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Em outra ocasião certo noviço que sabia ler o saltério, aliás
muito mais, obteve do ministro geral permissão para ter um exemplar.
Todavia, sabendo que São Francisco não queria que seus frades
tivessem a paixão da ciência e dos livros, não se contentou com esta
licença e quis obter também a do Seráfico Pai. Ora, passando o
santo pelo lugar onde se encontrava o noviço, este lhe disse:
"Pai, seria para mim uma grande consolação possuir um saltério,
mas, embora o ministro geral me tenha permitido, não desejaria
conservá-lo sem o teu consentimento".
São Francisco lhe respondeu: "O Imperador Carlos Magno,
Rolando e Olivier, todos paladinos e homens valorosos, que foram
poderosos nos combates, perseguiram os infiéis até a morte, não
poupando suores nem fadigas, alcançando assim memoráveis vitórias;
do mesmo modo os nossos santos mártires deram a vida pela fé em
Cristo. Atualmente há muitos que pretendem alcançar honras e
louvores somente por terem narrado os feitos destes heróis. Também
entre nós, há muitos que desejariam obter honras e louvor, pregando
e narrando o que realizaram estes santos". Com estas palavras o santo
queria dizer: "Não nos preocupemos em demasia com livros e
ciência, senão com a prática da virtude, porque a ciência
envaidece, mas a caridade edifica". Alguns dias mais tarde, como
São Francisco se encontrasse junto ao fogo, o noviço veio lhe falar
do saltério. O santo então replicou-lhe: "Quando tiveres um
saltério, desejarás vivamente um breviário, quando tiveres um
breviário, sentar-te-ás numa cadeira como um grande prelado e
dirás a teu irmão: 'Traze o meu breviário
Ao dizer isto, com grande fervor de espirito, apanhou cinza com as
mãos e a aspergiu sobre a cabeça, traçando em torno dela um
circulo, como se a lavasse, e dizia ao mesmo tempo: "Eu quero um
breviário, eu quero um breviário". Repetiu estas palavras várias
vezes, enquanto passava as mãos em volta da cabeça, para espanto e
confusão do jovem religioso. Em seguida o santo lhe disse:
"Também eu, irmão, experimentei a tentação de ter livros, mas,
para saber qual a vontade de Deus sobre este ponto, tomei um livro,
os santos Evangelhos, e supliquei ao Senhor revelasse-me sua vontade
na primeira página que abrisse. Acabada a prece, a primeira página
que se me deparou ante os olhos continha esta parábola do santo
Evangelho: 'A vós é dado conhecer os mistérios do reino de
Deus, aos outros não é dado conhecê-los, senão por meio de
parábolas"'. E acrescentou: "São tantos- os que desejam
adquirir a ciência que se pode considerar bem-aventurados os que se
fazem ignorantes por amor do Senhor Deus".
Meses depois, como o santo estivesse em Santa Maria da
Porciúncula, em caminho, próximo à ultima cela da casa,
acercou-se dele o mesmo noviço para falar-lhe do saltério. Desta
feita São Francisco respondeu-lhe: "Vai e faze como teu ministro
te ordenar". Ouvida esta resposta, o frade retomou o caminho e
regressou ao lugar donde viera. Ficando só, o santo pôs-se a
refletir sobre o que havia dito ao jovem frade e imediatamente chamou-o
de volta, dizendo: "Espera-me, espera-me". Ao alcançá-lo
lhe disse: "Vem comigo, irmão, e mostra-me o lugar onde, a
respeito do saltério, te disse que fizesses como te dissesse teu
ministro". Quando chegaram ao dito lugar, São Francisco
ajoelhou-se aos pés do frade dizendo: "Confesso minha culpa,
confesso minha culpa, porque aquele que quer ser frade menor não deve
possuir nada além da túnica, conforme estabelece a Regra, a corda
ou cordão, os calções e, se isto for absolutamente necessário,
calçado". A partir de então, toda vez que algum frade lhe vinha
pedir conselho sobre este assunto, respondia-lhe da mesma maneira.
Por esta razão repetia sempre: "Só è sábio o homem que executa
bom trabalho, só é bom orador e religioso quem se exercita no seu
trabalho, pois pelos frutos se conhece a árvore".
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