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Pouco antes de sua morte, como lhe tivessem preparado finas
Iguarias, lembrou-se de Frei Bernardo, que foi o primeiro a
segui-lo. Disse então a seus companheiros: "Este prato é bom
para Frei Bernardo". Imediatamente aquele religioso foi chamado
para junto de são Francisco e chegando ao lugar onde se encontrava o
santo, sentou-se perto do leito onde ele estava deitado e lhe disse:
"Pai, rogo-te que me abençoes e me dês testemunho de tua afeição
para comigo, pois se me mostrares teu amor de pai, creio que o
próprio Deus e todos os frades me amarão mais". São Francisco
não podia vê-lo, pois havia perdido a vista ha vários dias;
estendendo a mão direita, pousou-a sobre a cabeça de Frei
Egídio, que foi o terceiro dos primeiros companheiros, pensando que
a punha sobre a cabeça de Frei Bernardo que estava sentado a seu
lado. Imediatamente, por inspiração do Espirito santo, exclamou:
"Não é a cabeça de Frei Bernardo".
Este último se aproxima e o santo passa a mão sobre sua cabeça e o
abençoa, dizendo a um dos seus companheiros: "Escreve o que te
digo: 'O primeiro companheiro que o Senhor me deu foi Frei
Bernardo. Ele foi o primeiro a observar em toda perfeição o santo
Evangelho, distribuindo todos os seus bens aos pobres. Por estes
méritos e tantos outros, sou obrigado a amá-lo mais do que qualquer
frade de toda a Ordem. Quero e ordeno, na medida de minhas
possibilidades, que quem quer que for ministro geral o ame e honre
tanto quanto eu mesmo o faria. Os ministros e os frades da Ordem o
olhem como a mim próprio"'. Frei Bernardo e os outros frades
ficaram grandemente reconfortados.
Considerando, com efeito, a grande perfeição de Frei Bernardo,
São Francisco profetizou a seu respeito diante de alguns frades
dizendo: "Em verdade vos digo que os mais poderosos e engenhosos
demônios foram enviados a Frei Bernardo para exercitá-lo na
virtude, cumulando-o de grandes tentações e tribulações.
Todavia, quando chegar perto de sua morte, o Senhor misericordioso o
libertará e trará a sua alma e seu corpo tamanha paz e tranqüilidade
que os frades que presenciarem tal fato o admirarão e terão por grande
milagre; e ele emigrará para o Senhor nesta paz e consolação de
espírito".
Todas estas predições, que os frades ouviram com grande surpresa,
realizaram-se integralmente. Frei Bernardo durante sua última
doença experimentou tal paz e tal repouso de espírito que não queria
deitar-se. E quando o fazia, permanecia quase sentado a fim de
evitar que a mais leve distração lhe subisse à cabeça e o impedisse
de pensar em Deus, trazendo-lhe o sono ou algum sonho. Se isto às
vezes acontecia, levantava-se imediatamente e se batia, dizendo:
"Que é que há? Em que estou pensando?"
Não queria nem sequer receber qualquer medicamento e dizia a quem lho
oferecia: "Não me perturbes!"
Enfim, para morrer mais livremente e mais pacificamente, confiou o
cuidado do seu corpo a um frade que era médico e lhe disse: "Não
quero ter nenhuma preocupação com alimentação e bebida, mas tu me
proverás disto. Se me deres alguma coisa, comerei; se não, nada
pedirei".
Logo que se sentiu mais fraco quis ter sempre um padre ao seu lado até
a hora da morte. Quando lhe vinha ao espírito um pensamento que
pesava na consciência, logo o confessava.
Após a morte seu semblante tornou-se branco e suave, parecendo
sorrir. Tornou-se assim mais belo, estando morto, do que vivo. Os
frades se alegravam ao vê-lo, pois lhes parecia um santo de face
sorridente.
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