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No tempo daquele capítulo celebrado no mesmo lugar, em que os frades
foram enviados pela primeira vez a algumas províncias ultramarinas,
quando acabou o capítulo, o bem-aventurado Francisco, permanecendo
nesse lugar com alguns frades, disse-lhes: “Caríssimos irmãos,
eu tenho que ser forma e exemplo de todos os frades. Portanto, se
mandei meus frades para lugares longínquos onde vão trabalhar, passar
vergonha, fome, e ter que agüentar numerosas necessidades,
parece-me justo e bom que também eu vá semelhantemente para alguma
província longínqua, principalmente para que os frades possam
suportar mais pacientemente suas necessidades e tribulações, quando
ouvirem dizer que eu também as suporto”. E lhes disse: “Ide,
portanto, e orai ao Senhor para que me dê de escolher a província
que for para maior louvor de deus e proveito e salvação das almas, e
para bom exemplo de nossa religião”.
Pois era costume do pai santíssimo, não só quando ia pregar em
alguma província longínqua mas também quando ia para as províncias
próximas, orar ao senhor e mandar os frades orarem para que o Senhor
dirigisse seu coração para ir onde quer que fosse melhor segundo
Deus. Por isso os frades foram para a oração e, quando acabaram,
voltaram para ele. Ele lhes disse: “Em nome de nosso Senhor Jesus
Cristo, de sua gloriosa Virgem Mãe e de todos os santos, escolho a
província da França, onde há um povo católico, principalmente
porque entre os outros católicos da santa Igreja demonstram a maior
reverência ao Corpo de Cristo; o que para mim é muito grato. Por
isso vou ter a maior boa vontade de viver com eles”.
Pois o bem-aventurado Francisco tinha tanta reverência e devoção
ao Corpo de Cristo, que quis que fosse escrito na Regra que os
frades tivessem cuidado e solicitude para com ele nas províncias em que
morassem, e admoestassem e pregassem sobre isso aos clérigos e
sacerdotes, para que colocassem o Corpo de Cristo em um lugar bom e
conveniente. E, se não agissem assim, queria que os frades o
fizessem. Houve um tempo em que até quis enviar frades com âmbulas
por todas as províncias, e onde encontrassem o Corpo de Cristo
ilicitamente colocado, que eles mesmos lhe dessem um lugar honroso.
Pois, por reverência ao santíssimo Corpo e Sangue de nosso Senhor
Jesus Cristo, também quis pôr na Regra que os frades, onde quer
que encontrem as palavras e nomes escritos do Senhor, pelos quais
faz-se o Santíssimo Sacramento, mal guardadas ou desrespeitosamente
espalhadas em algum lugar, as recolhessem e repusessem, honrando o
Senhor nas palavras que disse.
Pois muitas coisas são santificadas pelas palavras de deus, e em
virtude das palavras de Cristo confecciona-se o sacramento do altar.
E embora não tenha escrito isso na Regra, principalmente porque aos
frades ministros não parecia bom que os frades tivessem isso como um
mandamento, no seu testamento e em outros escritos seus o santo pai
quis deixar sua vontade sobre essas coisas. Também quis mandar alguns
outros frades por todas as províncias com boas e bonitas ferramentas
para fazer hóstias. Quando o bem-aventurado Francisco escolheu
entre os frades os que queria levar consigo, disse-lhes: “Em nome
do Senhor, ide dois a dois comportadamente pelo caminho, e
principalmente em silêncio, de manhã até depois de tércia, orando
ao Senhor em vossos corações. E as palavras ociosas e inúteis não
sejam ditas entre vós. Pois mesmo que estejais caminhando, vossa
conversação seja tão conveniente como se estivésseis no eremitério
ou na cela, porque onde quer que estejamos ou caminhemos, temos a
nossa cela conosco: pois o irmão corpo é nossa cela e a alma é o
eremita que mora dentro da cela para orar a Deus e meditar.
Por isso, se a alma não permanecer no sossego e na solidão em sua
cela, de pouco adianta para o religioso a cela construída com a mão.
