CAPÍTULO 80. Das qualidades que julgava necessárias ao ministro geral e a seus companheiros

O zelo pela perfeição da Ordem era tão grande e a perfeita observância da Regra lhe parecia tão importante, que indagava sempre a si mesmo quem, após a sua morte, conviria para governar toda a Ordem e mantê-la, com a ajuda de Deus, na perfeita observância da Regra. Não encontrava ninguém idôneo para isto.

Ora, pouco antes de sua morte, certo religioso lhe disse: "Pai, brevemente irás para o Senhor e esta família que te seguiu vai ficar neste vale de lágrimas. Indica pois, se tu o conheces na Ordem, aquele em quem teu espírito possa confiar e seja digno de ocupar o cargo de ministro geral".

O Seráfico Pai respondeu-lhe, acentuando cada palavra com um suspiro: "Meu filho, não vislumbro ninguém que seja capaz de ser o chefe de um exército tão grande e tão diverso, o pastor de um rebanho tão vasto e tão espalhado. Mas vou te descrever como deverá ser o chefe e o pastor desta família.

Tal homem deverá ter uma vida muito recatada, grande discrição, uma excelente reputação; não devera' ter nenhuma afeição pessoal para evitar escândalo; deverá ser muito inclinado à oração e, no entanto, distribuirá seu tempo entre o cuidado de sua alma e o de seu rebanho. Ao romper d'alva deverá celebrar, antes de tudo, o santíssimo sacrifício da missa e, por uma longa oração, recomendar-se-á fervorosamente, com seu rebanho, à proteção divina. Após a oração, postar-se-á no meio de seus frades para ai escutar suas petições. Responderá a todos e proverá às necessidades de todos com caridade, paciência e bondade.

Não deverá fazer acepção de pessoas, ocupar-se-á mais dos simples e Ignorantes do que dos sábios e prudentes. Se o dom da ciência lhe foi concedido deverá, pelo seu modo de agir, ser Igualmente modelo de piedade, simplicidade, paciência e humildade. Cultivará a virtude tanto em si mesmo como nos outros: exercitar-se-á praticando-a continuamente e estimulará os outros, mais com exemplos que com palavras, a praticá-la. odeie o dinheiro, grande corruptor de nosso estado e de nossa perfeição. Cabeça e exemplo que todos devem imitar, não disporá jamais de cofres. O hábito e alguns opúsculos lhe sejam suficientes, mas para atender aos outros disponha do necessário para escrever, incluindo o selo. Não acumule livros, e não se absorva demasiado no estudo, a fim de não roubar ao seu ministério o tempo consagrado a essas atividades. Console piedosamente os aflitos. Seja o último consolo em suas tribulações, a fim de que os enfermos não sejam tomados de desespero, quando não puderem conseguir remédios para sua saúde. Humilhe-se, ele próprio, e abandone um pouco seus direitos para domar os mais violentos e levá-los à doçura de coração. Dê sempre testemunho de imensa indulgência com aqueles que fugiram da Ordem como ovelhas tresmalhadas e não lhes negue jamais a sua misericórdia, considerando quão fortes devem ter sido as tentações que os impeliram e que talvez ele tivesse caído num abismo mais profundo se o Senhor tivesse permitido que fosse exposto a tais tentações. Desejo que, como vigário de Cristo, seja honrado por todos, com respeito e devoção, e todos o ajudem em tudo, segundo suas necessidades e o que convém a nosso estado.

Não deve, todavia, rejubilar-se com as honrarias nem comprazer-se mais com as deferências do que com as injúrias. Estas honras e deferências não mudem em nada seu modo de vida a não ser para torná-lo melhor e mais perfeito. Se por acaso tiver necessidade de um alimento mais delicado, que não o tome nunca às ocultas, mas em público, a fim de que os doentes e os de frágil compleição não tenham vergonha de fazer o mesmo, quando se virem obrigados a isso por causa de suas enfermidades e achaques.

Convém-lhe sondar na medida do possível o interior dos corações a fim de pesar e distinguir a verdade nas intenções ocultas de cada um. Tenha por duvidosas todas as acusações até que a verdade comece a se revelar depois de conscienciosas investigações. Não dê ouvido a tagarelas e suspeite de suas bisbilhotices e acusações. Não acredite neles facilmente.

Enfim, que, sob pretexto de conservar seu cargo ou honrarias, não aja contra a justiça, a eqüidade, nem transija com os que violam nossa santa Regra. Tenha cuidado para nunca perder uma alma por excesso de rigor ou de autoridade; a tibieza não resulte de uma excessiva condescendência, nem a disciplina seja quebrada por demasiada indulgência. Seja temido por todos e amado pelos que o temem. Considere e exerça sempre o oficio de superior mais como um serviço do que como uma honra. Tenha como colaboradores bons companheiros de comprovada honestidade. Seja severo contra os prazeres, corajoso nas dificuldades, piedoso e complacente com os culpados, demonstrando por todos igual afeição. Não receba nada em troca de seu trabalho além do que lhe for necessário ao corpo. Não almeje a nada além do louvor de Deus e do progresso de nossa Ordem, o bem da sua alma e a salvação de todos os irmãos. Seja, por conseguinte, amável para com todos, acolha com santa alegria todos os que se dirigirem a ele e se mostre para com eles, pela pureza e simplicidade, modelo e exemplo de observância do Evangelho, conforme a Regra que professa. Eis o que deve ser o ministro geral desta Ordem e de seus companheiros".