CAPÍTULO 118

Certa ocasião, o bem-aventurado Francisco foi ao eremitério de Monte Alverne; e como o lugar era muito afastado, ele gostou tanto que quis fazer aí a quaresma em honra de São Miguel. Pois fora para lá antes da festa da Assunção da gloriosa Virgem Maria, e contou os dias desde a festa de santa Maria até a festa de São Miguel, eram quarenta dias. E disse: “Em honra de Deus e da bem-aventurada Virgem Maria, sua mãe, e do bem-aventurado Miguel, príncipe dos anjos e das almas, quero fazer aqui uma quaresma”.

E aconteceu que, quando entrou na cela para lá ficar continuamente, rogou ao Senhor na primeira noite que lhe mostrasse de alguma maneira como poderia saber se era sua vontade que ficasse ali. Pois o bem-aventurado Francisco sempre foi solícito, quando estava em algum lugar continuamente em oração, ou quando saía pelo mundo em pregação, em conhecer a vontade do Senhor, segundo a qual mais pudesse agradá-lo. Porque algumas vezes temia que, com a desculpa de ficar mais afastado para orar, o corpo quisesse descansar, recusando o trabalho de ir pregando pelo mundo, pois para isso Cristo desceu do céu ao mundo.

Até mais, os que lhe pareciam amados pelo Senhor, fazia-os rogar ao Senhor que lhes mostrasse sua vontade, se devia sair pelo mundo pregando ou de vez em quando tinha que permanecer em algum lugar remoto para orar. Bem cedo, na aurora, quando estava em oração, vieram pássaros de diversos tipos para cima da cela onde ficava, não todos juntos, mas primeiro vinha um e cantava, demonstrando o seu doce verso, e depois ia embora. Depois vinha outro, cantava e ia embora; e assim fizeram todos.

O bem-aventurado Francisco ficou muito admirado com isso e teve a maior consolação, mas começou a meditar sobre o que seria isso. E foi dito pelo Senhor em espírito: “Isso é sinal de que o Senhor vai te fazer o bem nessa cela e vai dar-lhe muitas consolações”. E essa foi a verdade; pois entre muitas outras consolações ocultas e manifestas, que deus lhe fez, foi-lhe mostrada por Deus a visão de um Serafim, da qual teve muita consolação em sua alma, entre ele mesmo e o Senhor durante todo o tempo de sua vida. E aconteceu que, quando seu companheiro levou-lhe a comida, ele contou tudo que lhe tinha acontecido. E embora tivesse muitas consolações naquela cela,, os demônios também lhe causaram muitas tribulações, como contou ao mesmo companheiro.

Por isso, uma vez, disse: “Se os frades soubessem quantas tribulações me fazem os demônios, não haveria nenhum deles que não tivesse muita piedade e compaixão de mim”. E por isso, como disse muitas vezes aos seus companheiros, ele não podia prestar as satisfações e mostrar-lhes de vez em quando sua familiaridade, como os frades desejavam.