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Um dia, estando doente do estômago, fez tamanho esforço para
vomitar que teve uma hemorragia, que durou a noite toda. De tal modo
ficou fraco e abatido que seus companheiros, supondo ter chegado a hora
de sua morte, perguntaram-lhe com grande dor e efusão de lágrimas:
"Pai, que faremos nós sem ti? A quem deixas os teus órfãos?
Tens sido para nós um pai e uma mãe, engendrando-nos e criando-nos
para Cristo. Tu foste nosso guia e nosso pastor, nosso mestre e
nosso censor, ensinando-nos e corrigindo-nos, mais por exemplos do
que por palavras. Aonde iremos nós, ovelhas sem pastor, órfãos
sem pai, ignorantes e simples sem guia? Onde iremos encontrar a
glória da pobreza, louvor da simplicidade, honra de nossa humilde
condição? Quem nos mostrará, a nós pobres cegos, o caminho da
verdade? Onde estará a boca que nos falará, a lingua que nos
aconselhará? Onde estará tua alma fervorosa que nos dirigirá no
caminho da cruz e nos fortalecerá na perfeição evangélica? Onde
estarás para que recorramos a ti, luz de nossos olhos, para que te
busquemos, consolador de nossas almas? Vais nos deixar, pai,
aproxima-se a hora de tua morte! Vais, pois, nos deixar tristes,
desolados e cheios de amargura! Eis que é chegado o dia sobre o qual
não ousávamos nem pensar! E não é para menos, pois tu tens sido
para nós uma luz perene e tuas palavras, como tochas ardentes, nos
iluminam sem cessar na estrada da perfeição evangélica, do amor e da
imitação do dulcíssimo Crucificado.
Ao menos, pai, dá-nos a tua bênção, a nós e aos outros
frades, filhos que engendraste em Cristo, e deixanos a expressão de
tua última vontade, para que os frades a tenham sempre na memória e
possam dizer: 'Eis as palavras que nosso pai deixou a seus frades e
seus filhos na hora de sua morte"'.
Então o Seráfico Pai dirigiu o olhar paternal a seus filhos e lhes
disse: "Trazei à minha presença Frei Bento de Pirato". Este
frade era um sacerdote santo e discreto que celebrava para São
Francisco, quando este estava de cama, pois o santo, embora
estivesse enfermo, ouvia a missa sempre que podia.
Quando o frade chegou, o Seráfico Pai lhe disse: "Escreve que eu
dou a bênção a todos os meus frades aqui presentes, não só aos que
estão na Ordem, mas também aos que vierem a pertencer a ela até o
fim do mundo. E como não posso por causa de minha fraqueza, dos
sofrimentos provenientes da doença, desejo manifestar simplesmente,
em três palavras, minha vontade e intenção aos frades presentes e
futuros. Que eles, em minha memória, de minha bênção e de meu
testamento, se amem sempre uns aos outros, como eu os amei e amo.
Que respeitem e amem sempre a nossa Senhora Pobreza, que se mostrem
sempre fiéis e obedientes aos bispos e padres da nossa santa Mãe
Igreja".
No fim dos capítulos, nosso pai costumava, com efeito, abençoar e
absolver todos os frades presentes e futuros e muitas vezes, no fervor
de sua caridade, procedia da mesma forma fora do capítulo. Exortava
os frades a temerem os maus exemplos e a fugirem deles, e amaldiçoava
todos os que levavam os homens a dizerem mal da Ordem e da vida dos
frades por causa de seus maus exemplos, causando ainda, com sua
conduta reprovável, vergonha e aflição aos bons frades.
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