CAPÍTULO 33. Como enviou sua capa a uma velha que, como ele, sofria dos olhos

Uma pobre mulher de Machilone veio a Rieti para tratar-se de uma moléstia de olhos. Quando o médico que tratava de São Francisco veio vê-lo, lhe disse: "Meu irmão, uma mulher, que sofre dos olhos, veio consultar-me; ela é tão pobre que eu tenho de pagar-lhe as despesas". Ouvindo isto, comiserou-se da infeliz mulher e, chamando um dos frades, que era então seu guardião, disse-lhe: "Irmão guardião, é nosso dever fazer bem ao próximo". - "Mas em que consiste esse bem, irmão?" - "Este manto que nós recebemos desta pobre enferma, devemos devolver-lho". Ouvindo isto, respondeu o guardião: "Irmão, faze como melhor te parecer".

Então o santo chamou alegremente um de seus amigos, homem de grande espiritualidade, e lhe ordenou: "Toma este manto juntamente com doze pães e vai procurar a mulher doente dos olhos, que o médico te indicar, e dize-lhe de minha parte: 'Um pobre homem, a quem tu emprestaste este manto te agradece e to devolve; toma, pois, o que te pertence"'. O irmão foi ter com a mulher e fez exatamente que lhe ordenara São Francisco. Pensando que zombavam dela, e ao mesmo tempo receosa e colérica, replicou: "Deixa-me em paz, pois não sei o que queres dizer com isto!" Mas ele meteu-lhe nas mãos o manto e os pães. Julgando então que ele dissera a verdade, aceitou-os com emoção e respeito, e, repleta de alegria, louvou ao Senhor. Mas, receosa de que os frades tentassem reavê-los, levantou-se à noite e, ocultamente, voltou para sua casa. Ora, São Francisco havia conseguido do guardião que todos os dias, enquanto ela permanecesse naquele lugar, os frades provessem suas necessidades.

Nós, que vivemos com ele, somos testemunhas de que o Seráfico Pai demonstrou sempre grande caridade e compaixão para com os pobres, fossem eles enfermos ou sãos, frades ou leigos. Com grande alegria interior e exterior dava aos pobres o que lhes era necessário ao corpo, e que muitas vezes os frades tinham conseguido com ingente sacrifício. Privava-se de tudo que não lhe era absolutamente indispensável, confortando-nos com palavras edificantes, para que, vendo aquilo, não nos afligíssemos. Por esta razão, o ministro geral e seu guardião proibiram-no de dar o seu hábito a qualquer irmão sem permissão deles. Com efeito, acontecia que muitas vezes os frades lhe pediam, por caridade, sua túnica e ele imediatamente lhes dava, ou então dividia-a em duas, dando-lhes um pedaço e conservando outro para si, pois possuía apenas uma.