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Quanto à quarta consideração, devemos saber que, depois que o
verdadeiro amor de Cristo transformou perfeitamente São Francisco em
Deus e na verdadeira imagem de Cristo crucificado, e tendo cumprido a
quaresma de quarenta dias em honra de São Miguel Arcanjo no santo
monte do Alverne, depois da solenidade de São Miguel desceu do
monte o angélico homem São Francisco, com Frei Leão e um devoto
aldeão, sobre cujo asno ele ia montado porque, por causa dos cravos
dos pés, não podia andar bem a pé.
Então, tendo São Francisco descido do monte santo, como a fama de
sua santidade tinha sido divulgada pela região e pelos pastores tinha
sido espalhado como tinham visto o monte Alverne todo em chamas, o que
era sinal de que algum grande milagre Deus tinha feito a São Francisco.
Quando o povo da região ouviu dizer que ele ia passando, todos vinham
vê-lo, homens e mulheres, pequenos e grandes, os quais, todos com
grande devoção e desejo, esforçavam-se por toca-lo e beijar-lhe
as mãos. Como ele não podia negar-se à devoção do povo, embora
tivesse as mãos enfaixadas, para ocultar melhor os sagrados santos
estigmas enfaixava-os melhor e os cobria com as mangas, dando-lhes a
beijar só os dedos descobertos.
Mas, ainda que ele procurasse esconder e ocultar o sacramento dos
gloriosos Estigmas para fugir a toda ocasião de glória mundana,
aprouve a Deus para a sua glória mostrar muitos milagres por virtude
dos sagrados santos e gloriosos Estigmas, e especialmente naquela
viagem do Alverne a Santa Maria dos Anjos, e depois muitíssimos em
diversas partes do mundo, durante a sua vida e depois da sua morte,
para que a sua oculta e maravilhosa virtude e a enorme caridade e
misericórdia de Cristo para com ele, a quem as tinha dado
maravilhosamente, se manifestasse ao mundo por claros e evidentes
milagres, alguns dos quais vamos expor aqui.
Daí, aproximando-se São Francisco de uma vila que estava nos
confins do condado de Arezzo, parou diante dele uma mulher chorando
muito e tendo nos braços um filho que tinha oito anos, durante quatro
dos quais tinha sido hidrópico. Ele estava deforme com o ventre tão
inchado que, em pé, não podia ver os pés. Como a mulher pusesse o
filho na sua frente, pedindo que orasse a Deus por ele, São
Francisco colocou-se primeiro em oração e depois, feita a
oração, pôs suas santas mãos sobre o ventre do menino. Todo
inchaço se dissolveu de repente e ele ficou perfeitamente curado.
Devolveu-o à sua mãe que, recebendo-o com enorme alegria e o levou
para casa. Agradeceu a Deus e ao seu santo, e mostrava de boa
vontade o filho curado a toda a região, que vinha à sua casa para vê-lo.
No mesmo dia São Francisco passou pelo burgo de San Sepolcro e,
antes que se aproximasse do castelo, as turbas do castelo e das vilas
foram ao seu encontro. Muitos deles andavam à sua frente com ramos de
oliveira na mão, gritando forte: “Eis o santo, eis o santo!”.
Pela devoção e a vontade que as pessoas tinham de toca-lo faziam
grande tropel e aperto em cima dele. Mas ele, andando com a mente
elevada e arrebatada em Deus pela contemplação, embora fosse
tocado, segurado ou puxado, como uma pessoa insensível não sentiu
nada do que se fazia ou dizia ao seu redor, nem percebeu que tinha
passado por aquele castelo ou por aquela região.
Quando tinham passado o burgo e as pessoas tinham voltado para suas
casas, tendo ele chegado a uma casa de leprosos para lá do burgo bem
uma milha, voltando a si como se viesse de outro mundo, o contemplador
perguntou ao companheiro: “Quando estaremos perto do burgo?”. Na
verdade, a sua alma, fixa e arrebatada na contemplação das coisas
celestiais, não tinha percebido nenhuma coisa terrena, nem a
diversidade dos lugares e dos tempos, nem das pessoas que acorreram.
