CAPÍTULO 51. Como reconciliava os frades daquele tempo quando ocorriam entre eles motivos de mágoa ou ressentimentos

O Seráfico Pai afirmava que os frades menores haviam sido enviados pelo Senhor, naqueles tempos, para darem o bom exemplo aos que se achavam envolvidos nas trevas do pecado. E confessava que quando ouvia falar das maravilhas operadas pelos frades santos espalhados por todo o mundo, sentia-se impregnado de suavíssimo odor e ungido das virtudes de um óleo precioso. Sucedeu, pois, que em certa ocasião um frade injuriou a outro na presença de um nobre da ilha de Chipre. Percebendo que havia ofendido a seu companheiro e desejando ardentemente punir-se por esta falta, apanhou um pouco de esterco do chão, pô-lo na boca e o mordeu dizendo: "Que a lingua que espalhou o veneno da cólera mastigue o esterco". Vendo aquilo, o nobre encheu-se de admiração e retirou-se tão edificado que, pouco depois, pôs sua pessoa e todos os seus bens à disposição dos frades.

Todos eles tinham o costume de, quando um injuriasse ou magoasse o outro, lançar-se imediatamente por terra, beijar os pés do irmão ofendido e lhe pedir humildemente perdão. O Seráfico Pai encheu-se de alegria ao constatar que seus frades haviam aprendido a tirar de si mesmos exemplos de santidade. Por isso cumulava de bênçãos os que, pela palavra e pelo exemplo, conduziam os pecadores ao amor de Cristo. No zelo pelas almas, que o abrasava e enchia totalmente, queria que seus frades fossem verdadeiramente semelhantes a ele.