CAPÍTULO 61. Como fez que o apresentassem despido com uma corda no pescoço diante do povo

Em outra ocasião, como convalescesse de uma grave enfermidade, pareceu-lhe que se havia excedido um pouco na alimentação, embora na realidade houvesse comido muito pouco. levantou-se, se bem que a febre quartã não o tivesse abandonado de todo, mandou reunir na grande praça o povo de Assis para pregarlhe. Terminada a pregação, ordenou que ninguém se afastasse dali até que ele voltasse. Em seguida, entrou na catedral de São Rufino com numerosos confrades, entre eles Pedro Cattani que havia sido cônego da catedral e era o primeiro ministro geral da Ordem. Ordenou a este que fizesse tudo que ele lhe ordenasse, sem objeções.

Frei Pedro Cattani respondeu-lhe: "Irmão, no que se refere a mim ou a ti não posso querer nem fazer senão o que te agrada".

Despindo sua túnica, São Francisco ordenou-lhe que o conduzisse, nu, com uma corda ao pescoço, diante do povo, até o lugar onde antes havia pregado. Ordenou em seguida a um irmão que tomasse uma escudela cheia de cinza, subisse ao púlpito onde pregara e, chegando lá, atirasse-lhe a cinza sobre o rosto. Movido de compaixão e piedade o irmão recusou-se a obedecer. Mas Frei Pedro, segurando a corda que ele tinha no pescoço, conduziu-o como lhe ordenara, mas lastimando-se em alta voz. Os outros irmãos, como ele, choravam de compaixão e amargura.

Tendo sido levado, despido, ao lugar onde havia pregado e posto na presença do povo, disse: "Vós, e todos os que a meu exemplo deixaram o mundo e entraram na Ordem, credes que sou um santo. Mas eu confesso a Deus e a vós que durante minha enfermidade comi carne e tomei caldo gordo". Todos se puseram a chorar tomados de piedade e compaixão, considerando sobretudo que além de estarem no inverno, o frio era intenso e Francisco ainda não estava completamente restabelecido da febre quartã. Batiam no peito acusandose mutuamente, e dizendo: "Se por uma necessidade justa e manifesta este santo homem se acusa, infligindo a seu corpo tais mortificações, ele que sabemos levar uma vida santa, que vemos viver num corpo quase morto, em razão da grande abstinência e austeridade a que o tem sujeitado depois de sua conversão a Cristo, que será de nós, miseráveis, que durante toda a nossa vida temos vivido segundo os desejos da carne?"