CAPÍTULO 102. Como predisse a sorte de um frade que não queria se confessar sob o pretexto de guardar silêncio

Havia um frade de vida honesta e santa que dia e noite parecia se dedicar à oração. Observava o silêncio de tal modo que quando se confessava a um padre o fazia não por palavras, mas por sinais. Parecia tão piedoso e ardente no amor de Deus que, às vezes, quando estava sentado com os outros frades manifestava, embora não revelasse, uma alegria interior e exterior, porque ao ouvirem suas piedosas palavras eles se sentiam mais inclinados à devoção.

Como persistisse neste modo de vida há vários anos, aconteceu que um dia São Francisco veio à casa onde ele morava. Informado pelos outros frades sobre a conduta daquele religioso, disse: "Em verdade, sabei que é por tentação diabólica que este frade não se quer confessar".

Entrementes, o ministro geral, que viera ter com São Francisco, se pôs a fazer elogios ao dito frade na presença do santo patriarca. Ao ouvi-lo, o Seráfico Pai retrucou-lhe: "Acredita-me, irmão, este homem é conduzido por um espírito maligno que o engana". Ao que o ministro geral respondeu: "Parece-me surpreendente e incrível que isto possa acontecer a um homem que manifesta tantos sinais de santidade e pratica tantas boas ações". São Francisco lhe disse, então: "Põe-no à prova, ordena-lhe que se confesse duas vezes por semana. Se não te escutar, saberás que te digo a verdade".

O ministro geral disse então ao homem: "Irmão, quero, em absoluto, que te confesses duas vezes, ou ao menos uma, por semana". O frade pôs o dedo na boca e sacudiu a cabeça mostrando por sinais que não queria fazê-lo por amor ao silêncio. Temendo escandalizá-lo, o ministro o deixou. Poucos dias depois, o frade saiu da Ordem por sua livre vontade, regressando ao mundo com vestes seculares.

Um dia, dois companheiros de São Francisco, enquanto empreendiam uma viagem, o encontraram no caminho. Ia sozinho como um peregrino, paupérrimo. Cheios de compaixão lhe disseram: "Desventurado, onde está a vida santa e honesta que levavas? Não querias falar e explicar-te na presença de teus irmãos e agora erras pelo mundo como um homem que não conhece a Deus".

Ele então se pôs a falar, jurando sempre "por minha fé", como fazem os homens do mundo. "Desgraçado", retrucaram-lhe os frades, "por que juras por tua fé, como fazem os homens do século, tu que te guardavas não somente das palavras inúteis mas também das boas!"

Em seguida o deixaram. Este homem morreu pouco depois. Ficamos surpresos de ver como era verdade o que São Francisco predissera deste miserável, quando os frades o olhavam como a um santo.