CAPÍTULO 106

Outra vez, quando o bem-aventurado Francisco estava no mesmo palácio, disse-lhe um dia um dos que eram seus companheiros aí: “Pai, perdoa-me, porque o que quero te dizer já foi considerado por diversas pessoas”. E disse: “Tu sabes como outrora, pela graça de Deus, toda a religião vigorou na pureza da perfeição, isto é, como todos os frades observavam com fervor e solicitude a santa pobreza em tudo, em edifícios pequenos e pobrezinhos, em utensílios pequenos e pobrezinhos, em livros pequenos e pobrezinhos, e em roupas pobrezinhas, e como nessas coisas, também nas outras coisas exteriores tinham uma única vontade, solícitos por observar tudo que diz respeito a nossa profissão e vocação, e ao bom exemplo; e assim eram unânimes no amor a deus e ao próximo.

Agora, porém, faz pouco tempo, essa pureza e perfeição começou a variar de diversas formas, ainda que os frades digam muitas coisas e dêem muitas desculpas, dizendo que por causa da multidão essas coisas não podem ser observadas pelos frades. Muitos frades até acham que o povo fica mais edificado com essas coisas, e lhes parece mais honesto viver e comportar-se de acordo com essas coisas; por isso têm como se fosse nada o caminho da simplicidade e daquela pobreza, que foram o início e o fundamento da nossa religião. Por isso, considerando essas coisas, achamos que elas te desagradam; mas ficamos muito admirados, se te desagradam, porque suportas e não corriges”.

O bem-aventurado Francisco disse-lhe: “O Senhor te perdoa, irmão, porque queres me contradizer, ser meu adversário e me implicar nessas coisas que não são do meu ofício”. E disse: “Enquanto eu tive o ofício de cuidar dos frades, eles permaneceram em sua vocação e profissão, embora eu tenha sido adoentado desde o começo de minha conversão a Cristo, e com pouca solicitude da minha parte conseguia satisfaze-los com o exemplo e a pregação.

Mas depois que eu vi que o Senhor multiplicava todos os dias o número dos frades, e que eles, por causa da tibieza e do vazio de espírito começaram a desviar-se do caminho reto e seguro pelo qual costumavam andar, e passaram a ir por um caminho mais largo, como disseste, não cuidando de sua profissão, vocação e bom exemplo, e não abandonaram o caminho que tinham começado, apesar da minha pregação e exemplo, recomendei a Religião ao Senhor e aos ministros dos frades. Porque, embora no tempo em que renunciei e deixei o ofício dos frades, eu tenha me desculpado diante dos frades no capítulo geral, pois por causa de minha doença não podia mais ter o cuidado e a solicitude por eles, agora, se os frades andassem e tivessem andado de acordo com a minha vontade, por sua consolação eu não quisera que tivessem outro ministro senão eu, até o dia de minha morte. Porque desde que um fiel e bom súdito conhece a vontade de seu prelado e a observa, o prelado precisa ter pouca solicitude por ele. Eu até teria tanta alegria pela bondade dos frades e me consolaria por causa do meu proveito e do proveito deles que, se jazesse doente na cama, não seria pesado para mim satisfaze-los”. E disse: “Meu ofício é espiritual, isto é, uma prelatura sobre os frades, porque dominar e corrigir os vícios.

Por isso, se não posso dominar e corrigir os vícios pela pregação e o exemplo, não quero ser um carrasco para bater e chicotear, como o poder deste século”. Porque confio no Senhor que os inimigos invisíveis, que são os esbirros do Senhor ainda vão vingar-se deles para punir neste século e no futuro os que transgridem os mandamentos do Senhor, fazendo-os serem corrigidos pelas pessoas deste século com impropério e vergonha para eles; e voltarão a sua profissão e vocação. Entretanto, até o dia de minha morte não vou parar de ensinar os frades a andarem pelo caminho que o Senhor me mostrou, pelo meu exemplo e ação. E eu lhes mostrei e informei, de modo que não têm desculpas diante do Senhor, e eu, diante de Deus não vou mais ter que prestar contas deles”.

Por isso, fez então escrever em seu Testamento que todas as casas dos frades deviam ser de barro e paus, como um sinal da santa pobreza e humildade, e que as igrejas que fossem construídas para os frades fossem pequenas. Quis até que essa reforma começasse, principalmente no que diz respeito às casas construídas de barro e paus, e a todos os bons exemplos, no lugar de Santa Maria da Porciúncula, que foi o primeiro lugar onde, depois que os frades ali moraram, pó senhor começou a multiplicar os frades para que fosse um exemplo para sempre para os outros frades que estão e virão para a Religião. Mas alguns disseram que não lhes parecia bom que as casas dos frades devessem ser construídas de paus e barro, porque em muitos lugares e províncias a madeira é mais cara do que as pedras.

E o bem-aventurado Francisco não queria disputar com eles, porque estava muito doente e próximo da morte, pois pouco viveu depois disso. Por isso escreveu depois no seu Testamento: “Cuidem os frades de não receber absolutamente as igrejas e moradias que forem construídas para eles se não forem como convém à santa pobreza que na Regra prometemos, sempre nelas se hospedando como peregrinos e forasteiros. Mas nós que estivemos com ele quando escreveu a Regra e quase todos os seus outros escritos, damos testemunho de que fez escrever muitas coisas na Regra e em seus outros escritos das quais alguns frades, principalmente prelados, foram contrários. Por isso aconteceu que essas coisas em que os frades foram contrários ao bem-aventurado Francisco durante sua vida, agora, depois de sua morte, são muito úteis a toda a Religião.

Mas como ele temia muito o escândalo, condescendia, mesmo sem querer, com a vontade dos frades. Mas muitas vezes dizia estas palavras: “Ai dos frades que são contrários a mim nisso, porque eu sei que é a vontade de Deus para a maior utilidade da Religião, ainda que, contra o meu querer, condescenda com a vontade deles”. Por isso, dizia muitas vezes a seus companheiros: “Nisso está minha dor e minha aflição, porque obtenho essas coisas de Deus por sua misericórdia com muito trabalho de oração e meditação, para a utilidade presente e futura de toda a religião, e Ele me dá a certeza de que são segundo a sua vontade. E alguns frades, pela autoridade e providência da sua ciência, esvaziam e são contrários a mim, dizendo: “Estas coisas devem ser tidas e observadas, e estas não!”. Mas porque, como foi dito, tinha tanto medo de escândalo, permitia fazer muitas coisas que não estavam de acordo com a sua vontade e condescendia com a vontade deles.