CAPÍTULO 81. Como o Senhor lhe falou, por estar ele, Francisco, multo aflito por causa dos frades que se afastavam da perfeição evangélica

Francisco, zeloso defensor da perfeição da Ordem, entristecia-se profundamente quando percebia ou constatava alguma imperfeição. Assim, notando que certos frades davam maus exemplos à Ordem e que alguns já começavam mesmo a se afastar de sua profissão, experimentou no seu coração intensíssima dor, e, um dia, enquanto orava, suplicou ao Senhor: "Senhor, recomendo-te a família que me deste".

Imediatamente o Senhor lhe disse: "Homenzinho simples e ignorante, dize-me por que te afliges tanto quando um frade sai de tua Ordem ou quando não segue o caminho que te indiquei? Ademais, dize-me quem estabeleceu a Ordem dos Frades? Quem arrasta o homem à penitência? Quem lhe dá a coragem de nela perseverar? Não sou eu? Não te escolhi e coloquei à frente de minha família por seres tu um homem instruído e eloqüente, pois não quero que tu, nem os que forem verdadeiros frades e fiéis observantes da Regra que te dei, sigam o caminho da ciência e da eloquência. Escolhi-te, simples e ignorante, para que tu, e os outros, saibam que velarei por meu rebanho. Escolhi-te como modelo para que teus frades realizem por teu exemplo as obras que realizei em ti. Os que seguirem o caminho que te indiquei me possuem e me possuirão plenamente, mas aos que preferirem seguir outro caminho, ser-lhes-á tirado o que possuem. Eis por que te exorto a não te afligires tanto, mas a agir como tens agido, a trabalhar como tens trabalhado, pois estabeleci a Ordem dos Frades no amor eterno. Sabe que a amo tanto, que mesmo se algum frade 'retornar ao seu vômito' e morrer fora da Ordem, enviarei outro que, em seu lugar, tomará a coroa e, se por acaso não tiver nascido ainda, fá-lo-ei nascer. E para que saibas quão grande é o meu amor e a minha complacência para com ela declaro-te que ainda que restassem apenas três frades esta será sempre a minha Ordem e eu não a abandonarei jamais, por toda a eternidade".

Ao ouvir estas palavras o seu espírito encheu-se de suave e maravilhosa consolação. E embora, por causa do grande empenho que tinha em fazer a Ordem progredir, não pudesse deixar de muito se afligir quando percebia alguma imperfeição nos frades que poderia constituir motivo de mau exemplo ou de escândalo, depois que o Senhor o reconfortou, vinham-lhe sempre a memória estas palavras do Salmo: "'Jurei observar e cumprir a justiça do Senhor', como também observar a Regra que o Senhor me deu, a mim e a todos os que me quiserem imitar. Todos os frades estão, assim como eu, obrigados a observá-la. No presente, depois que renunciei à direção dos frades em virtude de minhas enfermidades e de outras causas razoáveis, não estou obrigado a outra coisa senão rezar pela Ordem e dar o bom exemplo aos frades. Com efeito, o Senhor me revelou e eu sei com certeza que, se as muitas enfermidades não me obrigassem a renunciar ao cargo que tinha à frente da Ordem, a maior ajuda que poderia dar-lhe seria rezar para que o Senhor a governe, proteja e guarde. Por isso estou obrigado para com o Senhor a prestar-lhe contas se algum frade se perder por meu mau exemplo".

Estas eram as palavras que repetia a si mesmo para tranqüilizar o seu espírito e que expunha aos frades com freqüência, em conversa ou no capítulo.

Se acontecia vir algum frade dizer-lhe que deveria ocupar-se do governo da Ordem, respondia-lhe com estas palavras: "Os frades têm a Regra que prometeram observar, e não podem eximir-se de observá-la, pois quando suplicaram ao Senhor me fizesse seu superior, jurei diante deles observá-la da mesma maneira. Assim, se bem que os frades saibam o que devem fazer como também o que devem evitar, cumpre-me ser um exemplo para eles, pois para isto lhes fui dado na vida e depois da morte".