CAPÍTULO 22. Como vários cavaleiros obtiveram o que lhes era necessário, pedindo esmola de porta em porta, a conselho de São Francisco

Quando São Francisco se encontrava no convento de Bagnara, acima de Nocera, um ataque de hidropisia provocou-lhe forte inchação nos pés e ele caiu gravemente enfermo. Assim que os habitantes de Assis tomaram conhecimento disto, mandaram a toda a pressa alguns cavaleiros àquele convento para trazê-lo de volta a Assis, pois receavam que ele morresse ali e as suas preciosas relíquias ficassem pertencendo a outra cidade. Ao reconduzirem-no, pararam num burgo do território de Assis a fim de comerem alguma coisa. Enquanto São Francisco repousava na casa de um pobre homem que o havia acolhido de boa vontade, os cavaleiros foram à aldeia para comprar mantimento, mas, não encontrando nada, vieram ter com o Seráfico Pai e lhe disseram aflitos: "E preciso, irmão, que repartas conosco as esmolas, pois não encontramos nada para comer". E o santo lhes respondeu com grande fervor e convicção: "Não encontrastes nada, porque vos confiastes a vossas moscas, isto é, a vosso dinheiro, e não a Deus. Voltai às casas onde antes procurastes o que comprar e, despojando-vos de todo o amor-próprio, pedi esmolas por amor de Deus. Vereis então como, por inspiração do Espírito Santo, os aldeões vos darão em abundância e com alegria do que tiverem". Foram, com efeito, e pediram esmolas como São Francisco lhes aconselhara; e aquela gente lhes deu com alegria e em abundância de tudo o que tinha. Reconhecendo nisto um milagre e louvando a Deus, voltaram jubilosos para junto do santo patriarca.

Assim procedia, porque julgava o fato de pedir esmola por amor de Deus muito nobre e muito digno aos olhos do mesmo Deus e do mundo, pois tudo o que o Pai celeste criou para utilidade dos homens, nos deu gratuitamente em esmolas, após o pecado, por amor de seu Filho, quer sejamos dignos ou indignos. Ensinava igualmente que o servo de Deus deve pedir esmola por amor de Deus, de boa vontade e com mais alegria do que aquele que, por liberalidade e largueza, fosse exclamando:

"Se alguém me der uma só moeda, eu lhe darei mil escudos de ouro", porque o servo de Deus, ao pedir esmola por amor de Deus, oferece àquele a quem a solicita o amor de Deus, em comparação com o qual nada são todas as coisas do céu e da terra. Por isto, antes e depois que os frades se multiplicaram, quando saia pelo mundo a pregar, se por acaso um nobre, um potentado o convidava para comer ou hospedar-se em sua casa, ia primeiro pedir esmola até à hora da refeição, antes de se apresentar na casa de seu anfitrião, não só para dar o bom exemplo aos frades, como também por respeito à dignidade da Dama Pobreza. E com freqüência acontecia que o santo recusava o convite, justificando-se: "Não quero renegar minha dignidade real, minha herança, minha profissão e a de meus frades, isto é, a mendicidade de porta em porta". Outras vezes, o seu anfitrião o acompanhava, em pessoa, recebia as esmolas que se davam ao santo e as guardava por devoção para com ele. Este, que descreve estas cenas, presenciou-as muitas vezes e da' testemunho delas.