CAPÍTULO 62. Como queria que todos soubessem das mitigações e regalos que seu corpo recebia

Em outra ocasião, como passasse a Quaresma de São Martinho no eremitério, tomou alimentos condimentados com gordura de porco, pois, em virtude de suas enfermidades, o azeite lhe era altamente prejudicial. Terminada a Quaresma, enquanto pregava a uma grande multidão, disse: "Irmãos caríssimos, com grande devoção viestes a mim, crendo com certeza que eu seja um homem santo, mas eu confesso a Deus e a vós que durante esta Quaresma comi alimentos condimentados com gordura de porco".

Mais ainda, quase sempre que tomava refeições com seculares ou quando os frades, por causa de suas enfermidades, lhe proporcionavam algo especial, declarava imediatamente dentro e fora de casa, diante dos frades e dos leigos que não sabiam do fato: "Eu tomei tal alimento". Com efeito, não sabia ocultar aos homens o que era manifesto ao Senhor. Do mesmo modo, se o seu espírito se inclinasse ao orgulho? vanglória ou a qualquer outro vicio, ele o confessava diante de todos, com humildade e sem pejo algum. Uma vez disse a seus companheiros :

"Quero viver nos eremitérios ou em outros lugares onde me encontrar como se todos os homens me vissem. Na verdade, eles me têm por santo, e eu, por não levar uma vida que condiga com essa opinião, sou um hipócrita".

Quando o guardião, um de seus companheiros, quis costurar sob sua túnica um pedaço de pele de raposa, no lugar correspondente ao estômago e ao baço, não só por causa de suas enfermidades como também por causa do frio que o maltratava então, São Francisco lhe disse: "Irmão, se queres colocar-me sob a túnica uma pele de raposa, manda colocar outra por cima, para que todos os homens saibam que estou agasalhado por dentro com outro pedaço". Assim foi feito. Mas, embora isto lhe fosse absolutamente necessário, ele a usou poucas vezes.