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De manhã Frei Pacifico voltou como lhe recomendara o santo e o
encontrou em oração diante do altar; esperou-o fora do coro, orando
também aos pés do Crucifixo. Enquanto orava foi arrebatado ao
céu, com o corpo ou sem ele, só Deus o sabe. E viu ali numerosos
tronos, e entre eles um mais elevado e mais glorioso que os outros,
refulgente e cravejado de toda espécie de pedras preciosas. Admirando
a sua beleza, indagou a si mesmo a quem seria destinado aquele trono.
No mesmo instante ouviu uma voz que dizia: "Este trono pertenceu ao
anjo Lúcifer e em seu lugar sentar-se-á o humilde Francisco".
Quando ele voltou a si, São Francisco saiu da igreja e foi ter com
ele. Ao vê-lo, Frei Pacifico lançou-se a seus pés com os
braços em cruz. E considerando-o como se já estivesse no céu
sentado no seu trono, lhe disse: "Pai, tem piedade de mim e pede ao
Senhor que se compadeça de mim e perdoe os meus pecados". São
Francisco estendeu-lhe as mãos, levantou-o do solo e conheceu
imediatamente que ele havia tido uma visão enquanto orava. Com
efeito, estava completamente mudado e falava a São Francisco não
como a um homem deste mundo, mas como se já estivesse reinando no
céu.
Frei Pacifico não quis contar ao Seráfico Pai a sua visão, e
começou a falar-lhe de coisas incompreensíveis; por fim disse entre
outras palavras: "Que pensas de ti mesmo, irmão?" São
Francisco respondeu-lhe: "Parece-me que sou o maior pecador que
existe no mundo". No mesmo instante Frei Pacifico ouviu uma voz
interior que dizia: "Nisto reconhecerás que tua visão foi
verdadeira, pois assim como Lúcifer por seu orgulho foi alijado
daquele trono, Francisco por sua humildade merecerá ser elevado e
sentado nele".
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