CAPÍTULO 26. Como o Senhor lhe revelou que seus religiosos deviam chamar-se "frades menores" e anunciar por toda parte paz e salvação

Em outra ocasião disse o Seráfico Pai: "A Ordem e a vida dos frades menores é semelhante a um pequeno rebanho que o Filho de Deus, nos últimos tempos, pediu a seu Pai celeste dizendo: 'Pai, quisera eu que tu formasses e me desses, nestes últimos tempos, um povo novo e humilde, diferente de todos os que lhe precederam, por sua humildade e por sua pobreza, e que se contentasse apenas em me possuir, a mim somente'. E ouvindo isto, o Pai celeste lhe respondeu: 'Meu Filho bem-amado, o que pediste ser-te-á concedido"'.

Por isto, assegurava o bem-aventurado pai que Deus quis, e assim o revelou, que os religiosos se chamassem “frades menores", por serem eles aquele povo, pobre e humilde, que o Filho pediu ao Eterno Pai, povo do qual o próprio Filho de Deus havia dito no Evangelho: "Não temais, pequeno rebanho, porque aprouve a vosso Pai vos dar um reino por herança". E ainda: "O que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes". E, embora o Senhor falasse de todos os pobres de espirito, referia-se de modo particular à Ordem dos Frades Menores que deveria aparecer mais tarde na sua Igreja.

Como tivesse sido revelado a são Francisco que a sua Ordem deveria chamar-se dos "Frades Menores", fêlo constar na primeira Regra que apresentou ao Papa Inocêncio III, que a aprovou e promulgou perante todo o consistório. Do mesmo modo revelou-lhe o Senhor a saudação que os frades deveriam empregar, conforme o santo o mandou escrever em seu Testamento com estas palavras: "O Senhor me revelou a fórmula de saudação que devemos usar: 'Que o Senhor te dê a paz!"'

Nos primórdios da Ordem, como o santo viajasse em companhia de um dos primeiros doze frades, este saudava os homens e as mulheres pelos caminhos e nos campos dizendo: "Que o Senhor te dê a paz!" Como aquela gente não estivesse acostumada a ouvir de outros religiosos este gênero de saudação, admirava-se muito ao ouvi-la. Mais ainda, alguns lhe replicavam indignados: "Que significa este modo de saudar-nos?" Com isto, envergonhou-se aquele frade e suplicou ao santo: "Permite-me usar outra saudação". Mas São Francisco lhe respondeu: "Deixa-os dizer, pois não discernem os caminhos do Senhor. Quanto a ti, não te envergonhes, porque os nobres e poderosos deste mundo te hão de testemunhar veneração e respeito, a ti e aos outros irmãos, por causa desta saudação. Com efeito, não há nada de mais extraordinário do que o fato de o Senhor ter desejado um povo novo, pobre e humilde, diferente de todos os que o precederam, por sua vida e suas palavras, que se contentasse em possuí-lo, a Ele somente, altíssimo e glorioso Senhor.