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Vendo que o Senhor desejava multiplicar o número dos frades, São
Francisco lhes disse: "Irmãos caríssimos, meus filhinhos, vejo
que o Senhor quer nos multiplicar. Parece-me conveniente que
obtenhamos do bispo, ou dos cônegos de São Rufino, ou do abade de
São Bento, uma igreja onde os frades possam dizer as Horas e,
próximo a ela, uma casa pobre e pequenina, feita de barro e palha,
onde possam repousar e trabalhar. O lugar onde nos encontramos não é
conveniente nem suficiente para os frades, agora que o Senhor quer
multiplicá-los e, sobre tudo, carecem de igreja onde possam recitar
suas orações. Se um frade vier a morrer, não será conveniente
sepultá-lo aqui, nem numa igreja do clero secular".
Os frades aprovaram todas estas palavras.
Foi então procurar o bispo de Assis e lhe expôs sua questão. Ao
ouvi-lo o bispo respondeu: "Irmão, eu não tenho igreja para te
dar". Os cônegos responderam-lhe da mesma forma.
Foi então falar com o abade de São Bento do Monte Subásio e lhe
apresentou a mesma questão. Movido pelo amor fraterno, o abade,
depois de ouvir o conselho de seus monges e guiado pela graça e vontade
de Deus, concedeu a São Francisco e a seus frades a igreja de
Santa Maria da Porciúncula, que era a menor e mais pobre de suas
possessões. O abade disse a São Francisco: "Irmão, nós te
concedemos o que nos pedes, mas se o Senhor multiplicar tua
fraternidade, queremos que este lugar se torne a cabeça de todas as
tuas igrejas.
O Seráfico Pai e seus frades aceitaram com alegria a proposta do
abade, e o santo experimentou indizível alegria ao ver que a igreja
levava o nome da Mãe de Deus e, por ser pequenina e pobre, tinha o
subtítulo de Porciúncula, antevendo nisto o seu glorioso destino de
cabeça e mãe dos frades menores. Chamava-se Porciúncula porque
antigamente aquele lugar tinha este nome.
São Francisco disse: "Foi por isto que o Senhor quis que nenhuma
outra igreja fosse concedida aos frades e que os primeiros frades não
construíssem uma igreja nova nem tivessem outra além desta". Desta
maneira, com o advento dos frades menores cumpriu-se uma profecia.
Embora fosse muito pobre e estivesse quase em ruína, em todas as
épocas os habitantes de Assis e de toda a região tinham uma grande
devoção para com esta igreja. Hoje esta devoção ainda é grande e
cresce dia a dia.
Desde que os frades se estabeleceram ali para morar, o Senhor
aumentou, quase cada dia, o número deles. Sua boa fama se espalhou
maravilhosamente por todo o vale de Espoleto e em muitas partes do
mundo. Outrora esta igreja se chamava Santa Maria dos Anjos
porque, segundo reza a lenda, ouviam-se ali muitas vezes cantos
angélicos.
Se bem que o abade e seus monges a tivessem doado sem condições a
São Francisco e seus frades, este, como bom e hábil
administrador, quis construir a sua casa, isto é, sua Ordem, sobre
um sólido rochedo: a mais estrita pobreza. Todo ano o santo pai
enviava ao abade e a seus monges uma cesta de peixes chamados cadozes,
como sinal da maior humildade e pobreza e para que os frades não
tivessem, por direito, qualquer lugar e não o habitassem senão sob a
dependência de outrem e, ainda, para que não pudessem vendê-lo,
nem aliená-lo.
Quando os frades levavam, cada ano, os peixinhos aos monges, estes,
em razão da humildade de São Francisco, que assim havia procedido
por iniciativa própria, lhes davam um cântaro de óleo.
Nós, que vivemos com o Seráfico Pai, testemunhamos haver ele dito
e afirmado, falando desta igreja, que lhe havia sido revelado ali que
a Santíssima Virgem tinha por esta igreja especial afeição, em
virtude das grandes predileções que o Senhor lhe testemunhara. Por
este motivo teve desde então grande respeito e devoção para com ela.
Para que os frades guardassem estas memórias no seu coração, mandou
escrever no seu testamento que eles, após a sua morte, procedessem da
mesma forma. Pouco antes de sua morte disse diante do ministro geral e
de todos os frades: "Quero dispor da casa de Santa Maria da
Porciúncula e deixá-la aos frades por testamento, para que a tratem
sempre com grande respeito e devoção".
Proferidas estas palavras, o Seráfico Pai concluiu com grande
fervor e piedade: "Quero que este lugar seja imediatamente submetido
à autoridade do ministro geral e servo de todos, a fim de que vele por
ele com grande cuidado e solicitude e reúna aí uma boa e santa
comunidade.
Que os clérigos sejam escolhidos entre os melhores, os mais santos e
os mais virtuosos dos frades, entre os que souberem melhor recitar o
oficio e estiverem mais bem integrados no espírito da Ordem, a fim de
que não somente os leigos, mas também os frades os ouçam de boa
vontade e com grande devoção.
Que os irmãos leigos que os servem sejam escolhidos entre homens
santos, discretos, humildes e de vida honesta. Ordeno igualmente que
ninguém, frade ou leigo, entre neste lugar, além do ministro geral
daqueles que estão a serviço dos irmãos. Que os irmãos aí
residentes não falem com ninguém a não ser com os frades incumbidos
do serviço e com o ministro geral, quando este for visitá-los.
Desejo ainda que os frades leigos que os servem estejam obrigados a
não dizer palavras ociosas e a hão lhes levar noticias do século ou
qualquer coisa que não seja útil a suas almas. Desejo de modo
especial que ninguém entre neste lugar para que os frades guardem
melhor sua pureza e sua santidade, e que nada de inútil seja aí dito
ou feito, mas este lugar seja preservado santo e puro no meio de hinos
e canto de louvores ao Senhor.
Quando um destes frades emigrar para o Senhor, desejo que o ministro
geral chame para seu lugar, de qualquer parte onde ele se encontre,
outro frade de vida santa. Mesmo que os frades algum dia se afastem da
pureza e da honestidade, quero que este lugar abençoado permaneça
sempre um espelho e um bom exemplo para toda a Ordem, que seja uma
lâmpada ardente e brilhante diante do trono de Deus e da Santa
Virgem e que, graças a ele, o Senhor seja indulgente para com as
faltas e defeitos de todos os frades, conserve e proteja a Ordem, sua
pequena planta".
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