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Revestido da força do alto, o Seráfico Pai tirava dela mais calor
para sua alma do que o que suas vestes lhe proporcionavam exteriormente
ao corpo. Por isso não tolerava que os frades vestissem três
túnicas ou usassem sem necessidade vestes macias. Ensinava que uma
necessidade provocada pelo prazer dos sentidos e não pela razão era
sinal de que o espirito estava amortecido. Quando a alma, dizia ele,
se torna tíbia, pouco a pouco a graça arrefece e "a carne e o
sangue" fatalmente procuram seu próprio interesse. E acrescentava:
"Que restará com efeito, quando a alma ignorar as delícias
espirituais e a carne se voltar apenas para suas exigências; quando o
apetite animalesco exigir em nome da necessidade a sua satisfação e o
instinto carnal se impuser à consciência? Se, por acaso, um de
meus frades, preso de uma necessidade real, se apressar a
satisfazê-la, que salário receberá? Apresenta-se-lhe uma
ocasião de mérito, mas ele a rejeita com sua conduta, mostrando
claramente que isto lhe desagrada. Negar-se a suportar com paciência
privações e necessidades não é outra coisa, senão querer voltar ao
Egito".
Enfim, não queria que os frades tivessem, sob pretexto algum, mais
de duas túnicas, mas permitia-lhes forrá-las com retalhos de panos
costurados por dentro. Afirmava ter horror a fazendas finas e
repreendia severamente os que agiam de modo contrario às suas
prescrições. Para confundi-los com o seu exemplo costurava sempre
um saco grosseiro sobre sua própria túnica e ordenou que quando
morresse forrassem com um saco a túnica que lhe serviria de mortalha.
Todavia, quando uma enfermidade ou outra necessidade o exigia, ele
consentia que os frades vestissem uma túnica mais fina sobre a pele,
mas eram obrigados a usar por cima o habito rústico e grosseiro.
Costumava comentar com grande amargura: "Relaxa-se a disciplina e
os filhos de um pai que foi pobre não se envergonham de usar vestes de
escarlate, contentando-se apenas com mudar-lhes a cor".
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