DÉCIMA PRIMEIRA PARTE

De seu amor pelas criaturas, e do das criaturas para com ele


CAPÍTULO 113. Do amor todo especial que tinha pelos pássaros chamados cotovias de capuz por serem a imagem do bom religioso

Completamente absorvido pelo amor de Deus, São Francisco via a bondade não somente na sua alma adornada da perfeição das virtudes, mas também em todas as criaturas. Eis por que as amava de modo particular e profundo, especialmente aquelas em que vislumbrava a representação de uma qualidade divina ou de algo que pertencesse à Ordem.

Entre todas as aves, amava especialmente a uma pequenina chamada cotovia, ou como se diz comumente "cotovia de capuz". Dizia dela: "A irmã cotovia ostenta seu capuz como um religioso, e é um humilde pássaro que percorre voluntariamente os caminhos para encontrar qualquer grão e, embora o encontre no esterco o retira e come. No seu vôo canta suavemente os louvores ao Senhor, como os bons religiosos já desligados da terra, cujos pensamentos estão sempre voltados para o céu e o fervor para o louvor a Deus. Suas vestes, isto é, suas plumas, são semelhantes à terra dando deste modo exemplo aos religiosos a não levarem vestes finas e de bela coloração, mas hábitos de preço e cor semelhante à terra que é o mais vil dos elementos.

Por ver em tais avezinhas todas estas qualidades, gostava muito de encontrá-las. Por isso pediu ao Senhor que estas mesmas avezinhas lhe testemunhassem um sinal de amor na hora de sua morte. Na tarde de sábado antes da noite em que morreu, após as Vésperas, um bando de cotovias se reuniu sobre o teto da casa onde jazia deitado. Puseram-se a voar em volta da casa, circundando o telhado e cantando docemente, como se louvassem ao Senhor.