de vós. Dizei-me agora por que viestes aqui". Então Francisco expôs-lhe inteiramente o seu propósito, e que queria falar ao Senhor Apostólico, para prosseguir o seu modo de vida segundo o querer e mandamento dele. O cardeal respondeu: "Pois bem, quero ser vosso procurador na Cúria, junto do Senhor Papa".

Chegando à Cúria, disse ao Papa Inocêncio III: "Encontrei um homem perfeitíssimo, que quer viver segundo a forma do santo Evangelho, observando-o plenamente. Creio que o Senhor queira, por meio dele, renovar completamente a Igreja no mundo". Ouvindo isso, o papa ficou maravilhado e disse: "Trazei-me esse homem aqui".

34. No dia seguinte acompanhou-o até a presença do papa. Francisco explicou sinceramente o seu ideal ao papa, como já o havia feito ao cardeal.

O papa respondeu: "Vosso projeto de vida, que pretendeis viver numa congregação que pretendeis formar, é de uma vida dura e áspera, pois propondes não possuir nada neste mundo. De onde tirareis o necessário?" E Francisco respondeu: "Senhor, eu confio em meu Senhor Jesus Cristo, que prometendo dar-nos no céu vida e glória, na terra não nos privará do necessário ao corpo". Concluiu o papa: "Filho, o que dizes é verdade; mas a natureza humana é fraca e nunca permanece no mesmo estado. Por isso vai e reza a Deus com todo o coração, para que se digne mostrar o que é melhor e mais útil à vossa alma. Depois volta e me conta tudo: e eu te concederei tudo".

35. Francisco foi rezar; orou a Deus com pureza de coração, para que em sua piedade inefável lhe desse um sinal. E, perseverando na oração com a alma absorta em Deus, o Senhor lhe falou assim: "No reino de um grande soberano havia uma senhora muito pobre mas bela, que agradou aos olhos do rei e deu-lhe numerosos filhos. Um dia a senhora começou a refletir e dizia consigo mesma: "O que farei, eu pobrezinha, que tenho tantos filhos, mas não tenho nada de que possam viver?’ Enquanto estava nestes pensamentos, que davam um aspecto triste ao seu rosto, eis que o rei chega e lhe pergunta: ‘Que tens, pois te vejo preocupada, e triste?’ Ela lhe comunicou as apreensões que a agitavam. Mas o rei a confortou: ‘Não tenhas medo por causa da tua grande pobreza e nem te deixes levar pela angústia por causa dos filhos que tens e daqueles que ainda virão, pois se muitos dependentes têm abundåncia de alimento em meu palácio, certamente não quererei que meus próprios filhos morram de fome: com esses serei mais generoso ainda"’.

Francisco, o homem de Deus, compreendeu logo que aquela senhora pobre representava ele mesmo. E isso tomou mais forte ainda o seu propósito de observar, mesmo em comum, a santíssima pobreza.

36. E levantando-se foi imediatamente ao Senhor Apostólico, para explicar-lhe o que Deus lhe tinha revelado.

Escutando aquela parábola, o papa ficou cheio de admiração, por ter o Senhor revelado sua vontade a um homem tão simples. E soube que ele "não caminhava na sabedoria dos homens, mas na luz e na força do Espírito" (1Cor 2,4).

Em seguida o bem-aventurado Francisco inclinou-se e prometeu ao Senhor Papa obediência e reverência com humildade e devoção. Em volta dele os outros irmãos, que ainda não tinham prometido obediência, por ordem do papa prometeram, do mesmo modo, obediência e reverência a Francisco.

E o Senhor Papa aprovou a Regra para ele e seus irmãos presentes e futuros. Deu-lhe também autorização para pregar em qualquer lugar, conforme a graça dada pelo Espírito Santo; autorizou também os outros irmãos a pregarem, a quem o bem-aventurado Francisco quisesse conceder o ministério da pregação.

Daí em diante Francisco começou a pregar pelas cidades e castelos, como o Espírito do Senhor lhe revelava. O Senhor colocou em sua boca palavras santas, melífluas e dulcíssimas de modo que ninguém, ouvindo-o, teria jamais parado de saciar-se com elas.

O Cardeal João, pela devoção que nutria para com Francisco, fez tonsurar os doze frades.

Em seguida Francisco ordenou que duas vezes por ano houvesse capítulo, em Pentecostes e na festa de São Miguel, no mês de setembro.