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Como São Francisco permanecesse no eremitério de Greccio e se
entregasse à oração na última cela, que ficava próxima à maior do
convento, uma noite, ao primeiro sono, ele despertou seu companheiro
que repousava perto dele. Tendo ouvido a voz de São Francisco, o
irmão levantou-se e veio até à porta da cela onde se encontrava o
santo. Ao vê-lo, o Seráfico Pai lhe disse: "Irmão, não
pude dormir esta noite, nem ficar de pé para rezar, pois a cabeça e
as pernas estão trêmulas como se eu tivesse comido pão feito de
joio».
Tendo o irmão proferido algumas palavras compassivas, o santo lhe
disse: "Estou certo de que o demônio está neste travesseiro que
tenho sob a cabeça". Embora nunca quisesse, desde que deixou o
mundo, deitar-se em colchão de plumas, nem usar travesseiros, os
frades persuadiram-no, com grande esforço, a servir-se deste
travesseiro por causa da doença dos olhos.
Entregou, pois, o travesseiro a seu companheiro que o pegou com a
mão e colocou-o no ombro esquerdo. Ora, quando atravessava a porta
da cela, não podendo nem se desvencilhar do travesseiro, nem mover os
braços, permaneceu de pé sem poder mover-se, como que privado dos
sentidos. Picou assim por algum tempo até que, pela graça de
Deus, São Francisco o chamou. Imediatamente voltou a si e deixou
cair dos ombros o travesseiro. Voltando para junto de São Francisco
narrou-lhe o que lhe havia acontecido. Ao ouvi-lo, o Seráfico
Pai lhe disse: "Esta noite, enquanto rezava as Completas, senti
que o diabo entrava na cela. Sei que ele é demasiado astucioso,
pois, não podendo causar mal a minha alma, queria apoderar-se do que
era necessário ao meu corpo e me impedir de dormir e ficar em pé para
rezar; e ainda perturbar a minha devoção, alegria de meu coração,
e me fazer murmurar contra minha enfermidade".
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