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Certa vez, quando o santo se encontrava em Sena, por causa da
doença de seus olhos, o Senhor Boaventura, doador do terreno onde
havia sido construído um convento, perguntou-lhe: "Que achas tu,
pai, deste local?" Ao que o santo respondeu: "Queres que te diga
como devem ser construídas as casas dos frades?" E Boaventura
respondeu-lhe: "Quero, pai". São Francisco lhe disse então:
"Quando os frades chegarem a uma cidade onde eles não tiverem
convento e encontrarem alguém disposto a lhes doar o terreno para
edificá-lo, ter horta e tudo o que lhes for necessário, deverão em
primeiro lugar verificar qual a área necessária, tendo sempre em
conta a santa pobreza e o bom exemplo, que por toda parte somos
obrigados a dar".
Dizia isto, porque não queria que seus frades se afastassem jamais da
pobreza, nem nas casas, nem nas igrejas, nem nas outras coisas de que
se serviam; que não possuíssem nenhum lugar por direito de
propriedade, mas que ai permanecessem sempre, e em tudo, como
"peregrinos e estrangeiros". Por este motivo desejava que nos
conventos não houvesse frades em número excessivo, pois lhe parecia
difícil a perfeita observância da pobreza onde. houvesse grande
multidão de religiosos, e esta foi a sua vontade, desde a conversão
até a morte: que a pobreza fosse observada rigorosamente e em tudo.
"Depois que tiverem escolhido o terreno necessário para a
edificação do convento e de suas dependências, deverão
apresentar-se ao bispo da cidade e dizer-lhe: 'Senhor, tal pessoa
deseja nos doar, por amor de Deus e para a salvação de sua alma, um
terreno onde possamos edificar um convento. Recorremos primeiramente.
a vós que sois pai e mestre de todas as almas que vos foram confiadas e
de todos os frades que vierem a morar neste convento. Desejamos,
portanto, edificar aqui um convento com a bênção de Deus e a
vossa".
Agia assim porque no seu entender os frades poderiam trabalhar com mais
eficácia para a salvação das almas, vivendo em paz com o clero,
granjeando sua amizade e a do povo, do que se provocassem escândalo,
embora conquistando a confiança do povo. E acrescentou: "O Senhor
nos chamou para sermos os sustentáculos da fé e os coadjutores dos
prelados e clérigos da santa Igreja. Por isso estamos obrigados a
sempre amá-los, honrá-los e respeitá-los. Como indica o nome,
os frades são chamados 'menores' porque devem ser por seus exemplos e
ações os homens mais humildes do mundo. Desde o inicio de minha
conversão o Senhor pôs estas palavras nos lábios do bispo de Assis
para que ele sabiamente me aconselhasse e me confirmasse no serviço de
Cristo. Por esta razão e por inúmeras e excelentes qualidades que
vejo nos prelados, quero amá-los e honrá-los e considero como meus
senhores não só os prelados, mas também os padres, por mais pobres
que eles sejam.
Recebida a bênção, voltem e mandem cavar um grande fosso em torno
do terreno que tiverem recebido para a construção do convento e
cerquem-no com uma boa cerca, em vez de muro, como sinal de santa
pobreza e humildade. Construam a seguir pequenas casas de barro e
madeira, com algumas celas onde os frades possam rezar e trabalhar
honestamente, para evitar a ociosidade. Até mesmo as igrejas
deverão ser pequenas. Com efeito, não deverão construir grandes
Igrejas sob pretexto de pregar ao povo ou por qualquer outro motivo,
pois será mais humilde e de mais eficaz exemplo que vão pregar em
outras igrejas. Assim, se por acaso os prelados, os clérigos
religiosos ou os leigos vierem a nossos conventos, os pobres casebres,
as celas toscas e as pequenas igrejas edificá-los-ão mais do que as
palavras".
E disse ainda: "Construindo grandes edifícios, os frades violam
nossa santa pobreza, provocando murmurações e dando mau exemplo ao
próximo. Se com o - pretexto de terem casas maiores, mais
saudáveis, onde possam abrigar maior número de pessoas, mas na
realidade por cupidez e avareza abandonarem ou destruírem seus
conventos, construindo outros maiores, de excessivas dimensões, não
poderão deixar de conturbar e escandalizar os benfeitores, que lhes
prodigalizaram as esmolas, e os demais fiéis. Por conseguinte, é
melhor que os frades se contentem com casas pobres e pequenas,
permanecendo fiéis a seus votos e dando bom exemplo ao próximo, do
que renegá-los, dando mau exemplo, pois se acontecer que os frades
abandonem seus conventos por outros mais convenientes, o escândalo
será menor".
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