CAPÍTULO 45. Como quis que a glória e a honra de suas palavras e boas ações fossem atribuídas unicamente a Deus

Um dia, quando em praça pública pregava ao povo de Terni, aconteceu que, terminado o sermão, o bispo do lugar, homem atilado e de profunda espiritualidade, ergueu-se e disse estas palavras: "O Senhor, desde o dia em que plantou e edificou a sua Igreja, a iluminou sempre com santos que, pela palavra e pelo exemplo, lhe proporcionam honra e glória. Nos últimos tempos, ele a engrandece na pessoa deste Francisco, paupérrimo, desprezado e iletrado. Eis a razão por que deveis amar e honrar o Senhor e vos abster do pecado. A nenhum outro povo ele distinguiu com tantas maravilhas".

Proferidas estas palavras, o bispo abandonou o lugar de onde havia falado e entrou na sua catedral. Mas São Francisco foi-lhe ao encalço e, encontrando-o, inclinou-se e lançou-se a seus pés, dizendo: "Em verdade vos digo, Senhor Bispo, ninguém jamais me fez tanta honra neste mundo, como vós me fizestes hoje. Todos os homens dizem: é um santo, e me atribuem a glória de santidade em vez de atribui-la ao Criador. Vós, ao contrário, homem de discernimento, distinguistes o vil do precioso".

Quando o santo era objeto de louvores ou chamado santo, respondia: "Ainda não estou seguro de que jamais terei filhos e filhas. A qualquer momento o Senhor poderá retirar-me o tesouro que me confiou. Que me restaria, então, se também o corpo e a alma são as únicas coisas que os infiéis possuem? Por isso creio que se o Senhor tivesse concedido aos ladrões e aos infiéis tantos bens quanto me concedeu, eles lhe seriam mais fiéis do que eu o sou. Diante de um quadro de Nosso Senhor e da Santíssima Virgem pintado sobre madeira, o que se honra e se louva não é a madeira ou pintura, mas as pessoas venerandas de Deus e da Virgem. Do mesmo modo, o servo de Deus é como uma pintura ou um quadro no qual é louvado o próprio Deus por causa de seus divinos benefícios".