CAPÍTULO 87. Das três máximas que legou aos frades para que perseverassem na perfeição

Um dia, estando doente do estômago, fez tamanho esforço para vomitar que teve uma hemorragia, que durou a noite toda. De tal modo ficou fraco e abatido que seus companheiros, supondo ter chegado a hora de sua morte, perguntaram-lhe com grande dor e efusão de lágrimas: "Pai, que faremos nós sem ti? A quem deixas os teus órfãos? Tens sido para nós um pai e uma mãe, engendrando-nos e criando-nos para Cristo. Tu foste nosso guia e nosso pastor, nosso mestre e nosso censor, ensinando-nos e corrigindo-nos, mais por exemplos do que por palavras. Aonde iremos nós, ovelhas sem pastor, órfãos sem pai, ignorantes e simples sem guia? Onde iremos encontrar a glória da pobreza, louvor da simplicidade, honra de nossa humilde condição? Quem nos mostrará, a nós pobres cegos, o caminho da verdade? Onde estará a boca que nos falará, a lingua que nos aconselhará? Onde estará tua alma fervorosa que nos dirigirá no caminho da cruz e nos fortalecerá na perfeição evangélica? Onde estarás para que recorramos a ti, luz de nossos olhos, para que te busquemos, consolador de nossas almas? Vais nos deixar, pai, aproxima-se a hora de tua morte! Vais, pois, nos deixar tristes, desolados e cheios de amargura! Eis que é chegado o dia sobre o qual não ousávamos nem pensar! E não é para menos, pois tu tens sido para nós uma luz perene e tuas palavras, como tochas ardentes, nos iluminam sem cessar na estrada da perfeição evangélica, do amor e da imitação do dulcíssimo Crucificado.

Ao menos, pai, dá-nos a tua bênção, a nós e aos outros frades, filhos que engendraste em Cristo, e deixanos a expressão de tua última vontade, para que os frades a tenham sempre na memória e possam dizer: 'Eis as palavras que nosso pai deixou a seus frades e seus filhos na hora de sua morte"'.

Então o Seráfico Pai dirigiu o olhar paternal a seus filhos e lhes disse: "Trazei à minha presença Frei Bento de Pirato". Este frade era um sacerdote santo e discreto que celebrava para São Francisco, quando este estava de cama, pois o santo, embora estivesse enfermo, ouvia a missa sempre que podia.

Quando o frade chegou, o Seráfico Pai lhe disse: "Escreve que eu dou a bênção a todos os meus frades aqui presentes, não só aos que estão na Ordem, mas também aos que vierem a pertencer a ela até o fim do mundo. E como não posso por causa de minha fraqueza, dos sofrimentos provenientes da doença, desejo manifestar simplesmente, em três palavras, minha vontade e intenção aos frades presentes e futuros. Que eles, em minha memória, de minha bênção e de meu testamento, se amem sempre uns aos outros, como eu os amei e amo. Que respeitem e amem sempre a nossa Senhora Pobreza, que se mostrem sempre fiéis e obedientes aos bispos e padres da nossa santa Mãe Igreja".

No fim dos capítulos, nosso pai costumava, com efeito, abençoar e absolver todos os frades presentes e futuros e muitas vezes, no fervor de sua caridade, procedia da mesma forma fora do capítulo. Exortava os frades a temerem os maus exemplos e a fugirem deles, e amaldiçoava todos os que levavam os homens a dizerem mal da Ordem e da vida dos frades por causa de seus maus exemplos, causando ainda, com sua conduta reprovável, vergonha e aflição aos bons frades.