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São Francisco costumava dizer: "Eu sei que o demônio inveja os
dons que o Senhor me deu, sei também e percebo que, não podendo me
fazer mal, ele se esforça para fazê-lo a meus companheiros.
Todavia, não podendo prejudicar nem a mim nem a meus companheiros,
ele se afasta grandemente confuso. Ademais quando sou tentado ou
molestado, considero a alegria do meu companheiro e passo desta
tentação e desfalecimento para a alegria interior e exterior".
Por esta razão, o Seráfico Pai repreendia vivamente os que
mostravam tristeza ou desânimo. Certo dia repreendeu um companheiro
que apresentava um ar de tristeza, dizendo-lhe: "Por que mostras
cá fora a dor e a tristeza de teus pecados? Guarda esta tristeza
entre ti e Deus e roga-lhe que se compadeça de ti e devolva à tua
alma a alegria de tua salvação de que foi privada por teus pecados.
Diante dos outros e de mim esforça-te para conservar a alegria, pois
não convém que um servo de Deus mostre a seus irmãos ou a outrem um
semblante triste e conturbado".
Mas isso não quer dizer, nem se deve presumir, que o Seráfico
Pai, amante da perfeição e da modéstia, quisesse testemunhar esta
alegria por risos ou abundância de vás palavras. Isto não significa
alegria interior, senão vaidade e insensatez. Detestava de modo
particular no servo de Deus o motejo e as palavras inúteis. Este
não devia zombar nem oferecer aos outros a menor ocasião de
fazê-lo. Assim, definiu claramente em uma admoestação o que devia
ser a alegria do servo de Deus, dizendo: "Feliz o religioso que
não encontra prazer e alegria senão nas palavras e nas santas obras do
Senhor, e se serve delas para levar os homens ao amor de Deus, com
toda a alegria. Maldito o religioso que se compraz com histórias
fúteis e frívolas e se serve delas para levar os homens ao riso".
Pela alegria do rosto ele percebia o fervor, o desvelo, a
disposição e preparação do espírito e do corpo para fazer de boa
vontade o bem, pois este fervor e disposição induzem melhor os outros
ao bem do que a própria boa ação. De resto, uma boa ação que
não foi feita de boa vontade e com zelo provoca antes o desgosto do que
o desejo do bem.
Eis por que não queria ver nos rostos a tristeza exterior, pois ela
reflete sempre a indiferença e a má disposição do espírito e a
preguiça do corpo a toda boa obra.
Amava de modo particular, nele e nos outros, a gravidade e
austeridade do semblante e dos sentidos; e sempre que podia dava
exemplo aos outros.
Sabia por experiência que esta gravidade e modéstia são como um muro
e uma sólida armadura contra "as flechas"; sem sua proteção a alma
é como um soldado desarmado entre inimigos poderosos, bem armados e
encarniçadamente empenhados na sua morte.
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