CAPÍTULO 10

Certa vez, quando estava pregando ao povo em Terni, na praça na frente do palácio do bispo, estava assistindo a esse sermão o bispo da cidade, homem discreto e espiritual. Daí, quando acabou a pregação, o bispo levantou-se e, entre outras palavras de Deus, também disse: “O Senhor, desde o começo, quando plantou e edificou a sua Igreja (cfr. Mt 16,18) sempre a fez brilhar por santos homens, que a cultivassem pela palavra e pelo exemplo. Mas agora, nesta última hora (cfr. 1 Jo 2,18) ilustrou-a com este homem pobrezinho, desprezado e iletrado - apontando com o dedo o bem-aventurado Francisco para todo o povo -e por causa disso tendes que amar e honrar o Senhor, e tomar cuidado com os pecados, pois não fez assim com todas as nações (cfr. Sl 149,20)”.

Quando acabou a pregação, descendo do lugar onde tinha falado, [o senhor] bispo e o bem-aventurado Francisco entraram na igreja do palácio episcopal; então o bem-aventurado Francisco inclinou-se diante do senhor bispo e se prostrou aos seus pés (cfr. Mr 5,22) dizendo: “Na verdade eu te digo, senhor bispo, que homem algum jamais me deu tanto honra neste século quanto me fizeste hoje, porque as outras pessoas dizem: esse homem é santo! atribuindo a glória e a santidade à criatura e não ao Criador. Mas tu separaste o precioso do vil (cfr. Jr 15,19), como um homem discreto”.

Pois, muitas vezes, quando o bem-aventurado Francisco era honrado e diziam que ele era um santo homem, respondia essas palavras dizendo: “Ainda não estou seguro se não vou Ter filhos e filhas”. E dizia: “Pois, em qualquer hora que Deus quisesse me tirar o seu tesouro, que me emprestou, que é que me sobraria a não ser o corpo e alma, que também os infiéis possuem? Até devo crer que, se o Senhor desse a um ladrão e também a um homem infiel tantos bens quantos me deu, eles eriam mais fiéis ao Senhor”. E disse: “Como num quadro do Senhor e da bem-aventurada Virgem honram-se Deus e a bem-aventurada Virgem, e nos lembramos de Deus e da bem-aventurada Virgem: a tábua e a pintura não se atribuem nada, porque são apenas tábua e pintura, assim o servo de Deus é uma espécie de pintura, isto é, uma criatura de Deus, em que Deus é honrado por causa de um seu benefício, mas ele não se deve arrogar nada, como a tábua e pintura, mas só a Deus se deve dar honra e glória (cfr. 1Tm 1,17); a si mesmo vergonha e tribulação, enquanto vive, porque sempre, enquanto vive, a carne é contrária aos benefícios de Deus