E isso aconteceu outras vezes, como provaram por clara experiência os
seus companheiros.
Naquela tarde São Francisco chegou ao lugar dos frades de Monte
Casale, onde havia um frade tão cruelmente doente e tão
horrivelmente atormentado pela doença, que o seu mal mais parecia
tribulação e tormento do demônio que doença natural. Pois algumas
vezes ele se jogava todo no chão com um enorme tremor e com espuma na
boca, ora se lhe encolhiam todos os nervos dos membros do corpo, ora
se estendiam, ora se dobravam; ora se retorcia. Ora a nuca se
encostava nos calcanhares, jogava-se no alto e caía de repente de
costas. Estando São Francisco à mesa e ouvindo os frades falarem
sobre esse irmão tão miseravelmente doente e sem remédio, ficou com
compaixão dele, pegou uma fatia do pão que estava comendo, fez em
cima do sinal da santíssima cruz com suas santas mãos estigmatizadas e
mandou-a ao frade doente. Quando ele a comeu ficou perfeitamente
curado e nunca mais sofreu daquela doença.
Chegou a manhã seguinte, e São Francisco mandou dois dos frades
que estavam no lugar para ficarem no Alverne. E mandou de volta com
eles o aldeão que tinha vindo com ele atrás do asno, que lhe havia
emprestado, querendo que voltasse com eles para sua casa.
Os frades foram com o dito aldeão e, entrando no condado de Arezzo,
algumas pessoas da região viram-nos de longe e tiveram uma grande
alegria pensando que fosse São Francisco, que tinha passado dois
dias antes, pois uma de suas mulheres, que estava havia três dias
dando à luz, e não podia parir, estava morrendo, e eles achavam que
a teriam sã e salva se São Francisco pusesse sobre ela suas santas mãos.
Mas, quando os frades se aproximaram e eles viram que não era São
Francisco, ficaram numa grande melancolia. Mas onde não estava o
santo corporalmente, não faltou a sua fé. Coisa admirável! A
mulher estava morrendo e já tinha os traços da morte. Eles
perguntaram aos frades se tinham alguma coisa tocada pelas mãos
santíssimas de São Francisco. Os frades pensaram, procuraram
diligentemente e logo não encontraram nada que São Francisco tivesse
tocado com suas aos mãos a não ser o cabresto do asno sobre o qual ele
tinha vindo. Eles pegaram o cabresto com grande reverência e
devoção e o puseram sobre o corpo da mulher. A mulher gritou
chamando devotamente o nome de São Francisco e recomendando-se
fielmente a ele. Para que mais? Assim que a mulher teve sobre ela o
cabresto, foi subitamente libertada de todo perigo e deu à luz
facilmente com grande gáudio e com alegria.
São Francisco, depois de ter ficado alguns dias no referido lugar,
partiu e foi para Città di Castello: e eis que muitos cidadãos
levaram para diante dele uma mulher endemoninhada havia muito tempo, e
lhe rogaram humildemente pela sua libertação, pois ela, ora com
urros dolorosos, ora com gritos cruéis, ora com um ladrar de cão,
perturbava toda a região. Então São Francisco, tendo feito antes
uma oração e fazendo sobre ela o sinal da santíssima cruz, mandou ao
demônio que fosse embora dela. Ele saiu subitamente e deixou-a sã
do corpo e do intelecto.
Como esse milagre foi divulgado no meio do povo, uma outra mulher,
com grande fé, levou-lhe seu menino, doente grave de um cruel chaga
e pediu-lhe devotamente que lhe aprouvesse fazer-lhe o sinal com suas
mãos. Então São Francisco, aceitando a sua devoção, tomou o
menino, tirou a faixa da chaga e o abençoou, fazendo três vezes o
sinal da santíssima cruz sobre a chaga. Depois refez a faixa com suas
mãos e o entregou à mãe. Como já era de noite, ela o colocou logo
na cama para dormir. De manhã ela foi tirar o filho da cama e o
encontrou sem a faixa, olhou e o achou tão perfeitamente curado como
se nunca tivesse tido mal nenhum, a não ser que no lugar da chaga
havia crescido a carne como se fosse uma rosa vermelha. E isso mais
para o testemunho do milagre do que para sinal da chaga, pois a
referida rosa, durando todo o tempo de sua vida, levava-o muitas
vezes à devoção por São Francisco.