Mas quando chegaram a Arezzo, havia o maior escândalo e uma guerra
quase na cidade inteira, de dia e de noite, por causa de duas
facções que havia muito tempo se odiavam. Quando o bem-aventurado
Francisco viu isso e ouviu tamanho rumor e clamor de dia e de noite,
estando hospedado em certo hospital num burgo fora da cidade,
pareceu-lhes que os demônios estavam exultantes com isso [e
incitavam] todas as pessoas a destruir a cidade com fogo e outros
perigos. Então, movido pela piedade para com aquela cidade, disse
ao sacerdote Frei Silvestre, homem de Deus, de grande fé, de
admirável simplicidade e pureza, que o santo pai venerava como um
santo: ”Vá à frente da porta da cidade e mande em alta voz que
todos os demônios saiam desta cidade. Frei Silvestre levantou-se e
foi para diante da porta da cidade, gritando em alta voz: “Louvado e
bendito seja o Senhor Jesus Cristo. Da parte de Deus onipotente e
em virtude da santa obediência do nosso santíssimo pai Francisco, eu
mando aos demônios que saiam todos desta cidade”.
E aconteceu que, pela misericórdia divina e pela oração do
bem-aventurado Francisco, mesmo sem nenhuma pregação, pouco depois
voltaram todos à paz e à unidade. E como não lhes pôde pregar
nessa ocasião, o bem-aventurado Francisco, mais tarde, quando
estava pregando a eles certa vez, disse-lhes no primeiro sermão da
pregação: “Eu vos falo como a presos dos demônios, porque vós
mesmos vos amarrastes e vendestes, como animais no mercado, por causa
da vossa miséria, e vos entregastes nas mãos dos demônios; isso
aconteceu quando vos expusestes à vontade daqueles que destruíram e
destroem a si mesmos e a vós, e querem destruir a cidade inteira.
Mas vós sois pessoas miseráveis e ignorantes pois sois ingratos aos
benefícios de deus, que, mesmo que alguns de vós não saibam, em
certa hora libertou esta cidade pelos méritos de um santíssimo Frei
Silvestre”.
Quando o bem-aventurado Francisco chegou a Florença, aí encontrou
o senhor Hugolino, bispo de Óstia, mais tarde papa, que tinha sido
enviado pelo papa Honório como legado ao Ducado e à Toscana, à
Lombardia, à Marca de treviso até Veneza. O senhor bispo ficou
muito alegre com a chegada dele. Mas quando ouviu o bem-aventurado
Francisco dizer que queria ir para a França, proibiu que fosse,
dizendo-lhe: “Irmão, não quero que vás para lá dos montes,
porque há muitos prelados e outros que vão querer impedir os bens de
tua religião na cúria romana.
Mas eu e outros cardeais, que amamos tua religião, com maior boa
vontade a protegeremos e ajudaremos, se permanecerdes nos arredores
desta província”. mas o bem-aventurado Francisco disse-lhe:
“Senhor, é uma grande vergonha para mim, que mandei meus frades
para províncias remotas e longínquas, se eu ficar nas províncias
daqui”. Mas o senhor bispo disse, contestando-o: “Por que
mandaste teus frades tão longe para morrerem de fome e terem tantas
outras tribulações?”. O bem-aventurado Francisco respondeu com
grande fervor de espírito e espírito de profecia: “Senhor, julgais
e credes que o Senhor enviou frades só para estas províncias? Mas
eu vos digo em verdade que o Senhor escolheu e enviou os frades para o
proveito e salvação das almas das pessoas de todo o mundo, e não
vão ser recebidos só nas terras dos fiéis mas também dos infiéis.
E enquanto observarem o que prometeram a Deus, assim o Senhor lhes
dará o que for necessário tanto na terra dos infiéis quanto na dos
fiéis”.
E o senhor bispo ficou admirado com suas palavras, afirmando que dizia
a verdade. E assim o senhor bispo não permitiu que ele fosse para a
França; mas o bem-aventurado Francisco mandou para lá Frei
Pacífico com outros frades, voltando ele para o vale de Espoleto.
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