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Francisco, zeloso defensor da perfeição da Ordem, entristecia-se
profundamente quando percebia ou constatava alguma imperfeição.
Assim, notando que certos frades davam maus exemplos à Ordem e que
alguns já começavam mesmo a se afastar de sua profissão,
experimentou no seu coração intensíssima dor, e, um dia, enquanto
orava, suplicou ao Senhor: "Senhor, recomendo-te a família que
me deste".
Imediatamente o Senhor lhe disse: "Homenzinho simples e ignorante,
dize-me por que te afliges tanto quando um frade sai de tua Ordem ou
quando não segue o caminho que te indiquei? Ademais, dize-me quem
estabeleceu a Ordem dos Frades? Quem arrasta o homem à
penitência? Quem lhe dá a coragem de nela perseverar? Não sou
eu? Não te escolhi e coloquei à frente de minha família por seres
tu um homem instruído e eloqüente, pois não quero que tu, nem os
que forem verdadeiros frades e fiéis observantes da Regra que te dei,
sigam o caminho da ciência e da eloquência. Escolhi-te, simples e
ignorante, para que tu, e os outros, saibam que velarei por meu
rebanho. Escolhi-te como modelo para que teus frades realizem por teu
exemplo as obras que realizei em ti. Os que seguirem o caminho que te
indiquei me possuem e me possuirão plenamente, mas aos que preferirem
seguir outro caminho, ser-lhes-á tirado o que possuem. Eis por que
te exorto a não te afligires tanto, mas a agir como tens agido, a
trabalhar como tens trabalhado, pois estabeleci a Ordem dos Frades no
amor eterno. Sabe que a amo tanto, que mesmo se algum frade
'retornar ao seu vômito' e morrer fora da Ordem, enviarei outro
que, em seu lugar, tomará a coroa e, se por acaso não tiver nascido
ainda, fá-lo-ei nascer. E para que saibas quão grande é o meu
amor e a minha complacência para com ela declaro-te que ainda que
restassem apenas três frades esta será sempre a minha Ordem e eu não
a abandonarei jamais, por toda a eternidade".
Ao ouvir estas palavras o seu espírito encheu-se de suave e
maravilhosa consolação. E embora, por causa do grande empenho que
tinha em fazer a Ordem progredir, não pudesse deixar de muito se
afligir quando percebia alguma imperfeição nos frades que poderia
constituir motivo de mau exemplo ou de escândalo, depois que o Senhor
o reconfortou, vinham-lhe sempre a memória estas palavras do Salmo:
"'Jurei observar e cumprir a justiça do Senhor', como também
observar a Regra que o Senhor me deu, a mim e a todos os que me
quiserem imitar. Todos os frades estão, assim como eu, obrigados a
observá-la. No presente, depois que renunciei à direção dos
frades em virtude de minhas enfermidades e de outras causas razoáveis,
não estou obrigado a outra coisa senão rezar pela Ordem e dar o bom
exemplo aos frades. Com efeito, o Senhor me revelou e eu sei com
certeza que, se as muitas enfermidades não me obrigassem a renunciar
ao cargo que tinha à frente da Ordem, a maior ajuda que poderia
dar-lhe seria rezar para que o Senhor a governe, proteja e guarde.
Por isso estou obrigado para com o Senhor a prestar-lhe contas se
algum frade se perder por meu mau exemplo".
Estas eram as palavras que repetia a si mesmo para tranqüilizar o seu
espírito e que expunha aos frades com freqüência, em conversa ou no
capítulo.
Se acontecia vir algum frade dizer-lhe que deveria ocupar-se do
governo da Ordem, respondia-lhe com estas palavras: "Os frades
têm a Regra que prometeram observar, e não podem eximir-se de
observá-la, pois quando suplicaram ao Senhor me fizesse seu
superior, jurei diante deles observá-la da mesma maneira. Assim,
se bem que os frades saibam o que devem fazer como também o que devem
evitar, cumpre-me ser um exemplo para eles, pois para isto lhes fui
dado na vida e depois da morte".
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