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De maneira semelhante, numa ocasião ouve um irmão noviço que sabia
ler o saltério, mas não bem; e como gostava de ler, pediu ao
ministro geral licença para ter um saltério, e o ministro lhe
concedeu. Mas ele não o queria ter se não recebesse licença para
isso do bem-aventurado Francisco, principalmente porque tinha ouvido
dizer que o bem-aventurado Francisco não queria que seus frades
fossem desejosos de ciência e de livros; mas queria, e pregava aos
frades, que se esforçassem por ter e imitar a pura e santa
simplicidade, uma santa oração e a senhora pobreza, sobre as quais
construíram os santos e os primeiros frades, e achava que esse era o
caminho mais seguro para a salvação da alma.
Não que desprezasse ou olhasse com desagrado a santa ciência; até
venerava com o maior afeto os que eram sábios na Religião e todos os
sábios, como ele mesmo testemunhou em seu Testamento, dizendo: “A
todos os teólogos e aos que nos administram as palavras divinas devemos
honrar e venerar como a quem nos administra o espírito e a vida”.
Mas, olhando para o futuro, conhecia pelo Espírito Santo e disse
muitas vezes aos frades que muitos frades, com a desculpa de edificar
os outros, abandonarão sua vocação, isto é a pura e santa
simplicidade, a santa oração e nossa senhora pobreza. E acontecerá
com eles que, de onde acharam que depois se imbuiriam de devoção e
acenderiam para o amor de Deus por causa da compreensão das
Escrituras, justamente por isso ficarão interiormente frios e como
que vazios.
E assim não poderão voltar à antiga vocação, principalmente
porque perderam o tempo de viver segundo a sua vocação. E temo que
não lhes seja tirado o que parecia que possuíam, porque abandonaram
sua vocação. E dizia: “Há muitos que põem na ciência todo o
seu esforço e toda a sua solicitude, dia e noite, deixando sua santa
vocação e a devota oração. E quando pregarem a alguns ou ao povo e
virem ou ficarem sabendo que alguns ficaram edificados ou se converteram
à penitência por causa disso, vão se inchar e orgulhar-se pelas
obras e o lucro alheio. Porque é o Senhor que edifica e converte
aqueles que eles crêem que eles acham que se edificam com suas palavras
e se convertem à penitência, com as orações dos frades santos,
mesmo que eles não saibam disso, pois assim é a vontade de Deus,
que não percebam disso para não se orgulharem. Estes são os meus
frades da távola redonda, que se escondem nos desertos e nos lugares
afastados, para se dedicarem mais diligentemente à oração e à
meditação, chorando os seus pecados e os dos outros, cuja santidade
é conhecida por Deus, algumas vezes pelos frades, mas é ignorada
pelos outros.
E quando suas almas forem apresentadas a Deus pelos anjos, então o
Senhor vai mostrar-lhes o fruto e o resultado de seus trabalhos, isto
é, muitas almas que forma salvas por suas orações, dizendo-lhes:
Filhos, olhem estas almas salvas por suas orações, e porque fostes
fiéis no pouco, eu vos constituirei sobre muitas coisas (cfr. Mt
25,21)”. Por isso, o bem-aventurado Francisco dizia sobre
aquela passagem: Enquanto a estéril teve muitos filhos e a quem tinha
muitos filhos ficou doente (cfr. 1Re 2,5), que a estéril era o
bom religioso, que edifica a si mesmo e aos outros pelas santas
orações e e virtudes. Dizia muitas vezes essas palavras diante dos
frades em suas conversas com eles, e principalmente no capítulo dos
frades junto à igreja de Santa Maria da Porciúncula, diante dos
ministros e dos outros frades.
Por isso formava para as obras todos os frades, tanto ministros como
pregadores, dizendo-lhes que por causa da prelatura e do ofício e
solicitude de pregar não deviam absolutamente deixar a santa e devota
oração, ir pedir esmolas e trabalhar com suas mãos, como os outros
frades, por causa do bom exemplo e do lucro de suas almas e das dos
outros. E dizia: “Os frades súditos ficam muito edificados quando
seus ministros e pregadores se entregam de boa vontade à oração, e
se prostram e se humilham”. Por isso ele, como um fiel zelador de
Cristo, enquanto foi sadio de corpo, fazia em si o que ensinava a
seus frades. Como aquele frade noviço, de que falamos acima, morava
num eremitério, aconteceu que certo dia esteve lá o bem-aventurado
Francisco.
Então aquele frade falou com ele, dizendo: “Pai, para mim seria
uma grande consolação ter um saltério, mas, embora o ministro geral
queira conceder-me isso, quero tê-lo de acordo com a tua
consciência”. Esta foi a resposta que o bem-aventurado Francisco
lhe deu: “Carlos imperador, Rolando e Olivério, e todos os
paladinos e robustos varões, que foram poderosos no combate,
perseguindo os infiéis com muito suor e trabalho até a morte,
conseguiram uma gloriosa e memorável vitória sobre eles, e no fim os
próprios santos mártires morreram no combate pela fé em Cristo; e
sãos muitos os que só pela narração deles, do que eles fizeram,
querem receber honra e louvor humano”. E por isso escreveu qual o
significado dessas palavras em suas Admoestações, dizendo: “Os
santos fizeram as obras e nós, recitando-as e pregando-as, queremos
receber por isso honra e glória”. Como se dissesse: a ciência
incha, mas a caridade edifica (cfr. 1Cor 8,1).
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