CAPÍTULO 86. Como descreveu os olhares impudicos a fim de exortar os frades à caridade

Entre todas as virtudes que São Francisco amava e desejava encontrar entre seus frades, depois da santa humildade, que considerava a virtude por excelência da santidade, estimava sobretudo a bela e pura castidade. Desejando ensinar aos frades a terem olhares reservados, descrevia-lhes habitualmente os olhares impudicos por esta parábola: "Certo rei, homem de grande devoção e mui poderoso, enviou sucessivamente dois mensageiros à rainha. O primeiro foi e relatou simplesmente sua mensagem sem nada mais dizer à rainha, pois havia sabiamente contido o seu olhar no intimo de seu coração, não pousando de modo algum sobre a pessoa da rainha olhares indiscretos; o outro foi e, após algumas respostas, descreveu longamente a beleza da soberana. 'Em verdade, senhor, disse ele, eu vi a mais bela das mulheres. Feliz o homem que a possui'. Ouvindo isto, o rei retrucou-lhe: 'Servo mau, lançaste olhares impudicos sobre a minha mulher. E evidente que desejaste possuir o que viste'.

E, chamando à sua presença o primeiro mensageiro, perguntou-lhe: 'Que te parece a rainha?' 'Parece-me dotada de grande bondade e distinção, respondeu sabiamente, pois me ouviu com agrado e paciência'. O rei disse então: 'Não é realmente encantadora?' 'Senhor, a vós compete averiguar isto. A mim competia apenas desincumbir-me da missão que me confiastes'.

Ao ouvi-lo, o rei proferiu estas palavras: 'Tens os olhos castos, és mais casto ainda de corpo, entra nos meus aposentos e compartilha de meus bens. Quanto ao impudico, que saia imediatamente de meu palácio, para que não venha a profanar minha câmara nupcial"'. E concluía: "Quem não temeria lançar um olhar indiscreto sobre uma esposa de Cristo?"