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Outra vez, quando o bem-aventurado Francisco estava no mesmo
palácio, disse-lhe um dia um dos que eram seus companheiros aí:
“Pai, perdoa-me, porque o que quero te dizer já foi considerado
por diversas pessoas”. E disse: “Tu sabes como outrora, pela
graça de Deus, toda a religião vigorou na pureza da perfeição,
isto é, como todos os frades observavam com fervor e solicitude a
santa pobreza em tudo, em edifícios pequenos e pobrezinhos, em
utensílios pequenos e pobrezinhos, em livros pequenos e pobrezinhos,
e em roupas pobrezinhas, e como nessas coisas, também nas outras
coisas exteriores tinham uma única vontade, solícitos por observar
tudo que diz respeito a nossa profissão e vocação, e ao bom
exemplo; e assim eram unânimes no amor a deus e ao próximo.
Agora, porém, faz pouco tempo, essa pureza e perfeição começou a
variar de diversas formas, ainda que os frades digam muitas coisas e
dêem muitas desculpas, dizendo que por causa da multidão essas
coisas não podem ser observadas pelos frades. Muitos frades até
acham que o povo fica mais edificado com essas coisas, e lhes parece
mais honesto viver e comportar-se de acordo com essas coisas; por isso
têm como se fosse nada o caminho da simplicidade e daquela pobreza,
que foram o início e o fundamento da nossa religião. Por isso,
considerando essas coisas, achamos que elas te desagradam; mas ficamos
muito admirados, se te desagradam, porque suportas e não corriges”.
O bem-aventurado Francisco disse-lhe: “O Senhor te perdoa,
irmão, porque queres me contradizer, ser meu adversário e me
implicar nessas coisas que não são do meu ofício”. E disse:
“Enquanto eu tive o ofício de cuidar dos frades, eles permaneceram
em sua vocação e profissão, embora eu tenha sido adoentado desde o
começo de minha conversão a Cristo, e com pouca solicitude da minha
parte conseguia satisfaze-los com o exemplo e a pregação.
Mas depois que eu vi que o Senhor multiplicava todos os dias o número
dos frades, e que eles, por causa da tibieza e do vazio de espírito
começaram a desviar-se do caminho reto e seguro pelo qual costumavam
andar, e passaram a ir por um caminho mais largo, como disseste, não
cuidando de sua profissão, vocação e bom exemplo, e não
abandonaram o caminho que tinham começado, apesar da minha pregação
e exemplo, recomendei a Religião ao Senhor e aos ministros dos
frades. Porque, embora no tempo em que renunciei e deixei o ofício
dos frades, eu tenha me desculpado diante dos frades no capítulo
geral, pois por causa de minha doença não podia mais ter o cuidado e
a solicitude por eles, agora, se os frades andassem e tivessem andado
de acordo com a minha vontade, por sua consolação eu não quisera que
tivessem outro ministro senão eu, até o dia de minha morte. Porque
desde que um fiel e bom súdito conhece a vontade de seu prelado e a
observa, o prelado precisa ter pouca solicitude por ele. Eu até
teria tanta alegria pela bondade dos frades e me consolaria por causa do
meu proveito e do proveito deles que, se jazesse doente na cama, não
seria pesado para mim satisfaze-los”. E disse: “Meu ofício é
espiritual, isto é, uma prelatura sobre os frades, porque dominar e
corrigir os vícios.
Por isso, se não posso dominar e corrigir os vícios pela pregação
e o exemplo, não quero ser um carrasco para bater e chicotear, como o
poder deste século”. Porque confio no Senhor que os inimigos
invisíveis, que são os esbirros do Senhor ainda vão vingar-se
deles para punir neste século e no futuro os que transgridem os
mandamentos do Senhor, fazendo-os serem corrigidos pelas pessoas
deste século com impropério e vergonha para eles; e voltarão a sua
profissão e vocação. Entretanto, até o dia de minha morte não
vou parar de ensinar os frades a andarem pelo caminho que o Senhor me
mostrou, pelo meu exemplo e ação. E eu lhes mostrei e informei, de
modo que não têm desculpas diante do Senhor, e eu, diante de Deus
não vou mais ter que prestar contas deles”.
Por isso, fez então escrever em seu Testamento que todas as casas
dos frades deviam ser de barro e paus, como um sinal da santa pobreza e
humildade, e que as igrejas que fossem construídas para os frades
fossem pequenas. Quis até que essa reforma começasse,
principalmente no que diz respeito às casas construídas de barro e
paus, e a todos os bons exemplos, no lugar de Santa Maria da
Porciúncula, que foi o primeiro lugar onde, depois que os frades ali
moraram, pó senhor começou a multiplicar os frades para que fosse um
exemplo para sempre para os outros frades que estão e virão para a
Religião. Mas alguns disseram que não lhes parecia bom que as casas
dos frades devessem ser construídas de paus e barro, porque em muitos
lugares e províncias a madeira é mais cara do que as pedras.
E o bem-aventurado Francisco não queria disputar com eles, porque
estava muito doente e próximo da morte, pois pouco viveu depois
disso. Por isso escreveu depois no seu Testamento: “Cuidem os
frades de não receber absolutamente as igrejas e moradias que forem
construídas para eles se não forem como convém à santa pobreza que
na Regra prometemos, sempre nelas se hospedando como peregrinos e
forasteiros. Mas nós que estivemos com ele quando escreveu a Regra e
quase todos os seus outros escritos, damos testemunho de que fez
escrever muitas coisas na Regra e em seus outros escritos das quais
alguns frades, principalmente prelados, foram contrários. Por isso
aconteceu que essas coisas em que os frades foram contrários ao
bem-aventurado Francisco durante sua vida, agora, depois de sua
morte, são muito úteis a toda a Religião.
Mas como ele temia muito o escândalo, condescendia, mesmo sem
querer, com a vontade dos frades. Mas muitas vezes dizia estas
palavras: “Ai dos frades que são contrários a mim nisso, porque eu
sei que é a vontade de Deus para a maior utilidade da Religião,
ainda que, contra o meu querer, condescenda com a vontade deles”.
Por isso, dizia muitas vezes a seus companheiros: “Nisso está
minha dor e minha aflição, porque obtenho essas coisas de Deus por
sua misericórdia com muito trabalho de oração e meditação, para a
utilidade presente e futura de toda a religião, e Ele me dá a
certeza de que são segundo a sua vontade. E alguns frades, pela
autoridade e providência da sua ciência, esvaziam e são contrários
a mim, dizendo: “Estas coisas devem ser tidas e observadas, e estas
não!”. Mas porque, como foi dito, tinha tanto medo de
escândalo, permitia fazer muitas coisas que não estavam de acordo com
a sua vontade e condescendia com a vontade deles.
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