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Obrigado pela obediência ao bispo de Óstia e Frei Elias, ministro
geral da Ordem, o Seráfico Pai chegou ao eremitério de Fonte
Colombo, próximo a Rieti, para tratar dos olhos. Certo dia, o
médico veio vêlo e, depois de examinar-lhe a enfermidade,
disse-lhe que desejava cauterizá-lo do maxilar ao olho que estava
mais doente. São Francisco, no entanto, não queria começar o
tratamento antes da chegada de Frei Elias que havia declarado
expressamente que desejava estar presente antes que o médico começasse
o tratamento.
Causava também ao santo certo pesar preocupar-se tanto consigo mesmo
e por isso hesitava e desejava que Frei Elias ordenasse o que julgasse
conveniente.
Impedido pelos negócios do governo da Ordem, o ministro geral não
pôde vir, sendo esperado em vão. Vendo que Frei Elias não
vinha, São Francisco permitiu, finalmente, que o médico fizesse
como entendesse. Tendo o médico colocado o ferro no fogo para a
cauterização, São Francisco, para tranqüilizar seu espírito
contra o medo do fogo, começou a falar-lhe nestes termos: "Meu
irmão Fogo, tu és a mais nobre e a mais útil de todas as
criaturas; sê-me, pois, favorável nesta hora, porque sempre te
amei e continuarei a amar-te por aquele que te criou. Peço-te,
portanto, que moderes teu calor a fim de que eu possa suportá-lo".
Tendo terminado sua prece, fez sobre o fogo o sinal-da-cruz.
Nós que estávamos com ele nesta ocasião, retiramo-nos por piedade
e compaixão, deixando-o sozinho com o medico. Terminada a
cauterização, voltamos para junto dele e ouvimos de sua boca estas
palavras: “Homens medrosos e de pouca fé, por que fugistes? Em
verdade vos digo, não senti nenhuma dor, nem mesmo a do fogo. E se
a cauterização não produzir efeito, repeti-la-emos com melhor
resultado"
O médico ficou emocionado e disse: "Meus irmãos, senti grande
temor de que tão dolorosa cauterização não pudesse ser suportada por
ele que está tão fraco e doente, quando homens muito mais robustos
não a suportam. Mas ele não se moveu nem mostrou qualquer sinal de
dor".
Com efeito, todas as veias da orelha e do sobrolho foram
cauterizadas, sem que se obtivesse qualquer melhora. Outro médico
perfurou-lhe as orelhas com um ferro em brasa, sem nenhum resultado.
Que ninguém se admire de que o fogo e as outras criaturas lhe
obedecessem e o respeitassem. Nós que vivemos com ele vimos muitas
vezes como as amava e se alegrava com elas. Seu espírito estava tão
cheio de piedade e compaixão, que se entristecia quando as via
tratadas com desprezo. Falava-lhes com alegria interior e exterior
como se fossem dotadas de razão e aproveitava sempre estas ocasiões
para, enternecido, louvar a Deus.
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