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Houve um frade de honesto e santo comportamento, que era solícito dia
e noite pela oração. Observava um silêncio tão contínuo que, às
vezes, quando se confessava com um irmão sacerdote, confessava-se
com alguns sinais e não com palavras. Pois parecia ser tão devoto e
fervoroso no amor de Deus que, às vezes, quando se sentava com os
frades, embora não falasse, alegrava-se interior e exteriormente
quando ouvia algumas boas palavras, de modo que atraia para a devoção
a Deus todos os frades e outros que o viam. Por isso era visto de boa
vontade pelos frades e pelos outros como um santo.
Já tinha persistido por diversos anos nesse comportamento, quando
aconteceu que o bem-aventurado Francisco foi ao lugar onde ele estava
e, quando ouviu dos frades como é que ele se comportava, disse aos
frades: “Sabei em verdade que isso é uma tentação diabólica e um
engano, porque não quer confessar-se”. Nesse meio tempo ali chegou
o ministro geral para visitar o bem-aventurado Francisco , e começou
a recomendá-lo diante do bem-aventurado Francisco. Disse-lhe o
bem-aventurado Francisco: “Acredita em mim, irmão, porque esse
frade é levado pelo espírito maligno e se engana”. Então o
ministro geral respondeu: “A mim parece admirável e como que
incrível que possa acontecer o que dizes num homem em que aparecem tão
sinais e obras de santidade”.
Disse-lhe o bem-aventurado Francisco: “Põe-no à prova,
dizendo que tem que se confessar pelo menos duas ou uma vez por semana;
se não te ouvir, saberás que é verdade o que eu te digo”. Quando
conversava, um dia, com aquele irmão, o ministro geral disse-lhe:
“Irmão, quero absolutamente que duas, ou pelo menos uma vez por
semana te confesses”. Ele pôs um dedo na boca, virando a cabeça,
fazendo sinais de que não o faria de nenhum jeito. Mas o ministro,
temendo escandalizá-lo, deixou-o. Não muitos dias depois, ele
saiu voluntariamente da Religião e voltou para o século, usando
roupas seculares.
Aconteceu que, certo dia, quando dois dos companheiros do
bem-aventurado Francisco andavam pó rum caminho, encontraram-se com
ele, que caminhava sozinho, como um paupérrimo peregrino. Com pena
dele, disseram: “Ó coitado, onde estão teu santo comportamento e
tua honestidade?. Não querias mostrar-te a teus irmãos e falar com
eles, e amavas a vida solitária; e agora vais andando por este
mundo, como um homem que ignora Deus e seus servos”. Ele começou a
falar-lhes, jurando-lhes muitas vezes em sua fé como as pessoas
seculares.
Disseram-lhe os frades: “Pobre homem, por que com tuas palavras
juras pela tua fé como as pessoas seculares, tu que, outrora, na
Religião, calavas não só as palavras ociosas mas até as boas?
Respondeu-lhes: “Não dá para ser de outro jeito”. Assim
deixaram-no. E não muitos dias depois ele morreu. E ficaram muito
admirados com isso os frades e outros, considerando a santidade do
bem-aventurado Francisco que lhes predisse a sua queda, no tempo em
que era tido como santo pelos frades e pelos outros.
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