CAPÍTULO 68. Como repreendeu os frades que queriam seguir o caminho de sua sabedoria e de sua ciência e lhes predisse a reforma da Ordem

Achava-se São Francisco no capítulo geral celebrado em Santa Maria da Porciúncula, capítulo que se chamou das esteiras, por não haver ali mais acomodações que as construídas com esteiras, ao qual concorreram cinco mil frades. Sucedeu que alguns homens de letras e de ciências foram ter com o Senhor Cardeal de Óstia que se achava presente e lhe disseram: "Senhor, gostaríamos que persuadísseis a Francisco a seguir a opinião dos religiosos entendidos e sábios e a se deixar, de tempos em tempos, governar por eles". Invocaram a Regra de são Bento, a de Santo Agostinho e a de São Bernardo, nas quais se dispõe que se viva a vida regular segundo urna norma estabelecida.

O cardeal relatou tudo a São Francisco, como advertência. O Seráfico Pai, sem nada responder, tomou o cardeal pela mão e o conduziu à presença dos frades reunidos em assembléia capitular, falando-lhes nestes termos, com grande fervor e sob a inspiração do Espírito Santo: "Meus irmãos, meus irmãos, Deus me chamou para caminhar na senda da simplicidade e da humildade e por sua inspiração me revelou o verdadeiro caminho para mim e para os que me quiserem imitar. Por conseguinte, não quero que me citeis a Regra de são Bento ou a de Santo Agostinho ou a de São Bernardo nem qualquer outro modo ou maneira de viver senão os que o Senhor na sua misericórdia se dignou revelar-me e ensinar. O Senhor me manifestou o seu desejo de que eu seja um novo insensato no mundo e não deseja me conduzir por outro caminho que não o desta ciência. Deus vos confundirá por meio de vossa ciência e sabedoria. Confio na 'milícia' do Senhor, pois Ele a enviará para vos punir e, quer queirais, quer não, volvereis para vossa vergonha, ao estado primitivo".

Ao ouvir isto, o cardeal admirou-se grandemente, sem atrever-se a responder nada, e os frades encheram-se de grande e salutar temor.