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Um dia, quando em praça pública pregava ao povo de Terni,
aconteceu que, terminado o sermão, o bispo do lugar, homem atilado e
de profunda espiritualidade, ergueu-se e disse estas palavras: "O
Senhor, desde o dia em que plantou e edificou a sua Igreja, a
iluminou sempre com santos que, pela palavra e pelo exemplo, lhe
proporcionam honra e glória. Nos últimos tempos, ele a engrandece
na pessoa deste Francisco, paupérrimo, desprezado e iletrado. Eis
a razão por que deveis amar e honrar o Senhor e vos abster do pecado.
A nenhum outro povo ele distinguiu com tantas maravilhas".
Proferidas estas palavras, o bispo abandonou o lugar de onde havia
falado e entrou na sua catedral. Mas São Francisco foi-lhe ao
encalço e, encontrando-o, inclinou-se e lançou-se a seus pés,
dizendo: "Em verdade vos digo, Senhor Bispo, ninguém jamais me
fez tanta honra neste mundo, como vós me fizestes hoje. Todos os
homens dizem: é um santo, e me atribuem a glória de santidade em vez
de atribui-la ao Criador. Vós, ao contrário, homem de
discernimento, distinguistes o vil do precioso".
Quando o santo era objeto de louvores ou chamado santo, respondia:
"Ainda não estou seguro de que jamais terei filhos e filhas. A
qualquer momento o Senhor poderá retirar-me o tesouro que me
confiou. Que me restaria, então, se também o corpo e a alma são
as únicas coisas que os infiéis possuem? Por isso creio que se o
Senhor tivesse concedido aos ladrões e aos infiéis tantos bens quanto
me concedeu, eles lhe seriam mais fiéis do que eu o sou. Diante de
um quadro de Nosso Senhor e da Santíssima Virgem pintado sobre
madeira, o que se honra e se louva não é a madeira ou pintura, mas
as pessoas venerandas de Deus e da Virgem. Do mesmo modo, o servo
de Deus é como uma pintura ou um quadro no qual é louvado o próprio
Deus por causa de seus divinos benefícios".
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