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Achava-se São Francisco no capítulo geral celebrado em Santa
Maria da Porciúncula, capítulo que se chamou das esteiras, por
não haver ali mais acomodações que as construídas com esteiras, ao
qual concorreram cinco mil frades. Sucedeu que alguns homens de letras
e de ciências foram ter com o Senhor Cardeal de Óstia que se achava
presente e lhe disseram: "Senhor, gostaríamos que persuadísseis a
Francisco a seguir a opinião dos religiosos entendidos e sábios e a
se deixar, de tempos em tempos, governar por eles". Invocaram a
Regra de são Bento, a de Santo Agostinho e a de São Bernardo,
nas quais se dispõe que se viva a vida regular segundo urna norma
estabelecida.
O cardeal relatou tudo a São Francisco, como advertência. O
Seráfico Pai, sem nada responder, tomou o cardeal pela mão e o
conduziu à presença dos frades reunidos em assembléia capitular,
falando-lhes nestes termos, com grande fervor e sob a inspiração do
Espírito Santo: "Meus irmãos, meus irmãos, Deus me chamou
para caminhar na senda da simplicidade e da humildade e por sua
inspiração me revelou o verdadeiro caminho para mim e para os que me
quiserem imitar. Por conseguinte, não quero que me citeis a Regra
de são Bento ou a de Santo Agostinho ou a de São Bernardo nem
qualquer outro modo ou maneira de viver senão os que o Senhor na sua
misericórdia se dignou revelar-me e ensinar. O Senhor me manifestou
o seu desejo de que eu seja um novo insensato no mundo e não deseja me
conduzir por outro caminho que não o desta ciência. Deus vos
confundirá por meio de vossa ciência e sabedoria. Confio na
'milícia' do Senhor, pois Ele a enviará para vos punir e, quer
queirais, quer não, volvereis para vossa vergonha, ao estado
primitivo".
Ao ouvir isto, o cardeal admirou-se grandemente, sem atrever-se a
responder nada, e os frades encheram-se de grande e salutar temor.
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