CAPÍTULO 34. Como deu seu hábito aos frades que lhe pediam por amor de Deus

Certa vez, enquanto, pregando, percorria uma província, dois frades de França foram ao seu encontro. Tendo recebido do Seráfico Pai grandes consolações, acabaram por pedir a sua túnica por amor de Deus.

Assim que o santo ouviu as palavras "por amor de Deus", desfez-se imediatamente da túnica e lhes deu, ficando despido por alguns momentos. Com efeito, todas as vezes que invocavam o "amor de Deus", para lhe pedir a túnica, a corda ou qualquer outra coisa, não recusava jamais. Por isto, muito lhe desagradava, e costumava repreender severamente os frades quando os ouvia pronunciarem as palavras "por amor de Deus" inutilmente, por motivos de somenos importância, e acrescentava: "O amor de Deus é tão sublime e tão precioso que não se deveriam empregar estas palavras senão raramente, em caso de necessidade e com grande respeito".

Então um daqueles frades despiu a própria túnica e a deu ao santo em troca da dele. Quando dava sua túnica, o santo experimentava grande desgosto e muito se afligia, por não poder obter outra igual, pois usava sempre túnicas pobres, remendadas por dentro e por fora. E nunca ou raramente consentia em vestir túnica de fazenda nova, procurando, de preferência, uma que já tivesse sido usada, durante algum tempo, por outro irmão. Mas às vezes era forçado a forrá-la por dentro, com pedaços de panos novos, por causa de suas incontáveis doenças, dos esfriamentos do estômago e do baço. Deste modo, observou a pobreza até o dia em que se foi para o Senhor. Pouco antes de sua morte, como padecia de hidropisia e estava reduzido a pouco menos que um cadáver e, ademais; acabrunhado por diversos outros achaques, fizeram-lhe os frades várias túnicas para poder mudá-las freqüentemente, durante o dia e a noite.