CAPÍTULO 82. Do zelo particular que tinha por Santa Maria da Porciúncula e das prescrições que fez contra as palavras ociosas

Enquanto viveu, o Seráfico Pai teve sempre particular e excepcional empenho em manter a perfeição da vida religiosa em Santa Maria da Porciúncula, cabeça e mãe de toda a Ordem, de preferência às outras casas.

Desejava que ela fosse modelo e exemplo de humildade e de todas as perfeições evangélicas para todas as outras casas e que os frades que aí residissem fossem em todas as suas ações mais atentos à perfeita observância da Regra que os outros.

Assim, um dia, para evitar a ociosidade, que é a raiz de todos os males, máx:ime na vida religiosa, ordenou que todos os dias, após as refeições, os frades se dedicassem a qualquer trabalho, temeroso de que perdessem, por palavras inúteis ou ociosas, a que o homem é particularmente inclinado após as refeições, os frutos espirituais que houvessem lucrado na oração.

Em outra ocasião ordenou e prescreveu rigorosamente que, se um frade, no lazer e no trabalho, viesse a proferir palavras ociosas, fosse obrigado a dizer um pai-nosso, louvando ao Senhor tanto no começo como no fim.

Se, consciente de sua falta, se tivesse acusado antes, devia dizer, para salvação de sua alma, o pai-nosso com os louvores ao Senhor, como já foi dito acima. E se, antes de confessar sua culpa, houvesse sido repreendido por um irmão, deveria rezar o pai-nosso, da maneira indicada, pela alma deste irmão.

Mas se, tendo sido repreendido, recusasse dizer o pai-nosso, ficaria obrigado a rezar dois na forma anterior, pela alma do irmão que o havia repreendido. Se, conforme testemunho deste irmão ou de outro, ficasse provado que ele proferiu palavras ociosas, diria também os louvores a Deus, no começo e no fim da oração, em voz alta e de modo a ser ouvido por todos os frades presentes. Enquanto estiver falando, os frades presentes devem ficar calados e escutá-lo. Se acontecer que um frade, tendo ouvido outro dizer palavras ociosas, não o repreendeu, estará da mesma maneira obrigado a recitar um pai-nosso com os louvores pela alma deste frade.

Quando um frade entrar numa cela, casa ou qualquer lugar onde se encontrar um ou mais irmãos deverá imediatamente bendizer e louvar piedosamente ao Senhor. O Seráfico Pai tinha grande cuidado em dizer sempre os louvores ao Senhor e ensinava os outros frades a dizê-los com unção e piedade.