CAPÍTULO 123. Como, tão logo soube da Iminência de sua morte, pediu que lhe cantassem os "Louvores"

Depois disto um frade lhe disse: "Pai, tua vida e teu exemplo foram e ainda são uma luz e um espelho não somente para teus frades mas também para toda a Igreja, e o mesmo será a tua morte. Assim, embora ela seja motivo de tristeza e de dor para teus frades, para ti será uma consolação e uma alegria infinita. Passarás de um grande trabalho ao repouso, de numerosas penas e tentações para a paz eterna, da pobreza material, que tu sempre amaste e perfeitamente serviste, para a vida eterna, onde vereis o Senhor teu Deus face a face, a Ele que neste mundo amaste e desejaste com um amor tão ardente".

Em seguida acrescentou com toda a franqueza: "Pai, sabe em verdade que se o Senhor não te enviar um remédio do céu, tua moléstia é incurável e que te resta, conforme afirmam os médicos, poucos dias de vida. Digo-te isto para reconfortar teu espírito e para que te fortaleças interior e exteriormente no Senhor, a fim de que os frades e os leigos que te visitam te encontrem sempre alegre no Senhor e que depois de tua morte isto seja uma recordação perpétua para os que a presenciaram ou ouviram falar como foram tua vida e tua morte".

Mas o santo, embora sofresse mais do que de costume, parecia estar possuído de uma nova alegria, por saber que sua irmã Morte estava próxima. Com grande fervor de espírito louvou o Senhor, dizendo: "Já que apraz ao Senhor que eu morra brevemente, chamai-me Frei Angelo e Frei Leão para que eles cantem a minha irmã Morte".

Quando os dois frades se apresentaram diante dele, cheios de piedade e tristeza, e com olhos banhados em lágrimas, começaram a cantar "O Cântico do Irmão Sol e das outras criaturas do Senhor", que ele próprio compusera.

Ao chegarem ao penúltimo verso, o santo compôs mais alguns versos em louvor irmã Morte, dizendo:

Louvado sejas, meu Senhor,
Por nossa irmã a Morte corporal,
Da qual homem algum pode escapar.

Aí dos que morrerem em pecado mortal!
Felizes os que ela achar
Conformes à tua santíssima vontade,
Porque a morte segunda não lhes fará mal!