CAPÍTULO 71. Como respondeu a seu companheiro que lhe perguntou por que não reprimia os excessos e abusos que ocorriam na Ordem em sua época

Certo dia, um companheiro de São Francisco lhe falou assim: "Pai, perdoai-me a ousadia, mas eu gostaria de dizer o que muitos já observaram e comentam". E acrescentou: "Sabeis como outrora, pela graça de Deus, a Ordem inteira prosperava na pureza da perfeição evangélica, como todos os frades observavam acima de tudo a santa pobreza, com grande fervor e zelo, nas suas habitações pequeninas e pobres, no seu mobiliário, nos seus livros pouco numerosos e de pouco valor e nas suas vestimentas. Procuravam todos ter o mesmo espírito e o mesmo fervor no cumprimento destas prescrições e de tudo o que concorria para a nossa vocação, profissão e para o bom exemplo que somos obrigados a dar. Homens profundamente apostólicos e evangélicos, eram eles unânimes no amor a Deus e ao próximo. Ora, acontece que hoje em dia, esta pureza e perfeição começam a arrefecer; embora alguns frades procurem justificar este estado de coisas, alegando que grande número de religiosos os impedem de observar rigorosamente estas santas prescrições. Mais ainda, certos frades chegaram a tamanha cegueira que crêem poder edificar e converter com mais eficácia o povo à piedade e à penitência por este modo de vida do que pelo dos primeiros irmãos. Julgam ser esta maneira de viver mais conforme às conveniências e por isso menosprezam, ou têm em pouco ou nenhum valor o caminho da simplicidade e da pobreza que foi o primeiro princípio e fundamento de nossa Ordem. Estamos certos de que tais abusos te desagradam e admiramonos grandemente que, sendo assim, os tolereis e não os corrijais".

Depois de ouvi-lo, o Seráfico Pai retrucou-lhe: "Que o Senhor te perdoe, irmão, o ousares opor-te a mim e me envolveres nos teus negócios que não são de meu ofício nem de minhas atribuições. Em verdade te digo, durante o tempo em que exerci o cargo de superior dos irmãos, eles permaneceram fiéis à sua vocação e profissão e, embora desde o começo de minha conversão tenha estado sempre doente, minha humilde solicitude, meu exemplo e minhas exortações os satisfaziam. Mais tarde, porém, vi que o Senhor multiplicava o número dos frades e que, por tibieza e falta de zelo, estes se afastaram do caminho reto e seguro que haviam trilhado até então. Caminhavam pelo caminho largo que conduz à morte, sem levar em consideração sua vocação e profissão nem o bom exemplo que estavam obrigados a dar. Apesar de minhas prédicas, advertências e bom exemplo que continuo a lhes dar, não querem deixar o caminho perigoso e mortal por que enveredaram.

Eis por que confiei o cargo de superior da Ordem e a sua direção ao Senhor e aos ministros. Se bem que na época em que resignei o cargo de superior da Ordem me tenha escusado diante deles, no capítulo geral, de tomar conta dos irmãos por causa de minhas enfermidades, se eles quisessem agora marchar sob mi direção, não aceitaria, pois desejo, para sua salvação e para seu bem, que tenham até a minha morte outro ministro. Com efeito, quando um súdito bom e fiel conhece a vontade de seu superior e lhe obedece, este se preocupa pouco com ele. Ademais me alegraria tanto com o progresso espiritual dos irmãos, o que redundaria em proveito seu e meu, que mesmo se estivesse prostrado no leito por causa de minhas enfermidades não hesitaria em atendê-los.

Meu ofício de superior é agora um cargo exclusivamente espiritual e consiste em dominar os vícios e em corrigi-los e emendá-los espiritualmente. Todavia, se não puder corrigi-los e emendá-los com minhas exortações, observações e exemplo, não me quero tornar um carrasco que pune e fustiga como os poderosos deste mundo.

Pois tenho confiança no Senhor que os inimigos invisíveis, que são seus agentes para punir neste mundo e no outro, vingar-se-ão dos que transgrediram as ordens de Deus e a promessa de sua profissão. Serão, para sua vergonha e confusão, castigados pelos homens deste mundo, e assim retornarão ao estado de sua primeira vocação. No entanto, até o dia de minha morte não cessarei de ensinar aos frades, com meu exemplo e minhas ações, a seguir o caminho que o Senhor me revelou a fim de que não tenham desculpas diante d'Ele e eu não seja obrigado, mais tarde, a prestar contas a Deus".

INTERPOLAÇÂO

Transcrevem-se aqui as palavras que Frei Leão, companheiro e confessor de São Francisco, escreveu a Frei Conrado de Offida, dizendo-lhe que as recolhera do próprio São Francisco. Frei Conrado as transcreveu em São Damião, próximo a Assis.

Estando o Seráfico Pai em oração no coro da igreja de Santa Maria dos Anjos, erguia as mãos aos céus e suplicava a Cristo tivesse compaixão do povo nos dias das grandes tribulações que haveriam de vir. E o Senhor respondeu-lhe: "Francisco, se queres que eu me compadeça do povo cristão, faze que tua Ordem permaneça no estado em que a estabeleci, pois não tenho senão a ela em todo o mundo. Por amor de ti e da tua Ordem, prometeste que não advirão tribulações sobre o mundo, mas te asseguro que os que se afastam do caminho em que os pus provocam de tal modo a minha cólera que serei obrigado a voltar-me contra eles. Chamarei os demônios e dar-lhes-ei todo o poder que eles desejam. Causam tanto escândalo, com seu mau exemplo, a si mesmos e ao mundo que ninguém terá coragem de usar teu hábito a não ser nos bosques. Quando o mundo perder a fé, nenhuma luz subsistirá além de tua Ordem, pois os escolhi para serem a luz do mundo".

Ao ouvi-lo, o Seráfico Pai perguntou-lhe: "De que viverão os meus frades, se vivem nos bosques?" E Cristo respondeu-lhe: "Eu os alimentarei, como alimentei o povo de Israel, com o maná do deserto, e eles tornarão ao estado primitivo em que foi fundada e começou a Ordem".