CAPÍTULO 116

Houve um frade de honesto e santo comportamento, que era solícito dia e noite pela oração. Observava um silêncio tão contínuo que, às vezes, quando se confessava com um irmão sacerdote, confessava-se com alguns sinais e não com palavras. Pois parecia ser tão devoto e fervoroso no amor de Deus que, às vezes, quando se sentava com os frades, embora não falasse, alegrava-se interior e exteriormente quando ouvia algumas boas palavras, de modo que atraia para a devoção a Deus todos os frades e outros que o viam. Por isso era visto de boa vontade pelos frades e pelos outros como um santo.

Já tinha persistido por diversos anos nesse comportamento, quando aconteceu que o bem-aventurado Francisco foi ao lugar onde ele estava e, quando ouviu dos frades como é que ele se comportava, disse aos frades: “Sabei em verdade que isso é uma tentação diabólica e um engano, porque não quer confessar-se”. Nesse meio tempo ali chegou o ministro geral para visitar o bem-aventurado Francisco , e começou a recomendá-lo diante do bem-aventurado Francisco. Disse-lhe o bem-aventurado Francisco: “Acredita em mim, irmão, porque esse frade é levado pelo espírito maligno e se engana”. Então o ministro geral respondeu: “A mim parece admirável e como que incrível que possa acontecer o que dizes num homem em que aparecem tão sinais e obras de santidade”.

Disse-lhe o bem-aventurado Francisco: “Põe-no à prova, dizendo que tem que se confessar pelo menos duas ou uma vez por semana; se não te ouvir, saberás que é verdade o que eu te digo”. Quando conversava, um dia, com aquele irmão, o ministro geral disse-lhe: “Irmão, quero absolutamente que duas, ou pelo menos uma vez por semana te confesses”. Ele pôs um dedo na boca, virando a cabeça, fazendo sinais de que não o faria de nenhum jeito. Mas o ministro, temendo escandalizá-lo, deixou-o. Não muitos dias depois, ele saiu voluntariamente da Religião e voltou para o século, usando roupas seculares.

Aconteceu que, certo dia, quando dois dos companheiros do bem-aventurado Francisco andavam pó rum caminho, encontraram-se com ele, que caminhava sozinho, como um paupérrimo peregrino. Com pena dele, disseram: “Ó coitado, onde estão teu santo comportamento e tua honestidade?. Não querias mostrar-te a teus irmãos e falar com eles, e amavas a vida solitária; e agora vais andando por este mundo, como um homem que ignora Deus e seus servos”. Ele começou a falar-lhes, jurando-lhes muitas vezes em sua fé como as pessoas seculares.

Disseram-lhe os frades: “Pobre homem, por que com tuas palavras juras pela tua fé como as pessoas seculares, tu que, outrora, na Religião, calavas não só as palavras ociosas mas até as boas? Respondeu-lhes: “Não dá para ser de outro jeito”. Assim deixaram-no. E não muitos dias depois ele morreu. E ficaram muito admirados com isso os frades e outros, considerando a santidade do bem-aventurado Francisco que lhes predisse a sua queda, no tempo em que era tido como santo pelos frades e pelos outros.