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Um dia, quando o santo voltou do Oriente, um ministro que discorria
com ele acerca da pobreza quis conhecer sua opinião e vontade sobre
este assunto e, principalmente, sobre um capítulo contido na Regra,
referente às proibições do santo Evangelho: "Não leveis nada
pelo caminho... etc.". São Francisco respondeulhe: "Eu
entendo assim: os frades não devem conservar nada para si, senão o
hábito com uma corda e os calções, conforme estatui a Regra, e,
se isto for absolutamente necessário, poderão usar calçados".
Ouvindo isto, o ministro perguntou-lhe: "Que farei eu que tenho
tantos livros, que valem mais de cinqüenta libras?" Falava assim,
porque desejava conservá-los com a sua permissão, pois sentia
remorsos por possuir tantos livros, sabendo que o santo interpretava
estritamente o capítulo concernente à pobreza. São Francisco
respondeu-lhe: "Não quero, nem devo, nem posso ir contra minha
consciência e as prescrições do santo Evangelho, que nós
prometemos observar".
Ouvindo estas palavras, o ministro encheu-se de tristeza. Vendo o
santo a sua aflição, lhe disse com todo o fervor de sua alma,
dirigindo-se por meio dele a todos os irmãos: "Quereis pesar aos
olhos dos homens por frades menores e ser chamados observantes do santo
Evangelho, mas desejais ter, por vossas obras, os bolsos cheios".
Todavia, logo que os ministros souberam que a Regra os obrigava a
observarem o santo Evangelho, fizeram suprimir o capítulo que
prescrevia: "Não leveis nada pelo caminho ... ", acreditando
com isto não serem obrigados a viver segundo a perfeição
evangélica. Quando o santo, por revelação divina, tomou
conhecimento do fato, faiou assim na presença de alguns frades: "Os
irmãos ministros pensam enganar ao Senhor e a mim. Embora saibam os
irmãos estarem obrigados a viver segundo a perfeição evangélica,
quero que se escreva na Regra, desde o principio até o fim, que os
frades são obrigados a observar rigorosamente o santo Evangelho de
Nosso Senhor Jesus Cristo. E para que não possam jamais
escusar-se desta observância, eu lhes anunciei e anuncio agora o que
o Senhor pós nos meus lábios para nossa salvação, minha e deles.
Quero, portanto, observar estas prescrições, por atos, na
presença de Deus e, com sua ajuda, observá-las-ei
perpetuamente".
E com efeito observou ao pé da letra o santo Evangelho, desde o dia
em que começou a receber irmãos até o dia de sua morte.
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