CAPÍTULO 100. Da tentação que lhe foi infligida pelos ratos e de como o Senhor o consolou e o assegurou de que tomaria parte no seu reino

Dois anos antes de sua morte, quando residia em São Damião, numa cela feita de esteira, padeceu tanto dos olhos a ponto de não poder ver a luz do dia nem a do fogo, durante mais de cinqüenta dias.

Aconteceu, por permissão de Deus, que para aumentar suas provações e seus méritos, os ratos invadiram sua cela. Corriam durante a noite em torno dele e por cima dele, não o deixando nem repousar nem rezar. Ademais, quando tomava suas refeições, subiam na mesa e o atormentavam tanto que se tornou evidente a ele, como a seus companheiros, tratar-se de uma tentação diabólica.

Vendo-se atormentado por tantas provações, uma noite o Seráfico Pai teve piedade de si mesmo e disse: "Senhor, vem em meu socorro e vê minhas enfermidades para que as suporte com paciência".

Imediatamente lhe foi dito em espírito: "Dize, irmão, se alguém, por causa de tuas moléstias e provações, te desse um grande e precioso tesouro, em que a terra fosse toda ouro, as pedras todas preciosas, a água bálsamo, não considerarias como nada tuas provações em comparação com estas riquezas? Não te alegrarias com tal dádiva?" Ouviu ainda que lhe diziam: "Então, irmão, alegra-te e rejubila-te no meio de tuas moléstias e provações, pois asseguro-te que já entraste na posse do meu reino".

Levantando-se de madrugada, ele confessou a seus companheiros: "Se o imperador desse um reino inteiro a um de seus companheiros, não deveria este alegrar-se muito com isto? E se lhe desse todo o seu reino não se alegraria ainda mais? Devo desde agora alegrar-me grandemente nas provações e moléstias, encontrar repouso no Senhor e render graças a Deus e a seu Filho único, Jesus Cristo, e ao Espírito Santo, por tal graça que me foi concedida pelo Senhor, que se dignou garantir-me a posse do seu reino, eu, seu indigno servidor, preso ainda a este corpo. Para a sua glória e para a nossa consolação e edificação do próximo, quero compor um novo cântico de louvor às criaturas do Senhor, de quem nos servimos todos os dias e sem as quais não poderíamos viver e com quem o gênero humano ofende sempre a seu Criador. Somos sempre ingratos, em virtude de recebermos tantas graças e benefícios e não louvarmos ao Senhor Criador de todos estes dons, como devíamos".

Sentou-se e refletiu durante algum tempo. Depois pôs-se a cantar: "Altíssimo, poderoso e bom Senhor, etc." Compôs a melodia deste cântico e ensinou a seus companheiros para que o recitassem cantando.

Sua alma encontrou nisto tanta doçura e refrigério que quis enviá-lo a Frei Pacifico, o qual no mundo fora chamado "o rei dos versos" e havia sido mestre de canto de uma corte. Desejou confiar-lhe alguns frades bons, de profunda espiritualidade, para que percorressem o mundo com ele, pregando e cantando os louvores do Senhor. Com efeito, costumava dizer que o que dentre eles soubesse pregar melhor ao povo, que o fizesse; após o sermão todos cantariam os louvores do Senhor, como jograis de Deus.

Terminados os louvores, desejava que o pregador dissesse ao povo: "Nós somos jograis de Deus e, como tais, queremos ser remunerados por estes cantos, isto é, que vivais na verdadeira penitência". E acrescentava: "Que são, com efeito, os servos do Senhor, senão jograis que devem elevar o coração dos homens e levá-los à alegria espiritual?"

Dizia sempre que os frades menores, de modo particular, haviam sido dados ao povo de Deus para sua salvação.