NONA PARTE

Do espírito de profecia


CAPÍTULO 101. Como predisse que a paz seria estabelecida entre o bispo e o prefeito de Assis, diante dos quais mandou cantar o Cântico das Criaturas, que havia composto para seus companheiros

Depois que São Francisco compôs o Cântico das Criaturas, que chamara "Cântico do Irmão Sol", uma grande contenda eclodira entre o bispo e o prefeito de Assis, a ponto de o bispo excomungar o prefeito e este proibir vender ou comprar, fosse o que fosse, ao bispo, ou concluir com ele qualquer contrato.

Quando o Seráfico Pai, já enfermo, tomou conhecimento deste fato, ficou profundamente consternado e sentiu por eles grande compaixão, sobretudo por não ter ninguém servido de mediador, para restabelecer a paz entre ambos. Disse então a seus companheiros: "É uma grande vergonha para nós, servidores do Senhor, que o bispo e o prefeito se odeiem a este ponto sem que ninguém se interponha em favor da paz". E, imediatamente, acrescentou um verso alusivo a esta circunstância, ao Cântico das Criaturas, e disse: "Louvado sejas, meu Senhor, pelos que perdoam por amor de ti e suportam injustiças e tribulações. Bemaventurados os que perseveram na paz porque por ti, lá no alto, serão coroados".

Chamou em seguida um de seus companheiros e lhe disse: "Vai à casa do prefeito e dize-lhe de minha parte que venha ao bispado com os notáveis da cidade, todos os que puderes reunir".

Logo que o irmão partiu ele disse aos seus companheiros: "Ide à presença do bispo e do prefeito e de todos os que se encontrarem com eles e cantai o 'Cântico do Irmão Sol'. Confio no Senhor que tornará seus corações mais humildes e eles voltarão à antiga amizade".

Quando todos se reuniram no palácio do bispo os dois frades se levantaram e um deles exclamou: "Nosso pai Francisco compôs durante a sua doença os louvores do Senhor através de suas criaturas, para a glória de Deus e edificação do próximo. Ele vos roga que os escuteis com grande piedade". Começaram então a recitálos e cantá-los.

Imediatamente o prefeito se levantou, cruzou os braços e escutou-os com grande devoção e copiosas lágrimas como se fosse o próprio Evangelho do Senhor; ele tinha, com efeito, grande confiança em São Francisco e verdadeira devoção por ele.

Terminados os louvores, o prefeito disse diante de todos: "Em verdade vos digo, eu perdôo ao Senhor Bispo a quem quero e devo ter como meu senhor e perdoarei mesmo a morte de um irmão ou de um filho". Proferidas estas palavras, prostrou-se de joelho ante o bispo e acrescentou: "Estou pronto a dar-vos satisfação em tudo, como desejais, por amor de Nosso Senhor Jesus Cristo e do seu servidor São Francisco". O bispo tomou-lhe as mãos e levantou-o, dizendo-lhe: "Meu ofício exige que eu seja humilde, mas, porque sou por natureza inclinado à cólera, é preciso que me perdoes". Eles se abraçaram com grande bem-querer e afeição.

Os frades, ficaram estupefatos ao ver a reconciliação que São Francisco havia predito e se rejubilaram. Todos os que estavam lá consideraram como grande milagre, que atribuíram aos méritos de São Francisco, o fato de que o Senhor os tivesse visitado assim, subitamente, e os fizesse sair de tamanha discórdia e escândalo para a concórdia e a paz, sem se lembrarem de qualquer injúria passada. Nós que vivemos com São Francisco somos testemunhas de que quando ele dizia: "Isto acontece, ou acontecerá", realizava-se sempre literalmente. Presencia-mos tantos e tantos exemplos que seria demasiado longo escrevê-los ou narrá-los.