São Francisco demorou um mês naquela cidade, a pedido devoto dos
cidadãos. Nesse tempo, fez muitos outros milagres. Depois partiu
daí para ir a Santa Maria dos Anjos com Frei Leão e com um bom
homem, que lhe emprestava o seu burrinho, sobre o qual São
Francisco andava.
Aconteceu que, pelas más estradas e pelo grande frio, caminhando
todo o dia eles não puderam chegar a lugar nenhum em que pudessem se
albergar. Por isso, obrigados pela noite e pelo mau tempo, eles se
abrigaram sob uma rocha escavada, para escapar da neve e da noite que
estava chegando. Estando assim mal abrigado e mal coberto, o bom
homem a quem pertencia o asno, e não podendo dormir por causa do frio
(e não havia nenhum jeito de acender fogo), começou a queixar-se
baixinho consigo mesmo e a chorar, e quase se queixava de São
Francisco, que o havia levado a tal lugar.
Então São Francisco, ouvindo isso, ficou com pena dele. Em
fervor de espírito, estendeu sua mão sobre ele e o tocou. Que
admirável! Logo que o tocou com a mão acesa e furada pelo fogo do
Serafim, desapareceu todo o frio e entrou nele tanto calor por dentro
e por fora que lhe parecia estar perto da boca de uma fornalha ardente:
por isso, confortado imediatamente na alma e no corpo, adormeceu e,
como disse, dormiu mais suavemente naquela noite até a manhã, no
meio das pedras e da neve, como nunca tinha dormido em sua própria cama.
No outro dia, continuaram a caminhar e chegaram a Santa Maria dos
Anjos. Quando estavam perto, Frei Leão levantou os olhos para o
alto, olhou para o santo lugar de Santa Maria dos Anjos e viu uma
cruz belíssima, em que havia a figura do Crucificado, andando na
frente de São Francisco, que a seguia. E assim, conforme a dita
cruz andava diante do rosto de São Francisco que, quando ele
parava, ela parava, e quando ele andava, ela também andava. E
aquela cruz era de tamanho esplendor que não só resplandecia no rosto
de São Francisco, mas até todo o caminho ao redor ficava
iluminado, e durou até que São Francisco entrou no lugar de Santa
Maria dos Anjos.
Quando São Francisco chegou com Frei Leão, foram recebidos pelos
frades com a maior alegria e caridade. E daí em diante São
Francisco morou a maior parte do tempo naquele lugar de Santa Maria
dos Anjos até a morte. A fama de sua santidade e dos seus milagres
se expandia continuamente, cada vez mais, pela Ordem e pelo mundo,
embora ele, por sua grandíssima humildade, escondesse como podia os
dons e as graças de Deus, chamando-se de grandíssimo pecador.
Uma vez Frei Leão ficou admirado com isso e pensou bobamente consigo
mesmo: “Olha, esse daí se chama de grandíssimo pecador em público
mas torna-se grande na Ordem, é honrado por Deus e em oculto nunca
se confessa de pecado carnal. Será que ele é virgem?”. E
começou a ficar com uma vontade muito grande de saber a verdade sobre
isso, mas não ousava perguntar a São Francisco. Por isso,
recorreu a Deus e, rogando-lhe insistentemente que o certificasse
daquilo que queria saber, por muita oração mereceu ser ouvido, e foi
certificado por uma visão de que São Francisco era virgem
verdadeiramente no corpo. Pois viu na visão que São Francisco
estava em um lugar alto e excelente, ao qual ninguém podia ir nem
juntar-se a ele, e foi-lhe dito em espírito que aquele lugar tão
alto e excelente significava em São Francisco a excelência da
castidade virginal, que com razão convinha à carne que devia ser
adornada pelos sagrados santos Estigmas de Cristo.
