|
Certa ocasião, o bem-aventurado Francisco foi ao eremitério de
Monte Alverne; e como o lugar era muito afastado, ele gostou tanto
que quis fazer aí a quaresma em honra de São Miguel. Pois fora
para lá antes da festa da Assunção da gloriosa Virgem Maria, e
contou os dias desde a festa de santa Maria até a festa de São
Miguel, eram quarenta dias. E disse: “Em honra de Deus e da
bem-aventurada Virgem Maria, sua mãe, e do bem-aventurado
Miguel, príncipe dos anjos e das almas, quero fazer aqui uma
quaresma”.
E aconteceu que, quando entrou na cela para lá ficar continuamente,
rogou ao Senhor na primeira noite que lhe mostrasse de alguma maneira
como poderia saber se era sua vontade que ficasse ali. Pois o
bem-aventurado Francisco sempre foi solícito, quando estava em algum
lugar continuamente em oração, ou quando saía pelo mundo em
pregação, em conhecer a vontade do Senhor, segundo a qual mais
pudesse agradá-lo. Porque algumas vezes temia que, com a desculpa
de ficar mais afastado para orar, o corpo quisesse descansar,
recusando o trabalho de ir pregando pelo mundo, pois para isso Cristo
desceu do céu ao mundo.
Até mais, os que lhe pareciam amados pelo Senhor, fazia-os rogar
ao Senhor que lhes mostrasse sua vontade, se devia sair pelo mundo
pregando ou de vez em quando tinha que permanecer em algum lugar remoto
para orar. Bem cedo, na aurora, quando estava em oração, vieram
pássaros de diversos tipos para cima da cela onde ficava, não todos
juntos, mas primeiro vinha um e cantava, demonstrando o seu doce
verso, e depois ia embora. Depois vinha outro, cantava e ia embora;
e assim fizeram todos.
O bem-aventurado Francisco ficou muito admirado com isso e teve a
maior consolação, mas começou a meditar sobre o que seria isso. E
foi dito pelo Senhor em espírito: “Isso é sinal de que o Senhor
vai te fazer o bem nessa cela e vai dar-lhe muitas consolações”. E
essa foi a verdade; pois entre muitas outras consolações ocultas e
manifestas, que deus lhe fez, foi-lhe mostrada por Deus a visão de
um Serafim, da qual teve muita consolação em sua alma, entre ele
mesmo e o Senhor durante todo o tempo de sua vida. E aconteceu que,
quando seu companheiro levou-lhe a comida, ele contou tudo que lhe
tinha acontecido. E embora tivesse muitas consolações naquela
cela,, os demônios também lhe causaram muitas tribulações, como
contou ao mesmo companheiro.
Por isso, uma vez, disse: “Se os frades soubessem quantas
tribulações me fazem os demônios, não haveria nenhum deles que não
tivesse muita piedade e compaixão de mim”. E por isso, como disse
muitas vezes aos seus companheiros, ele não podia prestar as
satisfações e mostrar-lhes de vez em quando sua familiaridade, como
os frades desejavam.
|
|