CAPÍTULO 57. Do camponês que o encontrou varrendo, com humildade, uma igreja e que, tendo-se convertido, entrou na Ordem e se tornou um santo religioso

Certo dia foi a uma igreja de uma aldeia nos arredores de Assis e se pôs com humildade a varrê-la e a limpá-la. A noticia se espalhou imediatamente por todo o lugarejo. Com efeito, o povo da aldeia gostava de vê-lo e, ainda mais, de ouvi-lo. Logo que tomou conhecimento do fato, um camponês, homem de grande simplicidade, chamado João, veio ter imediatamente com ele e encontrou-o varrendo a igreja, com grande humildade e devoção. E lhe disse: "Irmão, dá-me a vassoura que eu quero te ajudar". Tomando-lhe a vassoura das mãos, acabou a tarefa.

Sentaram-se em seguida, e o homem disse a São Francisco: "Há muito tempo que eu desejava servir a Deus, sobretudo depois que ouvi falar de ti e de teus frades, mas não sabia como vir ter contigo. Agora que o Senhor permitiu que nos encontrássemos, desejo fazer tudo o que me aconselhares". Vendo o seu querer, o Seráfico Pai alegrou-se no Senhor, principalmente porque tinha poucos irmãos e por lhe parecer que aquele homem seria um bom religioso por causa de sua simplicidade e pureza de alma. Assim, lhe disse: "Irmão, se queres compartilhar de nossa vida e de nossa companhia, convém que te despojes de tudo o que não puderes conservar sem escândalo e que dês aos pobres, conforme prescreve o santo Evangelho, pois assim fizeram todos os meus frades, na medida em que isto lhes foi possível".

Ouvindo isto, o homem voltou ao campo onde havia deixado os bois e os desatrelou e levou a São Francisco, dizendo: "Irmão, tendo servido a meus pais e a minha família durante estes anos, embora a parte de minha herança seja pequena, quero tomar este boi para mim e dá-lo aos pobres, segundo melhor te parecer". Vendo que ele pretendia deixá-los, seus pais, seus irmãos, que ainda eram pequenos, e toda a família se pôs a chorar e derramar copiosas lágrimas e a gritar e lamentar-se com tamanha dor e de tal modo que São Francisco se condoeu de seus prantos, pois. a família era numerosa e pobre. São Francisco lhes disse: "Preparai uma refeição, tomem-na juntos e não choreis mais, porque vos tornarei a todos felizes e alegres". Preparada a comida, sentaram-se todos à mesa com grande alegria e contentamento.

Quando acabaram a refeição, São Francisco lhes disse: "Vosso filho deseja servir a Deus, não deveis, portanto, vos afligir, mas antes vos alegrar. Ele propicia uma grande honra e um grande beneficio para vossas almas, não somente aos olhos de Deus como também aos dos homens, pois Deus será honrado por alguém de vosso próprio sangue e todos os nossos frades serão vossos filhos e vossos irmãos. Não quero devolver-vos vosso filho, porque ele é uma criatura de Deus e deseja servir a seu Criador. Mas para vos dar um pouco de consolação, consinto que ele se despoje do boi em vosso favor, pois sois pobres, se bem que, segundo o Evangelho, ele devesse dá-lo a outros". Todos ficaram consolados com as palavras de São Francisco e se alegraram imensamente ao ver que o boi lhes fora devolvido, pois eram muito pobres.

Como a pureza e simplicidade daquele homem tivessem agradado muito ao santo pai, este o revestiu imediatamente do hábito dos religiosos e tomou-o humildemente por companheiro. Ele era, com efeito, de tal simplicidade que se julgava obrigado a fazer tudo o que fazia o Seráfico Pai. Quando este entrava numa igreja para rezar, ele o olhava para conformar-se em tudo com seus gestos e ações. Se São Francisco se ajoelhava, levantava as mãos para o céu, tossia, cuspia ou suspirava, ele fazia o mesmo. Ao perceber isto, São Francisco repreendeu-o suavemente e com bom humor por estas mostras de simplicidade. João respondeu-lhe: "Irmão, prometi fazer tudo o que fizeres, por conseguinte, convém que me conforme em tudo contigo". Tamanha simplicidade e inocência não poderiam deixar de suscitar no santo grande alegria e admiração.

E começou a fazer tamanho progresso na virtude e nos bons costumes que são Francisco e os demais irmãos se admiraram grandemente de sua perfeição e fervor. Pouco depois morreu, em avançado grau de santidade. Mais tarde, quando o Seráfico Pai, com indizível alegria interior e exterior, narrava a sua conversão, não o chamava de Frei João, mas São João.