Como São Francisco percebeu que, por causa dos Estigmas, a força
de seu corpo estava diminuindo cada vez mais, e não podia mais cuidar
do governo da Ordem, apressou o Capítulo geral. Quando o
Capítulo estava todo reunido, ele se desculpou humildemente diante
dos frades pela impotência que não o deixava mais atender ao cuidado
da Ordem, quanto à execução do generalato, embora não renunciasse
ao cargo do generalato, pois não podia, uma vez que tinha sido feito
geral pelo Papa, e por isso não podia deixar o cargo nem substituir
sucessor sem expressa licença do Papa. Mas instituiu vigário seu
Frei Pedro Cattani, recomendando-lhe, e aos ministros provinciais
da Ordem afetuosamente, o mais que ele podia.
Feito isso, São Francisco, confortado em espírito, levantou os
olhos e as mãos para o céu e disse assim: “A ti, Senhor meu
Deus, eu te recomendo a tua família, que até agora confiaste a
mim, e agora, pelas minhas enfermidades, não posso mais cuidar.
Também a recomendo aos ministros provinciais: que eles tenham que te
prestar contas no dia do juízo se algum frade perecer por sua
negligência, por seu mau exemplo, ou por uma correção muito
áspera”. Nessas palavras, como aprouve a Deus, todos os frades do
Capítulo entenderam que estava falando dos estigmas quando se escusava
pelas enfermidades. Por devoção, nenhum deles pôde deixar de chorar.
Daí em diante, deixou todo o cuidado e o governo da Ordem nas mãos
do seu Vigário e dos ministros provinciais. E dizia: “Agora,
desde que eu deixei o cuidado da Ordem por minhas doenças, não sou
mais obrigado senão a orar a Deus pela nossa religião, e dar bom
exemplo aos frades. E bem sei na verdade que, se ela me deixasse, o
maior auxílio que eu podia dar à religião seria orar continuamente a
Deus por ela, para que a defenda, governe e conserve”.
Ora, acontecia que São Francisco, como dissemos acima, se
esforçava o mais que podia por esconder os sagrados santos estigmas e,
depois que os recebeu, andava sempre e ficava com as mãos enfaixadas e
com os pés calçados, mas não conseguiu fazer com que muitos irmãos
não os vissem e tocassem, especialmente a do peito, que ele procurava
esconder com mais diligência. Por isso um frade que o servia
induziu-o com devota cautela a tirar a túnica para sacudir o pó.
Quando a tirou na frente dele, o frade viu claramente a chaga do lado
e, pondo-lhe a mão no peito rapidamente, tocou-a com três dedos e
percebeu sua quantidade e grandeza. De modo semelhante, seu Vigário
viu-a naquele tempo. Mas quem se certificou mais claramente foi Frei
Rufino, que era homem de grandíssima contemplação. Do qual São
Francisco disse algumas vezes que não havia homem mais santo do que
ele no mundo, e por sua santidade ele o amava intimamente e o
satisfazia no que quisesse.
Esse Frei Rufino certificou de três modos a si mesmo e aos outros
sobre os estigmas, e especialmente sobre o do peito. O primeiro foi
que, devendo lavar suas bragas, que o santo usava tão grandes que,
puxando-as bem para cima, cobria com elas a chaga do lado direito, o
dito Frei Rufino as olhava e considerava diligentemente, e todas as
vezes encontrava-as ensangüentadas do lado direito. Por isso ele
percebia com certeza que era sangue que lhe saía da referida chaga.
São Francisco repreendia-o por isso quando percebia que ele
desenrolava a roupa para ver o referido sinal.
O segundo modo foi que o dito Frei Rufino, uma vez, esfregando os
rins de São Francisco, escorregou a mão de propósito e colocou os
dedos na chaga do peito. Pela grande dor que sentiu, São Francisco
gritou forte: “Deus te perdoe, ó Frei Rufino. Por que fizeste isso?”.
O terceiro modo que, uma vez, ele pediu com muita insistência a
São Francisco, por uma graça grandíssima, que lhe desse o seu
hábito e pegasse o dele, por amor da caridade. Embora condescendendo
de má vontade, o pai caridoso consentiu, deu-lhe o seu e pegou o
dele. Então, ao tirar e pôr de novo, Frei Rufino viu com clareza
a dita chaga.
