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Entre os seus frades, Francisco quis ser humilde e, para conservar a
maior humildade, poucos anos depois de sua conversão, em um capítulo
em Santa Maria da Porciúncula, resignou ao ofício da prelatura
diante de todos os frades, dizendo: “Agora estou morto para vós;
mas aqui está Frei Pedro Catani, a quem eu e vós vamos
obedecer”. Então todos os frades começaram a deplorar em alta voz e
a chorar fortemente. E, inclinando-se diante de Frei Pedro, o
bem-aventurado Francisco prometeu obediência e reverência; e desde
então até sua morte permaneceu como um súdito, como um dos outros
frades. Até mais: não só quis estar submisso ao ministro geral e
aos ministros provinciais mas também, em qualquer província em que
estivesse morando ou tivesse ido pregar, obedecia ao ministro daquela
província, mas também, para maior perfeição e humildade, muito
tempo antes de sua morte, disse uma vez ao ministro geral: “Quero
que confies tua representação junto a mim a um de meus companheiros,
a quem obecerei no teu lugar; porque, por causa do bom exemplo e da
virtude da obediência na vida e na morte, quero que permaneças sempre
comigo”.
E desde então até a morte sempre teve um de seus companheiros como
guardião, a quem obedecia no lugar do ministro geral. Uma vez, até
disse aos companheiros: “Entre outras graças, o Senhor me deu
esta: que eu obedecesse de tal modo ao noviço, que tivesse entrado
hoje na Religião, como àquele que fosse o primeiro e mais antigo na
vida e na Religião dos frades. Porque o súdito deve considerar em
seu prelado não o homem mas Deus, por cujo amor se fez submisso”.
Disse igualmente: “Não há nenhum prelado em todo o mundo que seja
tão temido por seus súditos e frades quanto o Senhor me faria ser
temido por meus frades, se eu quisesse; mas o próprio Altíssimo me
deu esta graça, que eu quero ficar contente com todos, como o menor
na Religião”.
E isso nós vimos com nossos olhos (cfr. 1 Jo 1,1) muitas
vezes, nós que vivemos com ele (cfr. 2 Pd 1,18), como ele
mesmo testemunha; porque muitas vezes, como alguns frades não o
satisfizessem em suas necessidades ou lhe dissessem alguma palavra, das
que costumam levar as pessoas ao escândalo, ia logo rezar e quando
voltava não queria lembrar-se, dizendo: Tal frade não me
satisfez, ou: Disse-me tal palavra. Quanto mais se aproximava da
morte, mais era solícito em toda perfeição por considerar como
poderia viver e morrer em toda humildade e pobreza.
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