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Como se encontrasse doente no palácio episcopal de Assis e a mão do
Senhor pesasse sobre ele com mais força do que de costume, o povo de
Assis começou a temer que ele morresse à noite e os frades retirassem
o seu santo corpo, transladando-o para outra cidade. Decidiram, por
isso, que toda a noite um grupo de cavaleiros montasse guarda em torno
dos muros do palácio.
Entrementes o Seráfico Pai ordenou que seus companheiros lhe
cantassem os "Louvores do Senhor", para reconfortar o seu espírito
e impedi-lo de desfalecer por causa das acerbas dores que o afligiam.
Ordenou que fizessem o mesmo durante a noite, para edificação e
consolação dos leigos que, por sua causa, velavam fora do palácio.
Mas Frei Elias, vendo que São Francisco se reconfortava no
Senhor e se fortalecia apesar de seus graves sofrimentos, disse-lhe:
"Irmão caríssimo, sinto-me grandemente consolado e edificado pela
alegria que experimentas e mostras a teus companheiros, nas tuas
enfermidades. Não há dúvida de que os habitantes desta cidade te
veneram como a um santo. Todavia, como acreditam firmemente que
estás próximo da morte, por causa de tua moléstia incurável, ao
ouvir-te assim cantar os Louvores do Senhor, dia e noite, poderão
dizer: 'Como pode mostrar tamanha alegria, se está à morte?
Deveria antes pensar e meditar"'.
Ao ouvi-lo, o santo pai replicou-lhe: "Lembra-te da visão que
tiveste em Foligno, na qual, segundo me disseste, te foi revelado
que eu não viveria mais de dois anos? Antes desta visão, pela
graça de Deus que suscita tudo que há de bom no coração e inspira
palavras santas nos seus servos, meditei continuamente, de dia e de
noite, sobre meu fim. Mas depois da revelação que tiveste, fui
levado a meditar mais ainda sobre minha morte..."
Em seguida concluiu com grande unção e fervor: "Deixa-me,
irmão, alegrar-me no Senhor e cantar seus louvores no meio de meus
sofrimentos porque, pela graça do Espírito Santo, eu estou tão
unido a meu Senhor que, por sua misericórdia, posso muito bem
rejubilar-me no Altíssimo".
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