De maneira semelhante, Frei Leão e muitos outros frades viram os
ditos sagrados santos estigmas de São Francisco enquanto ele viveu.
Embora esses frades, por sua santidade, fossem homens dignos de fé e
de serem acreditados com uma só palavra, para afastar toda dúvida dos
corações, juraram sobre o livro santo que as tinham visto
claramente. Viram-nas também alguns Cardeais, que tinham com ele
grande familiaridade, e por reverência dos ditos estigmas de São
Francisco compuseram e fizeram belos e devotos hinos, antífonas e
prosas. O sumo pontífice Alexandre papa, pregando ao povo, quando
estavam presentes todos os cardeais (entre os quais o santo Frei
Boaventura, que era cardeal), disse e afirmou que ele tinha visto
com os seus olhos os sagrados santos estigmas de São Francisco,
quando ele ainda estava vivo.
E dona Jacoba de Settesoli, de Roma, que era a maior senhora de
Roma no seu tempo e era devotíssima de São Francisco, viu-os
antes que ele morresse e, morto que foi, viu-os e os beijou muitas
vezes com suma reverência, pois veio de Roma a Assis para a morte de
São Francisco por divina revelação.
E foi deste modo. São Francisco, alguns dias antes de sua morte,
esteve doente em Assis no palácio do Bispo, com alguns de seus
companheiros. Apesar de toda a sua doença, ele cantava muitas vezes
certos louvores de Cristo. Um dia, disse-lhe um de seus
companheiros: “Pai, tu sabes que estes cidadãos têm grande fé em
ti e te julgam um santo homem. Por isso podem pensar que, se tu és
quem eles crêem, deverias, nesta enfermidade, pensar na morte e
antes chorar que cantar, pois estás tão doente. E acha que o teu
cantar e o nosso, que nos fazes fazer, é ouvido por muita gente do
palácio e de fora, porque por ti este palácio está cercado por
muitos homens armados que, com isso, poderiam ter um mau exemplo.
Por isso eu acho, disse o frade, “que tu farias bem sair daqui e que
nós voltássemos todos para Santa Maria dos Anjos, pois não
estamos bem aqui, entre seculares”.
São Francisco respondeu: “Caríssimo frade, tu sabes que dois
anos trás, quando estávamos em Foligno, Deus te revelou o termo de
minha vida, e também o revelou a mim que, daqui a poucos dias, nesta
doença, vai chegar esse termo. Na revelação Deus me fez certo da
remissão de todos os meus pecados e da bem-aventurança do
paraíso.Até ter a revelação, eu chorei a morte e meus pecados.
Mas, depois que eu tive a revelação, estou tão cheio de alegria
que já não posso chorar. Por isso, eu canto e vou cantar a Deus
que me deu o bem da sua graça e me fez certo dos bens da glória do
paraíso. Sobre a nossa partida daqui, eu estou de acordo e me
agrada, mas deveis encontrar um jeito de me levar, porque, pela
doença, eu não posso andar”. Então os frades tomaram-no nos
braços e o levaram, acompanhados por muitos cidadãos.
Quando chegaram a um hospital que havia no caminho, São Francisco
disse aos que o carregavam: “Ponde-me no chão e virai-me para a
cidade”. Quando foi posto com o rosto virado para Assis, ele
abençoou a cidade com muitas bênçãos, dizendo: “Que sejas
abençoada por Deus, cidade santa, pois por ti muitas almas se
salvarão e em ti vão morar muitos servos de Deus e muitos de ti
serão escolhidos para o reino da vida eterna”. Ditas essas
palavras, fez que o levassem adiante, a Santa Maria dos Anjos.
