CAPÍTULO 96. Como repreendeu um de seus frades em cujo rosto transparecia a tristeza

São Francisco costumava dizer: "Eu sei que o demônio inveja os dons que o Senhor me deu, sei também e percebo que, não podendo me fazer mal, ele se esforça para fazê-lo a meus companheiros. Todavia, não podendo prejudicar nem a mim nem a meus companheiros, ele se afasta grandemente confuso. Ademais quando sou tentado ou molestado, considero a alegria do meu companheiro e passo desta tentação e desfalecimento para a alegria interior e exterior".

Por esta razão, o Seráfico Pai repreendia vivamente os que mostravam tristeza ou desânimo. Certo dia repreendeu um companheiro que apresentava um ar de tristeza, dizendo-lhe: "Por que mostras cá fora a dor e a tristeza de teus pecados? Guarda esta tristeza entre ti e Deus e roga-lhe que se compadeça de ti e devolva à tua alma a alegria de tua salvação de que foi privada por teus pecados. Diante dos outros e de mim esforça-te para conservar a alegria, pois não convém que um servo de Deus mostre a seus irmãos ou a outrem um semblante triste e conturbado".

Mas isso não quer dizer, nem se deve presumir, que o Seráfico Pai, amante da perfeição e da modéstia, quisesse testemunhar esta alegria por risos ou abundância de vás palavras. Isto não significa alegria interior, senão vaidade e insensatez. Detestava de modo particular no servo de Deus o motejo e as palavras inúteis. Este não devia zombar nem oferecer aos outros a menor ocasião de fazê-lo. Assim, definiu claramente em uma admoestação o que devia ser a alegria do servo de Deus, dizendo: "Feliz o religioso que não encontra prazer e alegria senão nas palavras e nas santas obras do Senhor, e se serve delas para levar os homens ao amor de Deus, com toda a alegria. Maldito o religioso que se compraz com histórias fúteis e frívolas e se serve delas para levar os homens ao riso".

Pela alegria do rosto ele percebia o fervor, o desvelo, a disposição e preparação do espírito e do corpo para fazer de boa vontade o bem, pois este fervor e disposição induzem melhor os outros ao bem do que a própria boa ação. De resto, uma boa ação que não foi feita de boa vontade e com zelo provoca antes o desgosto do que o desejo do bem.

Eis por que não queria ver nos rostos a tristeza exterior, pois ela reflete sempre a indiferença e a má disposição do espírito e a preguiça do corpo a toda boa obra.

Amava de modo particular, nele e nos outros, a gravidade e austeridade do semblante e dos sentidos; e sempre que podia dava exemplo aos outros.

Sabia por experiência que esta gravidade e modéstia são como um muro e uma sólida armadura contra "as flechas"; sem sua proteção a alma é como um soldado desarmado entre inimigos poderosos, bem armados e encarniçadamente empenhados na sua morte.