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Dois anos antes de sua morte, quando residia em São Damião, numa
cela feita de esteira, padeceu tanto dos olhos a ponto de não poder
ver a luz do dia nem a do fogo, durante mais de cinqüenta dias.
Aconteceu, por permissão de Deus, que para aumentar suas
provações e seus méritos, os ratos invadiram sua cela. Corriam
durante a noite em torno dele e por cima dele, não o deixando nem
repousar nem rezar. Ademais, quando tomava suas refeições, subiam
na mesa e o atormentavam tanto que se tornou evidente a ele, como a
seus companheiros, tratar-se de uma tentação diabólica.
Vendo-se atormentado por tantas provações, uma noite o Seráfico
Pai teve piedade de si mesmo e disse: "Senhor, vem em meu socorro e
vê minhas enfermidades para que as suporte com paciência".
Imediatamente lhe foi dito em espírito: "Dize, irmão, se
alguém, por causa de tuas moléstias e provações, te desse um
grande e precioso tesouro, em que a terra fosse toda ouro, as pedras
todas preciosas, a água bálsamo, não considerarias como nada tuas
provações em comparação com estas riquezas? Não te alegrarias com
tal dádiva?" Ouviu ainda que lhe diziam: "Então, irmão,
alegra-te e rejubila-te no meio de tuas moléstias e provações,
pois asseguro-te que já entraste na posse do meu reino".
Levantando-se de madrugada, ele confessou a seus companheiros: "Se
o imperador desse um reino inteiro a um de seus companheiros, não
deveria este alegrar-se muito com isto? E se lhe desse todo o seu
reino não se alegraria ainda mais? Devo desde agora alegrar-me
grandemente nas provações e moléstias, encontrar repouso no Senhor
e render graças a Deus e a seu Filho único, Jesus Cristo, e ao
Espírito Santo, por tal graça que me foi concedida pelo Senhor,
que se dignou garantir-me a posse do seu reino, eu, seu indigno
servidor, preso ainda a este corpo. Para a sua glória e para a nossa
consolação e edificação do próximo, quero compor um novo cântico
de louvor às criaturas do Senhor, de quem nos servimos todos os dias
e sem as quais não poderíamos viver e com quem o gênero humano ofende
sempre a seu Criador. Somos sempre ingratos, em virtude de
recebermos tantas graças e benefícios e não louvarmos ao Senhor
Criador de todos estes dons, como devíamos".
Sentou-se e refletiu durante algum tempo. Depois pôs-se a cantar:
"Altíssimo, poderoso e bom Senhor, etc." Compôs a melodia
deste cântico e ensinou a seus companheiros para que o recitassem
cantando.
Sua alma encontrou nisto tanta doçura e refrigério que quis
enviá-lo a Frei Pacifico, o qual no mundo fora chamado "o rei dos
versos" e havia sido mestre de canto de uma corte. Desejou
confiar-lhe alguns frades bons, de profunda espiritualidade, para que
percorressem o mundo com ele, pregando e cantando os louvores do
Senhor. Com efeito, costumava dizer que o que dentre eles soubesse
pregar melhor ao povo, que o fizesse; após o sermão todos cantariam
os louvores do Senhor, como jograis de Deus.
Terminados os louvores, desejava que o pregador dissesse ao povo:
"Nós somos jograis de Deus e, como tais, queremos ser remunerados
por estes cantos, isto é, que vivais na verdadeira penitência". E
acrescentava: "Que são, com efeito, os servos do Senhor, senão
jograis que devem elevar o coração dos homens e levá-los à alegria
espiritual?"
Dizia sempre que os frades menores, de modo particular, haviam sido
dados ao povo de Deus para sua salvação.
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