Quando chegaram a Santa Maria, levaram-no para a enfermaria e ali o
puseram a repousar. Então São Francisco chamou um dos companheiros
e lhe disse: “Caríssimo frade, Deus me revelou que desta
enfermidade até tal dia eu vou passar desta vida. E tu sabes que dona
Jacoba de Settesoli, devota caríssima da nossa Ordem ia ficar muito
triste se soubesse da minha morte e não estivesse presente. Por
isso, faze-a saber que, se quiser me ver vivo, venha aqui
imediatamente”. O frade respondeu: “Muito bem, pai, porque,
pela grande devoção que ela tem para contigo, seria muito
inconveniente que ela não estivesse na tua morte”. São Francisco
disse: “Então vai e traz tinteiro, pena e papel, e escreve como eu
te disser”. Quando os trouxeram, São Francisco ditou a carta
desta forma:
À senhora Jacoba, serva de Deus, Frei Francisco pobrezinho de
Cristo saúda e deseja a companhia do Espírito Santo em nosso
Senhor Jesus Cristo. Sabe, caríssima, que Cristo bendito, por
sua santa graça, me revelou o fim de minha vida, que será em breve.
Por isso, se me queres encontrar vivo, quando vires esta carta,
move-te e vem para Santa Maria dos Anjos. Porque, se não vieres
até tal dia, não poderás encontrar-me vivo. E traz contigo pano
de cilício em que meu corpo seja envolvido, e a cera que é
necessária para o sepultamento. Peço-te ainda que me tragas
daquelas coisas para comer que costumavas dar-me quando eu estava
doente em Roma.
Enquanto essa carta estava sendo escrita, foi revelado por Deus a
São Francisco que dona Jacoba vinha a ele, já estava perto do
lugar e trazia consigo todas aquelas coisas que ele mandara pedir pela
carta. Quando teve essa revelação, São Francisco disse ao frade
que escrevia a carta que não continuasse a escrever, porque não
precisava, mas abandonasse a carta.
Os frades ficaram muito admirados com isso, porque nem acabou a carta
nem queria que fosse mandada. Passado um pouco de tempo, bateram com
força à porta do lugar e São Francisco mandou o porteiro ir abrir.
Abrindo a porta, lá estava dona Jacoba, nobilíssima senhora de
Roma, com dois de seus filhos senadores e com uma grande companhia de
homens a cavalo. E foram para dentro.
E dona Jacoba foi direto à enfermaria e encontrou São Francisco.
São Francisco teve muita alegria e consolação por sua vinda, e ela
também quando o viu vivo e falando com ela. Então ela lhe contou
como Deus lhe havia revelado em Roma, quando ela estava em oração,
o termo breve de sua vida, e como ele devia mandar vê-la e pedir as
coisas que ela disse que tinha trazido todas consigo. Mandou
traze-las para São Francisco e as deu para que ele comesse. Quando
ele comeu e ficou muito confortado, a senhora Jacoba ajoelhou-se aos
pés de São Francisco, pegou aqueles santíssimos pés, marcados e
ornados pelas chagas de Cristo e com um enorme excesso de devoção
beijava-os e os banhava de lágrimas, de modo que aos frades que
estavam ao redor parecia que estavam mesmo vendo a Madalena aos pés de
Jesus Cristo, e de modo algum podiam separa-la.
Finalmente, depois de um bom tempo, levaram-na dali e lhe
perguntaram como tinha vindo tão a tempo e trazendo todas as coisas que
eram necessárias para a vida e o sepultamento de São Francisco.
Dona Jacoba respondeu que, estando uma noite a orar em Roma, ouviu
uma voz do céu que lhe disse: “Se queres encontrar São Francisco
vivo, vai sem demora a Assis e leva contigo as coisas que costumas
dar-lhe quando está doente e as coisas que lhe serão necessárias
para o sepultamento”. “E eu fiz isso”, disse ela.
Então a dita senhora Jacoba ficou lá até que São Francisco
passou desta vida e foi sepultado. No sepultamento prestou-lhe uma
grandíssima honra, ela com toda a companhia, e fez todas as despesas
do que foi preciso. Depois, voltando a Roma, daí a pouco tempo
essa gentil senhora morreu santamente. Por devoção a São
Francisco julgou-se e quis ser levada para ser sepultada em Santa
Maria dos Anjos. E assim foi.
Para louvor de Jesus Cristo e do pobrezinho Francisco. Amém.
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