CAPÍTULO 43. Da humilde resposta de São Domingos e São Francisco quando lhes perguntaram, a ambos, se eles desejavam que seus filhos ocupassem prelaturas na Igreja

Quando São Francisco e São Domingos se encontravam juntos, em Roma, na presença do bispo de Óstia, que depois se tornou Papa, enquanto falavam de Deus em termos mais doces que mel, o Senhor Bispo de Óstia lhes falou assim: "Na Igreja primitiva os pastores e os prelados eram pobres, ardentes de caridade e destituídos de ambições. Por que não faremos de vossos frades bispos e prelados que superarão os outros pelo testemunho e pelo exemplo?"

Estabeleceu-se então um diálogo humilde e piedoso entre os dois santos, não que um quisesse convencer o outro, mas para ceder alternativamente a palavra e levar o outro a uma resposta. Por fim prevaleceu a humildade de São Francisco em não ser o primeiro a responder, recaindo a escolha sobre são Domingos que humildemente aceitou a incumbência de ser o primeiro a responder. São Domingos então respondeu: "Senhor, com esta experiência meus frades receberiam, por certo, grande honra; mas, tanto quanto puder impedir, não permitirei que eles recebam nem mesmo a aparência de uma dignidade".

Ao ouvi-lo, São Francisco inclinou-se ante o cardeal e lhe disse: "Senhor, meus frades são chamados menores para que não pretendam tornar-se maiores. Sua vocação os obriga a permanecer em posição modesta e a seguir as pegadas de Cristo, a fim de, por este meio, serem elevados mais que os outros aos olhos dos santos. Se, pois, desejais que eles produzam frutos na Igreja de Deus, conservai-os e mantende-os no estado de sua vocação e, mesmo que eles aspirem a alguma honra, fazei-os voltar a sua antiga posição e não permitais que sejam elevados a qualquer dignidade".

Ao se separarem, São Domingos pediu a São Francisco se dignasse dar-lhe a corda com que estava cingido. Mas o Seráfico Pai recusou por humildade o que São Domingos lhe pedira por amor. Por fim, venceram os piedosos rogos do suplicante e São Francisco, movido pela força do amor, cedeu sua corda a São Domingos que cingiu com ela sua túnica inferior, usando-a desde então com grande devoção e reverência.

Deram-se mutuamente as mãos e se recomendaram um ao outro com grande doçura. São Domingos disse então a São Francisco: "Desejaria, irmão Francisco, que tua Ordem e a minha não formassem senão uma só, e que nós vivêssemos na Igreja sob a mesma Regra".

Finalmente, quando se separaram, São Domingos disse aos que se achavam presentes: "Em verdade vos digo, todas as religiões deveriam Imitar este santo homem Francisco; tão perfeita é a sua santidade".