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Quando São Francisco se encontrava no convento de Bagnara, acima
de Nocera, um ataque de hidropisia provocou-lhe forte inchação nos
pés e ele caiu gravemente enfermo. Assim que os habitantes de Assis
tomaram conhecimento disto, mandaram a toda a pressa alguns cavaleiros
àquele convento para trazê-lo de volta a Assis, pois receavam que
ele morresse ali e as suas preciosas relíquias ficassem pertencendo a
outra cidade. Ao reconduzirem-no, pararam num burgo do território
de Assis a fim de comerem alguma coisa. Enquanto São Francisco
repousava na casa de um pobre homem que o havia acolhido de boa
vontade, os cavaleiros foram à aldeia para comprar mantimento, mas,
não encontrando nada, vieram ter com o Seráfico Pai e lhe disseram
aflitos: "E preciso, irmão, que repartas conosco as esmolas, pois
não encontramos nada para comer". E o santo lhes respondeu com
grande fervor e convicção: "Não encontrastes nada, porque vos
confiastes a vossas moscas, isto é, a vosso dinheiro, e não a
Deus. Voltai às casas onde antes procurastes o que comprar e,
despojando-vos de todo o amor-próprio, pedi esmolas por amor de
Deus. Vereis então como, por inspiração do Espírito Santo, os
aldeões vos darão em abundância e com alegria do que tiverem".
Foram, com efeito, e pediram esmolas como São Francisco lhes
aconselhara; e aquela gente lhes deu com alegria e em abundância de
tudo o que tinha. Reconhecendo nisto um milagre e louvando a Deus,
voltaram jubilosos para junto do santo patriarca.
Assim procedia, porque julgava o fato de pedir esmola por amor de
Deus muito nobre e muito digno aos olhos do mesmo Deus e do mundo,
pois tudo o que o Pai celeste criou para utilidade dos homens, nos deu
gratuitamente em esmolas, após o pecado, por amor de seu Filho,
quer sejamos dignos ou indignos. Ensinava igualmente que o servo de
Deus deve pedir esmola por amor de Deus, de boa vontade e com mais
alegria do que aquele que, por liberalidade e largueza, fosse
exclamando:
"Se alguém me der uma só moeda, eu lhe darei mil escudos de
ouro", porque o servo de Deus, ao pedir esmola por amor de Deus,
oferece àquele a quem a solicita o amor de Deus, em comparação com
o qual nada são todas as coisas do céu e da terra. Por isto, antes
e depois que os frades se multiplicaram, quando saia pelo mundo a
pregar, se por acaso um nobre, um potentado o convidava para comer ou
hospedar-se em sua casa, ia primeiro pedir esmola até à hora da
refeição, antes de se apresentar na casa de seu anfitrião, não só
para dar o bom exemplo aos frades, como também por respeito à
dignidade da Dama Pobreza. E com freqüência acontecia que o santo
recusava o convite, justificando-se: "Não quero renegar minha
dignidade real, minha herança, minha profissão e a de meus frades,
isto é, a mendicidade de porta em porta". Outras vezes, o seu
anfitrião o acompanhava, em pessoa, recebia as esmolas que se davam
ao santo e as guardava por devoção para com ele. Este, que descreve
estas cenas, presenciou-as muitas vezes e da' testemunho delas.
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