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Certa vez, quando estava pregando ao povo em Terni, na praça na
frente do palácio do bispo, estava assistindo a esse sermão o bispo
da cidade, homem discreto e espiritual. Daí, quando acabou a
pregação, o bispo levantou-se e, entre outras palavras de Deus,
também disse: “O Senhor, desde o começo, quando plantou e
edificou a sua Igreja (cfr. Mt 16,18) sempre a fez brilhar por
santos homens, que a cultivassem pela palavra e pelo exemplo. Mas
agora, nesta última hora (cfr. 1 Jo 2,18) ilustrou-a com este
homem pobrezinho, desprezado e iletrado - apontando com o dedo o
bem-aventurado Francisco para todo o povo -e por causa disso tendes
que amar e honrar o Senhor, e tomar cuidado com os pecados, pois não
fez assim com todas as nações (cfr. Sl 149,20)”.
Quando acabou a pregação, descendo do lugar onde tinha falado, [o
senhor] bispo e o bem-aventurado Francisco entraram na igreja do
palácio episcopal; então o bem-aventurado Francisco inclinou-se
diante do senhor bispo e se prostrou aos seus pés (cfr. Mr
5,22) dizendo: “Na verdade eu te digo, senhor bispo, que homem
algum jamais me deu tanto honra neste século quanto me fizeste hoje,
porque as outras pessoas dizem: esse homem é santo! atribuindo a
glória e a santidade à criatura e não ao Criador. Mas tu separaste
o precioso do vil (cfr. Jr 15,19), como um homem discreto”.
Pois, muitas vezes, quando o bem-aventurado Francisco era honrado e
diziam que ele era um santo homem, respondia essas palavras dizendo:
“Ainda não estou seguro se não vou Ter filhos e filhas”. E
dizia: “Pois, em qualquer hora que Deus quisesse me tirar o seu
tesouro, que me emprestou, que é que me sobraria a não ser o corpo e
alma, que também os infiéis possuem? Até devo crer que, se o
Senhor desse a um ladrão e também a um homem infiel tantos bens
quantos me deu, eles eriam mais fiéis ao Senhor”. E disse:
“Como num quadro do Senhor e da bem-aventurada Virgem honram-se
Deus e a bem-aventurada Virgem, e nos lembramos de Deus e da
bem-aventurada Virgem: a tábua e a pintura não se atribuem nada,
porque são apenas tábua e pintura, assim o servo de Deus é uma
espécie de pintura, isto é, uma criatura de Deus, em que Deus é
honrado por causa de um seu benefício, mas ele não se deve arrogar
nada, como a tábua e pintura, mas só a Deus se deve dar honra e
glória (cfr. 1Tm 1,17); a si mesmo vergonha e tribulação,
enquanto vive, porque sempre, enquanto vive, a carne é contrária
aos benefícios de Deus
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