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Frei Ricério da Marca de Ancona, nobre de parentela mas ainda mais
nobre de santidade, a quem o bem-aventurado Francisco amava com
grande afeto, visitou certo dia no mesmo palácio ao bem-aventurado
Francisco. Entre outras palavras, em que comentou com o
bem-aventurado Francisco sobre a situação da Religião a
observância da Regra, também o interrogou sobre isto, dizendo:
“Conta-me, pai, que intenção tiveste desde o princípio quando
começaste a ter irmãos, e a intenção que tens agora, e achas que
vais ter até tua morte, para que eu possa me certificar de tua
intenção e vontade primeira e última, e saber se nós, irmãos
clérigos, que temos tantos livros, podemos tê-los, embora digamos
que são da Religião”.
Disse-lhe o bem-aventurado Francisco: Irmãos, eu te digo que
está foi e é minha primeira e última intenção e vontade, se os
frades acreditassem em mim, que nenhum frade deveria ter senão a
roupa, como a Regra nos concede, com o cíngulo e os calções”.
Por isso, houve uma vez em que disse: “A religião e a vida dos
frades menores é um pequeno rebanho, que o Filho de Deus pediu a seu
Pai celeste nesta última hora, dizendo: Pai, gostaria que
constituísses e me desses um povo novo e humilde neste última hora,
que seja diferente na humildade e na pobreza de todos os outros que
precederam e que ficasse contente de possuir só a mim.
E o Pai disse a seu dileto Filho: Filho, foi feito o que
pediste”. Por isso o bem-aventurado Francisco dizia que “por isso
quis o Senhor que se chamassem frades menores, porque este é o povo
que o Filho de deus pediu a seu Pai. O próprio Filho de deus disse
sobre eles no Evangelho: Não tenha medo, pequeno rebanho, porque
aprouve a vosso Pai dar-vos o reino (Luc 12,32), e
continuando: O que fizestes a um dos menores destes meus irmãos, foi
a mim que fizestes (cfr. Mat 25,40). Porque ainda que se
entenda que o Senhor disse isso a respeito de todos os pobres
espirituais, na verdade predisse principalmente que a Religião dos
frades menores viria a existir em sua Igreja”.
Por isso, como foi revelado ao bem-aventurado Francisco que a
religião deveria chamar-se dos frades menores, assim fez escrever na
primeira Regra, quando a levou para apresentar ao senhor papa
Inocêncio III, e ele aprovou e concedeu a ele e depois anunciou a
todos em um concílio. Semelhantemente, também a saudação que o
senhor lhe revelou que os frades deviam dizer, como mandou escrever em
seu testamento dizendo: “O Senhor me revelou que eu deveria dizer
como saudação: O Senhor te dê a paz (cfr. Nm 6,26; 2Ts
3,16)“.
Por isso, no começo da religião, quando o bem-aventurado
Francisco foi com um frade que foi um dos doze primeiros frades, esse
frade saudava os homens e as mulheres pelos caminhos e os que estavam
nos campos dizendo: O senhor vos doe a paz”. E como as pessoas
ainda não tinham ouvido tal saudação feita por nenhum religioso,
ficavam muito admirados com isso. Houve até algumas pessoas que lhes
disseram, como se estivessem indignadas: “O que quer essa
saudação?”. De modo que aquele frade começou a ficar muito
envergonhado por causa disso.
Daí disse ao bem-aventurado Francisco: “Irmão, deixa dizer
outra saudação”. O bem-aventurado Francisco respondeu-lhe:
“Deixa que eles falem, porque não entendem o que é de Deus. Mas
não fiques com vergonha, porque eu te digo, irmão, que nobres e
príncipes deste século ainda vão demonstrar reverência a ti e aos
outros frades por essa saudação”. E disse o bem-aventurado
Francisco: “Não é uma grande coisa que o Senhor tenha querido um
pequeno povo entre todos os outros que precederam, que ficasse contente
de possuir só a Ele, altíssimo e glorioso?”.
Mas se algum frade quiser dizer: por que o bem-aventurado
Francisco, no seu tempo, não fez os frades observarem uma pobreza
tão estrita como a que disse a Frei Ricério, e não mandou
observá-la, nós que estivemos com ele responderemos a isso, como
ouvimos de sua boca, porque ele mesmo disse isso e muitas outras coisas
aos frades e também mandou escrever na Regra muitas coisas que pedia
ao Senhor com assídua oração e meditação, pelo bem da religião,
afirmando que essa era certamente a vontade do Senhor. Mas, depois
que as mostrava a eles, pareciam-lhes graves e insuportáveis,
ignorando então o que aconteceria na ordem depois da morte dele.
E como temia muito um escândalo em si e nos frades, não queria
discutir com eles; mas condescendia, ainda que sem querer, à vontade
deles, e se escusava diante de Deus. Mas, para que não voltasse
vazia para deus a palavra que punha em sua boca para a utilidade dos
frades, queria cumpri-la em si, para conseguir por isso a mercê de
Deus, e no fim aquietava-se nisso e consolava seu espírito.
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