CAPÍTULO 53. Como o Seráfico Pai deu uma humilde mas sábia resposta a um doutor da Ordem dos Pregadores, o qual o havia interpelado sobre uma palavra da Sagrada Escritura

Durante uma estada em Sena, certo doutor em teologia da Ordem dos Pregadores, notável não só pela humildade, mas também por uma grande espiritualidade, veio procurá-lo. Após terem dissertado sobre as palavras do Senhor, o mestre interrogou-o sobre estas palavras de Ezequiel: "Se não exortares o ímpio a abandonar a sua má conduta, é a ti que eu pedirei conta de sua alma". "Conheço muitos, meu pai, que estão em pecado mortal e não lhes mostrei a sua impiedade. Serei, porventura, obrigado a prestar conta de sua alma?"

Ao ouvi-lo, São Francisco respondeu com humildade que era ignorante, e que lhe era mais conveniente receber instruções de seu interlocutor do que responder sobre esta palavra da Sagrada Escritura. O humilde mestre respondeu-lhe, então: "Irmão, embora já tenha ouvido a opinião de muitos homens de ciência sobre estas palavras, gostaria de ouvir o teu parecer". Instado deste modo, São Francisco respondeu: "Se estas palavras devem ser interpretadas em termos gerais, eu as entendo assim: o servo de Deus deve brilhar e refulgir de tal modo pela santidade de sua vida, que o seu exemplo seja uma censura aos maus. Sim, digo-vos, o exemplo de sua vida e sua boa fama tornarão todos os ímpios conscientes de suas iniqüidades".

O teólogo retirou-se profundamente edificado e disse a seus companheiros: «A teologia deste homem, apoiada na pureza de sua vida e no espírito de contemplação, é semelhante à águia que voa, enquanto que a nossa se arrasta pelo chão".