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Frei Ricério da Marca, nobre por nascimento e mais nobre ainda por
sua santidade, a quem São Francisco dedicava particular afeição,
visitou um dia o santo no palácio do bispo de Assis e, enquanto
discorriam acerca do estado religioso e da observância da Regra,
interpelou-o, particularmente, sobre este ponto: "Dize-me, pai,
que intenções tinhas quando começaste a receber companheiros, que
intenções tens agora e se pensas conservá-las até a morte.
Desejaria certificar-me de tua intenção e vontade, primeira e
última. Podemos nós, clérigos, que temos tantos livros,
conservá-los, embora reconheçamos pertencerem eles à Ordem?" Ao
que o santo respondeu: "Eis, irmão, minha primeira Intenção e
última vontade: se os frades tivessem acreditado em mim, nenhum teria
conservado para si coisa alguma, além do hábito na forma concedida
pela Regra com o cordão e calções”.
Todavia se algum frade objetar: "Por que o Seráfico Pai não quis
obrigar os frades desde o principio à estrita observância da Regra e
à guarda da pobreza - como declarou Frei Ricério nem ordenou
expressamente que assim o fizessem?”
Nós que vivemos com ele lhe diremos o que ouvimos de sua própria
boca, porque o santo disse estas coisas a muitos frades e fez inserir
na Regra muitas prescrições, que em suas preces e meditações havia
implorado do Senhor no interesse da Ordem, afirmando serem todas elas
conformes à vontade de Deus. Mas, ao apresentá-las aos frades,
estes julgaram-nas demasiado rígidas e insuportáveis. Ignorando o
que havia de suceder depois de sua morte e temeroso do escândalo que
poderia advir, não só para si, como também para os demais irmãos,
não quis questionar com eles e não poucas vezes condescendia contra
sua vontade, e se desculpava a si mesmo na presença do Senhor. Por
isso, para que as palavras que o Senhor lhe pusera nos lábios não
ficassem estéreis, desejava que se cumprisse em si mesmo a vontade
divina, para alcançar deste modo a recompensa prometida. E seu
espírito alcançou finalmente paz e consolação.
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