CAPÍTULO 107. De suas predições a Frei Bernardo e como se cumpriram totalmente

Pouco antes de sua morte, como lhe tivessem preparado finas Iguarias, lembrou-se de Frei Bernardo, que foi o primeiro a segui-lo. Disse então a seus companheiros: "Este prato é bom para Frei Bernardo". Imediatamente aquele religioso foi chamado para junto de são Francisco e chegando ao lugar onde se encontrava o santo, sentou-se perto do leito onde ele estava deitado e lhe disse: "Pai, rogo-te que me abençoes e me dês testemunho de tua afeição para comigo, pois se me mostrares teu amor de pai, creio que o próprio Deus e todos os frades me amarão mais". São Francisco não podia vê-lo, pois havia perdido a vista ha vários dias; estendendo a mão direita, pousou-a sobre a cabeça de Frei Egídio, que foi o terceiro dos primeiros companheiros, pensando que a punha sobre a cabeça de Frei Bernardo que estava sentado a seu lado. Imediatamente, por inspiração do Espirito santo, exclamou: "Não é a cabeça de Frei Bernardo".

Este último se aproxima e o santo passa a mão sobre sua cabeça e o abençoa, dizendo a um dos seus companheiros: "Escreve o que te digo: 'O primeiro companheiro que o Senhor me deu foi Frei Bernardo. Ele foi o primeiro a observar em toda perfeição o santo Evangelho, distribuindo todos os seus bens aos pobres. Por estes méritos e tantos outros, sou obrigado a amá-lo mais do que qualquer frade de toda a Ordem. Quero e ordeno, na medida de minhas possibilidades, que quem quer que for ministro geral o ame e honre tanto quanto eu mesmo o faria. Os ministros e os frades da Ordem o olhem como a mim próprio"'. Frei Bernardo e os outros frades ficaram grandemente reconfortados.

Considerando, com efeito, a grande perfeição de Frei Bernardo, São Francisco profetizou a seu respeito diante de alguns frades dizendo: "Em verdade vos digo que os mais poderosos e engenhosos demônios foram enviados a Frei Bernardo para exercitá-lo na virtude, cumulando-o de grandes tentações e tribulações. Todavia, quando chegar perto de sua morte, o Senhor misericordioso o libertará e trará a sua alma e seu corpo tamanha paz e tranqüilidade que os frades que presenciarem tal fato o admirarão e terão por grande milagre; e ele emigrará para o Senhor nesta paz e consolação de espírito".

Todas estas predições, que os frades ouviram com grande surpresa, realizaram-se integralmente. Frei Bernardo durante sua última doença experimentou tal paz e tal repouso de espírito que não queria deitar-se. E quando o fazia, permanecia quase sentado a fim de evitar que a mais leve distração lhe subisse à cabeça e o impedisse de pensar em Deus, trazendo-lhe o sono ou algum sonho. Se isto às vezes acontecia, levantava-se imediatamente e se batia, dizendo: "Que é que há? Em que estou pensando?"

Não queria nem sequer receber qualquer medicamento e dizia a quem lho oferecia: "Não me perturbes!"

Enfim, para morrer mais livremente e mais pacificamente, confiou o cuidado do seu corpo a um frade que era médico e lhe disse: "Não quero ter nenhuma preocupação com alimentação e bebida, mas tu me proverás disto. Se me deres alguma coisa, comerei; se não, nada pedirei".

Logo que se sentiu mais fraco quis ter sempre um padre ao seu lado até a hora da morte. Quando lhe vinha ao espírito um pensamento que pesava na consciência, logo o confessava.

Após a morte seu semblante tornou-se branco e suave, parecendo sorrir. Tornou-se assim mais belo, estando morto, do que vivo. Os frades se alegravam ao vê-lo, pois lhes parecia um santo de face sorridente.