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Durante uma estada em Sena, certo doutor em teologia da Ordem dos
Pregadores, notável não só pela humildade, mas também por uma
grande espiritualidade, veio procurá-lo. Após terem dissertado
sobre as palavras do Senhor, o mestre interrogou-o sobre estas
palavras de Ezequiel: "Se não exortares o ímpio a abandonar a sua
má conduta, é a ti que eu pedirei conta de sua alma". "Conheço
muitos, meu pai, que estão em pecado mortal e não lhes mostrei a sua
impiedade. Serei, porventura, obrigado a prestar conta de sua
alma?"
Ao ouvi-lo, São Francisco respondeu com humildade que era
ignorante, e que lhe era mais conveniente receber instruções de seu
interlocutor do que responder sobre esta palavra da Sagrada
Escritura. O humilde mestre respondeu-lhe, então: "Irmão,
embora já tenha ouvido a opinião de muitos homens de ciência sobre
estas palavras, gostaria de ouvir o teu parecer". Instado deste
modo, São Francisco respondeu: "Se estas palavras devem ser
interpretadas em termos gerais, eu as entendo assim: o servo de Deus
deve brilhar e refulgir de tal modo pela santidade de sua vida, que o
seu exemplo seja uma censura aos maus. Sim, digo-vos, o exemplo de
sua vida e sua boa fama tornarão todos os ímpios conscientes de suas
iniqüidades".
O teólogo retirou-se profundamente edificado e disse a seus
companheiros: «A teologia deste homem, apoiada na pureza de sua vida
e no espírito de contemplação, é semelhante à águia que voa,
enquanto que a nossa se arrasta pelo chão".
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